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Capital

Grupo criou chave Pix para controlar adolescente antes de induzi-la à morte

DEPCA revela que organização enviou dinheiro para compra de gilete e descobriu rede que aliciava jovens

Por Gabi Cenciarelli | 04/08/2026 16:21
Grupo criou chave Pix para controlar adolescente antes de induzi-la à morte
Policiais cumprem mandado de apreensão durante a Operação Lívia, realizada simultaneamente em cinco estados. (Foto: Polícia Civil)

Os integrantes da organização criminosa investigada pela morte de uma adolescente de 13 anos, em Naviraí, chegaram a criar uma chave Pix para a vítima e enviar dinheiro para que ela comprasse uma gilete utilizada na automutilação, sem que a mãe soubesse da existência da conta. A revelação foi feita nesta terça-feira (4), durante coletiva do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que apresentou novos detalhes da Operação Lívia e da investigação conduzida pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente, de Mato Grosso do Sul.

RESUMO

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Investigadores da Operação Lívia revelaram que integrantes de uma organização criminosa criaram uma chave Pix em nome de uma adolescente de 13 anos, morta em Naviraí (MS), para enviar dinheiro para que ela comprasse giletes usadas em automutilação. O grupo atuava pelo Telegram e Discord, controlando vítimas vulneráveis com desafios violentos transmitidos ao vivo. Cinco adolescentes foram apreendidos em cinco estados. O Ministério da Justiça notificará Discord e Telegram e acionará a ANPD.

Segundo o coordenador do Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), Alessandro Barreto, a forma como a chave Pix e a eventual abertura da conta foram realizadas ainda é alvo de investigação, mas o episódio demonstra o nível de controle exercido pelos investigados sobre a adolescente.

"A mãe não sabia que ela tinha chave Pix. Os próprios criminosos criavam chave Pix para a menina, mandavam dinheiro para comprar gilete para se automutilar. Até essa abertura de conta está sendo verificada", afirmou.

Grupo criou chave Pix para controlar adolescente antes de induzi-la à morte
Adolescente investigado por integrar organização criminosa é apreendido durante a Operação Lívia. (Foto: Polícia Civil)

As autoridades afirmaram que esse domínio ia muito além da manipulação psicológica. Segundo a investigação, os integrantes da organização controlavam o cotidiano das vítimas, determinavam desafios, acompanhavam o cumprimento das ordens em tempo real e utilizavam diferentes plataformas digitais para manter contato permanente com os adolescentes recrutados.

A investigação teve início após a morte da adolescente, registrada em julho, em Naviraí. As primeiras diligências conduzidas pela DEPCA, em conjunto com o Ciberlab, mostraram que o caso não era isolado, mas fazia parte da atuação de uma organização criminosa estruturada, com alcance nacional, voltada ao recrutamento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional.

Segundo a Polícia Civil, os investigados se aproximavam das vítimas pela internet, conquistavam sua confiança e, gradualmente, ampliavam o controle psicológico por meio de isolamento, humilhações, desafios de violência crescente, automutilação e outras exigências impostas para fortalecer o domínio exercido pelo grupo.

Grupo criou chave Pix para controlar adolescente antes de induzi-la à morte
Materiais recolhidos durante a Operação Lívia serão analisados no decorrer das investigações. (Foto: Polícia Civil)

Durante a coletiva, o secretário nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Oliveira Fernandes, explicou que a organização utilizava diferentes plataformas para executar cada etapa da ação criminosa.

"Esse grupo atua simultaneamente no Telegram, fazendo comunicações e propagandas de eventos de automutilação e de induzimento ao suicídio de crianças e adolescentes, que são transmitidos em tempo real dentro da plataforma do Discord", afirmou.

Segundo ele, foi justamente uma dessas transmissões investigadas que terminou na morte da adolescente sul-mato-grossense.

"Num desses casos, infelizmente, veio a culminar numa situação de suicídio por parte de uma vítima do Estado do Mato Grosso do Sul."

Estrutura organizada - A investigação revelou que a atuação do grupo ia muito além de um servidor criado em plataformas digitais.

Grupo criou chave Pix para controlar adolescente antes de induzi-la à morte
Equipes da Polícia Civil cumpriram mandados contra investigados por aliciar e manipular adolescentes em plataformas digitais. (Foto: Polícia Civil)

Conforme Victor Oliveira Fernandes, os policiais encontraram documentos, conversas, planejamento e discussões sobre recrutamento de novos integrantes, indicando que a organização mantinha uma estrutura permanente de funcionamento.

"Não se trata simplesmente de existir um grupo aberto numa plataforma. A investigação tem documentação de uma sistematização, mais de um grupo, uma série de diálogos, reunião de documentos e discussão sobre recrutamento de novos integrantes", explicou.

Segundo a Polícia Civil, a organização atuava de forma contínua, identificando adolescentes emocionalmente vulneráveis e submetendo as vítimas a um processo progressivo de manipulação psicológica.

Durante a apuração, os investigadores também identificaram outra vítima em outro estado e reuniram elementos que indicam a existência de outros adolescentes ainda não localizados.

Operação nacional - As descobertas deram origem à Operação Lívia, coordenada nacionalmente pela DEPCA de Mato Grosso do Sul em conjunto com o Ciberlab, da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Ao todo, foram cumpridas medidas judiciais em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pará.

Cinco adolescentes, dois de 13 anos, um de 14 e dois de 17 anos, foram apreendidos, enquanto um investigado de 18 anos foi alvo da operação. Computadores, celulares e outros equipamentos eletrônicos passarão por perícia para identificar novas vítimas, esclarecer a atuação da organização e individualizar a participação de cada investigado.

Equipes da DEPCA também foram deslocadas para acompanhar pessoalmente o cumprimento dos mandados em outros estados, reforçando o protagonismo da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul na investigação.

Nova vítima foi evitada - As autoridades revelaram ainda que a investigação impediu um novo episódio semelhante.

Segundo o delegado responsável pelo caso, o monitoramento das conversas mostrou que outro caso já estava sendo planejado. Após a apreensão de um dos adolescentes investigados, a Polícia Civil passou a identificar possíveis vítimas e localizar seus familiares.

"Pelo acompanhamento, havia o planejamento e, ontem, na apreensão do adolescente do Rio, ele confessou que realmente já estava agendado. Estamos vendo o nome das possíveis vítimas para mandar avisar os pais e responsáveis para que fiquem atentos", afirmou.

Plataformas serão notificadas

Além da responsabilização criminal dos investigados, o Ministério da Justiça informou que notificará Discord e Telegram para solicitar a suspensão das contas e dos servidores utilizados pela organização.

O Ministério da Justiça também encaminhará à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) um pedido para apurar possíveis violações ao ECA Digital e ao Marco Civil da Internet.

Segundo Victor Oliveira Fernandes, a investigação identificou indícios de falhas na verificação de idade, na supervisão parental e na moderação de conteúdo das plataformas, mecanismos que, segundo ele, deveriam dificultar a atuação de grupos voltados à exploração e manipulação de crianças e adolescentes.

Procure ajuda – Em Campo Grande, o GAV (Grupo Amor Vida) presta apoio emocional gratuito a pessoas em crise pelo número 0800 750 5554. Também é possível buscar atendimento no Núcleo de Saúde Mental ou no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), ou pelo telefone e 188 do CVV (Centro de Valorização da Vida). Em situações emergenciais, os números 190 da PM (Polícia Militar) e 193 do Corpo de Bombeiros podem ser acionados.