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Cidades

“Careca”: delegado liderava 12 policiais em engrenagem para revenda ao tráfico

Gaeco descreve estrutura com servidores das polícias Civil, Militar e Penal de MS para lucrar com drogas

Por Anahi Zurutuza | 25/09/2026 17:33
“Careca”: delegado liderava 12 policiais em engrenagem para revenda ao tráfico
Delegado Hoffman D'ávila, preso nesta quinta-feira (24), durante evento do Ministério da Justiça (Foto: Adepol-MS/Divulgação)

O “Careca”, apelido dado por traficante ao delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que comandou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) por 7 anos em Campo Grande, era o chefe do esquema que usava o aparato estatal para lucrar com a venda de drogas. O policial liderava grupo que desviava entorpecentes apreendidos para recolocá-los no mercado ilegal.

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Um delegado que comandou por sete anos a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico de Campo Grande liderava esquema que desviava drogas apreendidas para revendê-las a traficantes. A Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco, resultou em 24 mandados de prisão contra 12 policiais e outros envolvidos. O delegado se apresentou horas após agentes vasculharem sua residência.

Conforme as apurações iniciais do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), a estrutura envolvendo 9 policiais civis, 2 militares e 1 penal, foi montada em 2021, dois anos depois de Hoffman assumir o comando. A investigação sustenta que o grupo tinha uma divisão de tarefas: enquanto alguns agentes levantavam informações sobre cargas de cocaína, outros participavam das apreensões e, posteriormente, parte do material seria repassada a traficantes.

De acordo com o Gaeco, Hoffman não negociava cargas ou fazia o “trabalho de campo”, necessariamente, mas era o responsável pela “chancela institucional” do esquema.

O núcleo operacional descrito pelo Gaeco seria formado pelos policiais responsáveis pelo rastreamento de cargas, apreensões e posterior repasse dos entorpecentes.

Um dos primeiros nomes a aparecer na investigação é o de Augusto Torres Galvão Florindo, conhecido como “Paraíba”. Era ele quem, segundo as apurações, ficava responsável por localizar os carregamentos que seriam alvo da Denar. O investigador foi demitido da Polícia Civil no dia 9 de setembro, após a conclusão de PAD (Processo Administrativo Disciplinar) aberto após a prisão dele com R$ 130 mil que teriam origem no contrabando.

Também são citados os investigadores Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva.

Segundo o Gaeco, esses agentes fariam parte do grupo responsável pela etapa “braçal” do esquema. Ou seja, a apreensão das drogas vendidas a traficantes.

Além dos policiais civis, o Gaeco identificou os PMs Alison Lemes Bezerra, conhecido como “Daga” ou “Daguinha”, e Thiago Bezerra Laurentino, conhecido como “Grande” ou “Grandão”, como integrantes do núcleo operacional. O policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos completa o grupo de servidores públicos apontados na investigação.

“LK”, a ponte com traficantes – Apesar de Hoffman ser apontado pelo Gaeco como liderança institucional, a investigação descreve Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, como o elo entre os agentes públicos e os traficantes que compravam a droga.

Segundo o Ministério Público, LK recebia informações sobre carregamentos, articulava negociações, definia valores e fazia a ponte entre policiais e compradores. A investigação também aponta que ele teria utilizado familiares e pessoas próximas para movimentar dinheiro relacionado ao esquema.

Entre os alvos estão Valdenice da Silva Gois, mãe de LK, além de Ana Carolina da Silva dos Santos, Jéssica da Silva dos Santos, Lavínia Carvalho da Luz, Rayane Luiz Vieira, Matheus Gabriel Machado Bezerra e Wesley Benite Matos Pereira Duarte, apontados pelo Gaeco como integrantes de “núcleo de apoio financeiro”.

Além do núcleo policial e dos integrantes ligados a LK, a investigação também cita outros 4 alvos apontados como participantes da organização. Entre eles estão Kayon Lucas Leodoro da Silva, Eberth Batista de Almeida, Carlos Alberto Alves Fonseca e Paulo Sérgio Alves Duarte.

Na engrenagem investigada, Kayon era o responsável por repassar informações sobre carregamentos de drogas a integrantes do grupo.

“Careca”: delegado liderava 12 policiais em engrenagem para revenda ao tráfico
Fonte: Gaeco

A operação – Conforme o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), as apurações que desembocaram na Operação Infiltrados começaram em outubro de 2025, a partir de descobertas feitas nas operações Traquetos e Blindspot. A força-tarefa saiu às ruas de Campo Grande, Dourados e Terenos para cumprir 24 mandados de prisão e 38 mandados de busca e apreensão.

Hoffman não foi encontrado no início da manhã, quando agentes do Gaeco vasculharam a casa dele, no Carandá Bosque. O delegado se apresentou horas depois na Corregedoria da Polícia Civil e passou a cumprir a ordem de prisão preventiva.

As defesas dos investigados afirmam que ainda não tiveram acesso integral aos autos, que correm em sigilo, e aguardam informações sobre os elementos que motivaram as prisões. Advogados de policiais e demais alvos disseram que as detenções foram recebidas com surpresa e que vão analisar o conteúdo da investigação antes de apresentar manifestações mais detalhadas. O espaço segue aberto para futuras manifestações.