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Aos 52 anos, Edson e João foram levados pela covid-19 em regiões opostas de MS

De Corumbá, Edson passou de 6 a 20 de junho internado, quando faleceu; João nem mesmo teve forças para passar por internação

Por Lucia Morel | 23/06/2020 06:53
Edson, de Corumbá, ao meio, com as filhas, filho e esposa. (Foto: Arquivo Pessoal)
Edson, de Corumbá, ao meio, com as filhas, filho e esposa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Um era João e o outro Edson. Ambos tinham 52 anos e diante da covid-19 não resistiram. O João é de Itaquiraí e segundo a família, já estava desenganado por causa da diabetes avançada. Já Edson, esperava-se ainda ter muita vida pela frente, lá em Corumbá, apesar da hipertensão. Ambos também tinham histórico de obesidade.

Edson Ortiz Leite foi caminhoneiro por 30 anos e como disse o filho, Edson Alberto de Souza Leite, 27, foi em sua profissão que o vírus o infectou. Cuidadoso, ele chegou em casa, no dia 2 de junho, depois de uma viagem de 11 dias a São Paulo, e se “distanciou” da família, tentando ter o mínimo contato.

Edson estava com febre e dor de cabeça, além de muito cansado. Desconfiado de estar com covid-19, agendou teste no drive thru da cidade assim que chegou de SP, o que ficou marcado para 5 de junho. Mas acabou nem indo lá porque a situação se agravou, e no mesmo dia em que deveria ir ao drive, foi internado.

O filho conta que no dia seguinte à chegada do pai, a respiração estava ofegante e ele procurou o posto de saúde, onde teve a mucosa coletada para o teste molecular RT-PCR. A orientação foi que Edson voltasse pra casa, e se sentisse alguma piora, procurasse as unidades de saúde.

Dois dias depois, na sexta-feira, quando estava marcada a entrega do resultado do exame, a Secretaria de Saúde de Corumbá telefonou para ele informando da positividade e que deveria ser internado no sábado pela manhã. Mas como ao telefone já apresentava dificuldades na respiração, a internação foi em seguida ao telefonema.

Para o filho, que também se chama Edson, o pai era o esteio da família. (Foto: Arquivo Pessoal)
Para o filho, que também se chama Edson, o pai era o esteio da família. (Foto: Arquivo Pessoal)

Já João Francisco dos Reis nem mesmo pôde ser internado. Ele nem chegou a descobrir a doença, já que morreu um dia antes de sair o resultado, enquanto era transportado de Dourados, onde fazia hemodiálise para Itaquiraí.

Por ser população de risco, diabético e renal crônico, João fez um teste rápido de covid-19 na quarta, 17, dia de hemodiálise em Dourados. O resultado foi negativo. Mas dois dias depois, de volta à cidade, ele fez outro teste, desta vez o molecular, já que havia apresentado febre. O resultado saiu um dia depois, e deu positivo.

Mas João nem chegou a saber que havia sido infectado com covid, já que morreu no trajeto entre Dourados e Itaquiraí, depois de sair de uma sessão de diálise.

“Ele fez exame na sexta (19) e na volta ele já faleceu. Deu positivo só no sábado, mas quarta-feira ele já estava muito mal e o médico disse que a diabetes é que tinha deixado ele daquele jeito. Já esperávamos que ele piorasse, com coronavírus ou não”, disse.

Para a família, uma das únicas explicações para a infecção de João, eram as idas e vindas a Dourados.

“Acho que   foi no  carro que  levava ele (que ele foi infectado), porque  todos   testaram  positivo para covid-19, até minha  irmã  que   acompanhava ele”, contou a irmã Sueli dos Reis, de 49 anos.

Edson Ortiz ao lado da esposa, que também testou positivo para o novo coronavírus. (Foto: Arquivo Pessoal)
Edson Ortiz ao lado da esposa, que também testou positivo para o novo coronavírus. (Foto: Arquivo Pessoal)

Avanço – Internado na madrugada de sexta, 5 de junho para sábado, 6, Edson ficou na Santa Casa de Corumbá, sem contato com a família, até o dia em que faleceu, 20 de junho. “Eles (médicos e enfermeiros) nos mantinham informados sobre o estado de saúde dele todos os dias às 10h e às 16h”, contou o filho, homônimo do pai.

No sábado, 6, Edson fez a primeira tomografia no hospital, que mostrava 50% do pulmão tomado por infecção. Desse dia até falecer, ele tomou oxigênio e vários remédios. “Ele tomou toda medicação prevista e possível para tentar reverter o quadro, para tratar a infecção”, conta o filho, que agradece de coração esforços da equipe da Santa Casa da cidade.

No entanto, apesar disso, a situação se agravava e em uma segunda tomografia, 11 dias após a primeira, em 17 de junho, o pulmão já estava 90% carregado de infecção e a dificuldade de respirar ainda maior. Ele acabou não sendo entubado, e morreu três dias depois.

Para o filho, “não tenho reclamação nenhuma da equipe medica, enfermeiros. Eles sempre foram muito claros e tentaram nos passar as informações da melhor forma possível. Agradeço muito todo empenho”, sustenta.

Apesar disso, como não poderia ser diferente, a saudade é grande e aos prantos, disse à reportagem, que não conseguiu não se emocionar, que Edson, “foi um pai maravilhoso, não tem palavras pra resumir o que ele significava pra nós”, sustentou.

Trabalhador, o pai era “o esteio da casa” e “nunca mediu esforços para atender a todos e acabou se infectando para atender grande parte da nossa população, que muitas vezes não reconhece esse esforço”, definiu o filho.

Edson Ortiz Leite deixa três filhos de 21, 27 e 32 anos e dois netos, além da esposa, Maria Tereza Carvalho de Souza Leite, que assim como a filha de 21 anos, testou positivo para covid-19, mas ficaram assintomáticas.

João Francisco dos Reis, na única foto que a reportagem encontrou dele. (Foto: Arquivo Pessoal)
João Francisco dos Reis, na única foto que a reportagem encontrou dele. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quadro grave – Bastante debilitado pela diabetes, João havia passado por uma cirurgia para amputar uma das pernas dois meses antes de falecer. Lutando com a doença há pelo menos 20 anos, as doses de insulina já não apresentavam resultado positivo e a glicemia, apesar dos esforços, estava sempre alta.

“Os médicos já o haviam desenganado e diziam que a diabetes o estava matando aos poucos”, contou Sueli.

Pai de duas meninas e separado, João morava com a mãe idosa de 83 anos e outro irmão. Ele era cuidado pelos irmãos e irmãs. As filhas preferiram não conversar com a reportagem.

Antes de ter o quadro de saúde agravado pela diabetes, João trabalhava. Quando mais jovem, nos campos de cana e depois, em frigorífico. Em 2017 pegou auxílio-doença, porque já não conseguia mais trabalhar.

“Ele já tinha perdido o movimento das pernas, não sentia mais os pés e depois os rins pararam. Ele também não enxergava mais direito há uns dois anos”, disse Sueli.

Para ela, a família já se preparava para uma despedida, “porque ele estava pior já há alguns dias. Não acho que a covid-19 acelerou. De todo jeito ele ia”, lamentou, lembrando que mesmo com histórico de obesidade, o irmão comia com dificuldade nos últimos meses, depois da amputação e desenvolveu inclusive anemia. “Ele estava com uns 52 Kg só”.

Depois do resultado positivo, a família de João está isolada, inclusive as filhas. No entanto, ninguém foi testado para o novo coronavírus, nem mesmo a mãe dele, idosa, segundo Sueli. “Estamos na espera”, sustentou.

Nesta segunda-feira, Mato Grosso do Sul registrou 5.391 casos confirmados de covid-19 e 48 mortes. São 2.788 pessoas recuperadas da doença e outras 154 internadas, sendo seis de fora do Estado. Dos internados, há 71 em leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e mais 83 em leitos clínicos.

Agradecimentos aos jornalistas Erick Silva, de Corumbá e Evaldo de Souza, de Itaquiraí.

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