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Cidades

Clã Razuk estudava importação de jogo do “bichinho” e expansão internacional

Modalidade híbrida da loteria “animal” e exploração da modalidade no Paraguai estão em diálogos interceptados

Por Ângela Kempfer | 03/01/2026 09:07
Clã Razuk estudava importação de jogo do “bichinho” e expansão internacional
Jogo do "bichinho" em maquininha semelhante às de passar cartão de crédito (Foto: Reprodução da denúncia)

Software com imagens de bichinhos fofos que permitiria a exploração de jogo de azar em modalidade híbrida (presencial e online ao mesmo tempo) e áudio sobre a expansão dos negócios dos Razuk para o Paraguai estão nos diálogos interceptados pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) que alimentaram denúncia contra 20 pessoas oferecida à Justiça no começo de dezembro de 2025.

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O Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) descobriu que o clã Razuk planejava expandir suas operações de jogos de azar para o Paraguai. Interceptações revelaram negociações para implementar um sistema híbrido de jogo do bicho, utilizando maquininhas semelhantes às de cartão de crédito, com sorteios frequentes e imagens de bichinhos estilizados. A investigação, que resultou em denúncia contra 20 pessoas, identificou diálogos envolvendo Rafael Razuk sobre financiamento de operações no exterior. Durante a quarta fase da Operação Successione, foram apreendidos R$ 274,9 mil em espécie, documentos e equipamentos. Roberto Razuk e dois de seus filhos foram presos, com o patriarca posteriormente conseguindo prisão domiciliar.

A 4ª fase da Operação Successione, que mirou Roberto Razuk e os filhos, revela que a organização criminosa liderada pelo clã não apenas continuou operando após as ofensivas anteriores, como também planejava a expansão de suas atividades ilegais para fora do país.

Conversas extraídas do telefone de Marcelo Tadeu Cabral, de 55 anos, o Marcelão, que já teve envolvimento no jogo do bicho em Corumbá e trabalhava para os Razuk, segundo o Gaeco, são um dos pontos destacados pela acusação. Na troca de mensagens interlocutor identificado como “Artista”, posteriormente chamado de Amauri, que usa número de telefone do Paraguai, solicita o contato do deputado estadual Roberto Razuk Filho (PL), conhecido como “Neno”, o que, segundo o Gaeco, evidencia a ligação direta entre Cabral e a família.

Os investigadores identificaram tratativas sobre a exploração de jogos de azar, incluindo jogo do bicho e máquinas caça-níqueis, por meio de uma empresa de fachada. Em determinado momento, “Artista” manda um vídeo mostrando uma sala com várias máquinas de jogos on-line instaladas. Ele também envia, a pedido de Marcelo, foto do sistema em maquininha de cartão de crédito onde aposta no bicho pode ser feita. “O inter indaga Marcelo Tadeu Cabral sobre o interesse do grupo no teste de sistema híbrido do “jb” (jogo do bicho), ou seja, tanto no ambiente de rua, quanto no modo on-line”, afirma a denúncia.

O software mostra imagens de animais diferentes dos comumente vistos nas cartelas da loteria ilegal criada no Brasil. São figurinhas como de desenhos infantis. Um dos sistemas faz 24 sorteios por dia, 1 por hora, enquanto outro é capaz de fazer sorteios a cada 5 minutos, segundo o interlocutor com linha telefônica com prefixo paraguaio.

O diálogo aconteceu em outubro de 2024. “A partir daí Marcelo Cabral passa a solicitar que o interlocutor lhe forneça o caminho para que pudesse operar o sistema de apostas direcionando a colaboradores aos quais iria gerenciar”, diz o Gaeco na denúncia.

Clã Razuk estudava importação de jogo do “bichinho” e expansão internacional
Marcelo Tadeu Cabral, de 55 anos, o Marcelão (Foto: Reprodução da denúncia)

Outro aspecto sensível da denúncia envolve diálogos e áudios atribuídos a Rafael Godoy Razuk, irmão mais novo de Nego, nos quais surgem negociações para financiar a exploração do jogo do bicho em território estrangeiro. Em um áudio enviado a Marcelo Cabral, um interlocutor que se identifica como “Dr. Humberto Acuña” afirma possuir contato direto com o presidente do Paraguai e propõe uma reunião para discutir a aquisição de uma empresa licenciada para operar uma modalidade chamada “loteria diferida”, descrita como uma versão do jogo do bicho.

No conteúdo, o interlocutor menciona explicitamente a necessidade de alto investimento e destaca a experiência da organização liderada pela família Razuk na exploração desse tipo de atividade. Para o Ministério Público, o áudio demonstra a intenção do grupo de utilizar sua expertise adquirida na clandestinidade brasileira para expandir o negócio ilegal, agora sob uma possível fachada de legalidade no exterior.

“Através de áudio compartilhado por Rafael Razuk com Marcelo Cabral, gravado originalmente em espanhol por pessoa autointitulada ‘doctor Humberto Acuña’, é possível compreender que haveria negociações com o interesse por parte do integrante da família Razuk em financiar a exploração do jogo do bicho em território estrangeiro, direcionada com base no que o negociador destaca como a experiência de Rafael na organização deste tipo de atividade, que no Brasil atua na clandestinidade”, destacam os promotores Gerson Eduardo de Araujo, Tiago Di Giulio Freire, Antenor Ferreira de Rezende Neto e Moisés Casarotto na denúncia.

Para o Gaeco, o conjunto de provas — documentos, máquinas, valores em dinheiro, mensagens e áudios — revela uma organização criminosa estruturada, com divisão de funções, controle financeiro rigoroso e estratégias de expansão. A ação penal segue em andamento, e os denunciados devem responder por crimes relacionados à organização criminosa, exploração de jogos de azar e outros delitos apontados no curso da investigação.

Clã Razuk estudava importação de jogo do “bichinho” e expansão internacional
Arte inspirada nas cartelas tradicionais do jogo do bicho (Foto: Reprodução dos autos de processo)

Successione 4 – No dia 25 de novembro de 2025, o Gaeco deflagrou a quarta fase da operação para cumprir 20 mandados de prisão preventiva e 27 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Corumbá, Dourados, Maracaju e Ponta Porã, além de alvos nos estados do Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul. A ofensiva resultou na apreensão de documentos, celulares, armas de fogo, munições de diversos calibres, máquinas de exploração do jogo do bicho e uma grande quantidade de dinheiro em espécie: R$ 274,9 mil, além de moeda estrangeira e cheques. Segundo o Ministério Público, o material apreendido reforça que a organização criminosa segue ativa até os dias atuais.

Para o Gaeco, o conjunto de provas revela uma organização criminosa estruturada, com divisão de funções, controle financeiro rigoroso e estratégias de expansão. A ação penal segue em andamento, e os denunciados devem responder por crimes relacionados à organização criminosa, exploração de jogos de azar e outros delitos apontados no curso da investigação.

Roberto Razuk e os filhos Jorge e Rafael foram presos. O homem de 84 anos estava em sua casa, na Rua João Cândido Câmara, em Dourados, a 251 km da Capital. Desta vez, Neno – parlamentar com mandato e, portanto, foro privilegiado – não foi alvo do Gaeco.

A defesa dos Razuk afirmou logo após as prisões que ninguém pode ser considerado culpado antes do fim do processo e negou qualquer envolvimento em crimes. Disse ainda ser falsa a existência de organização criminosa, de plano para disputar espaço com grupos do jogo do bicho de São Paulo e Goiás e de qualquer ato de violência no Mato Grosso do Sul ou em outros estados, destacando que parte dessas acusações já está em análise judicial com defesa apresentada.

A nota conclui que todos os pontos serão esclarecidos no momento adequado e que a família aguardará uma decisão justa da Justiça, instituição que diz respeitar. O patriarca está em prisão domiciliar.

O espaço segue aberto para manifestação das defesas de outros citados.

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