Denúncia anônima levou PF à cúpula do TCE-MT em operação que chegou a MS
Investigação identificou R$ 75,8 milhões em movimentações suspeitas e resultou na prisão de 6 pessoas

Uma denúncia anônima sobre o suposto favorecimento de empresas contratadas pelo TCE-MT (Tribunal de Contas de Mato Grosso) deu início à investigação que levou a Polícia Federal à cúpula da instituição nesta quinta-feira (29). A Operação Tomada de Contas chegou a Campo Grande, onde agentes cumpriram mandados de busca e apreensão.
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O relato chegou ao MPF (Ministério Público Federal) e levou o STJ (Superior Tribunal de Justiça) a determinar a abertura de uma sindicância. Segundo informações divulgadas pelo portal Olhar Direto, a decisão do ministro Og Fernandes detalha suspeitas de um esquema que utilizava a suspensão de contratos administrativos para pressionar fornecedores e obter vantagens indevidas em troca da liberação de pagamentos.
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A investigação começou com a análise de duas portarias que o presidente do tribunal, Sérgio Ricardo de Almeida, editou em 2024. Os documentos suspenderam contratos sob a justificativa de contenção de despesas, mas permitiram exceções para determinadas empresas.
Ainda conforme o Olhar Direto, os pagamentos mensais do tribunal aumentaram R$ 13 milhões durante o período de suspensão, enquanto algumas prestadoras de serviços registraram crescimento de até 327% no faturamento.
A apuração da PF identificou R$ 75,8 milhões em movimentações financeiras consideradas suspeitas, pagamentos fora dos procedimentos regulares e saques milionários realizados por servidores dentro do próprio tribunal.
No rastro do dinheiro – Essas descobertas levaram os investigadores a aprofundar o rastreamento das contas bancárias de conselheiros e servidores. A análise de transações realizadas entre 1º de janeiro e 22 de outubro de 2025, período de 294 dias, identificou R$ 75.858.726,27 em movimentações atípicas. Parte do dinheiro teria circulado por pagamentos extraordinários, fora da folha convencional, e por contas de pessoas ligadas à administração do tribunal.
A quebra de sigilo bancário revelou que Sérgio Ricardo recebeu R$ 15.442.211,65 em suas contas durante o período analisado. O valor contrasta com os R$ 288.501,05 que o Portal da Transparência registrou como remuneração oficial do presidente. Segundo o Olhar Direto, os investigadores também identificaram 150 saques em espécie vinculados ao conselheiro, que somaram R$ 15.645.500,00.
O consultor jurídico-geral do tribunal, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, aparece como o maior beneficiário individual das transferências identificadas pela investigação, com R$ 32.310.120,43. Desse montante, R$ 31,6 milhões passaram por 179 ordens bancárias avulsas distribuídas em 12 contas de nove instituições financeiras.
Outro investigado, o assistente jurídico Gustavo Fernandes da Silva, recebeu R$ 15.892.850,54, segundo os dados divulgados pelo Olhar Direto. A PF aponta que ele atuava na movimentação dos recursos e realizava retiradas de dinheiro diretamente nos caixas bancários.
Felipe José Glinke, assessor jurídico da Presidência, também aparece nas análises financeiras, com R$ 9.932.818,72 em créditos. Conforme a investigação, ele participava dos saques realizados na agência da cooperativa Sicoob instalada dentro do tribunal.
Dentro do tribunal – Os investigadores analisaram imagens de câmeras de segurança que registraram servidores retirando quantias elevadas em espécie na agência bancária que funciona na sede do TCE-MT.
A informação, divulgada inicialmente pela jornalista Camila Bomfim, da GloboNews, também apareceu em reportagem do Olhar Direto. Segundo a apuração, o cruzamento das gravações com extratos bancários revelou coincidências entre a entrada de recursos nas contas e os saques realizados logo em seguida.
A Polícia Federal também identificou retiradas fracionadas de dinheiro. A suspeita é que parte dessas operações tenha ocorrido em valores próximos, mas inferiores aos limites que exigem comunicações automáticas aos órgãos de controle financeiro.
Um episódio registrado em outubro de 2025 chamou a atenção dos investigadores. Policiais federais realizavam uma diligência de observação na sede do tribunal quando o sistema de controle de acesso identificou a presença da equipe. Um agente recebeu uma abordagem da segurança privada da instituição.
Segundo a decisão judicial relatada pelo Olhar Direto, os investigados alteraram temporariamente o padrão de movimentação financeira. Os saques diminuíram e parte dos recursos permaneceu em contas bancárias ou aplicações. A partir de maio de 2026, porém, os investigadores voltaram a identificar retiradas de grandes quantias.

Saque de R$ 3,5 milhões – A investigação também aponta a participação de Roseli Loss, chefe de gabinete da Presidência e uma das seis pessoas presas. Conforme o Olhar Direto, ela administrava contas bancárias de Sérgio Ricardo e teria realizado saques que somaram R$ 3.520.600 em espécie nas dependências do tribunal.
Roseli mantinha nas redes sociais registros de viagens e hospedagens em hotéis de luxo. Entre os estabelecimentos mencionados pelo portal está o Rosewood, em São Paulo (SP), onde ela se hospedou em uma suíte cuja diária pode custar R$ 11 mil.
A servidora também compartilhou um vídeo humorístico sobre o receio de chamar a atenção da Receita Federal por apresentar nas redes sociais um padrão de vida incompatível com o saldo bancário. As publicações passaram a receber atenção da imprensa local devido às suspeitas financeiras, embora não constituam, isoladamente, prova de irregularidade.
Outro investigado é Adriangelo Barros Antunes, secretário executivo de comissão permanente do tribunal e ex-cunhado de Sérgio Ricardo. Segundo o Olhar Direto, a PF identificou R$ 2.280.724,93 em valores recebidos por ele. Os investigadores suspeitam que Adriangelo atuava no transporte de dinheiro em espécie e participava da movimentação dos recursos que Roseli retirava das contas.
Conselheiros sob investigação – A PF chegou à alta cúpula do TCE-MT. Conforme o portal RepórterMT, a quebra de sigilos bancários identificou R$ 48,4 milhões em créditos suspeitos relacionados a conselheiros do tribunal.
O levantamento divulgado pelo veículo atribui R$ 15,4 milhões a Sérgio Ricardo, R$ 10,6 milhões a Guilherme Maluf, R$ 8,8 milhões a José Carlos Novelli, R$ 8,1 milhões a Alisson Alencar e R$ 6,6 milhões ao conselheiro aposentado Valter Albano.
A decisão do STJ também autorizou o bloqueio de bens e valores num montante de R$ 145 milhões, segundo o RepórterMT. Os investigadores suspeitam que parte dos recursos tenha sido direcionada a empresas familiares de administração patrimonial e sociedades ligadas à criação de cavalos de raça.
Seis presos – Além de Sérgio Ricardo, a Polícia Federal prendeu Roseli Loss, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, Adriangelo Barros Antunes, Gustavo Fernandes da Silva e Felipe José Glinke.
A Justiça manteve as seis prisões durante as audiências de custódia realizadas na tarde desta quinta-feira (29), em Cuiabá.
A prisão do presidente provocou mudanças no comando do TCE-MT. O vice-presidente Waldir Júlio Teis assumiu interinamente a instituição. O STJ também determinou o afastamento dos conselheiros Guilherme Maluf, José Carlos Novelli e Alisson Alencar.
Apreensões – Durante o cumprimento dos mandados, policiais encontraram grandes quantidades de dinheiro em espécie, relógios de luxo, joias e veículos importados.
As imagens divulgadas pela PF mostram pilhas de cédulas sobre uma mesa e cinco caixas de arquivo cheias de dinheiro no porta-malas de um veículo. Os agentes também apreenderam veículos das marcas Audi e Mercedes-Benz.
Conforme O Matogrossense, a operação recolheu dinheiro em reais, dólares e euros, mais de 30 relógios de luxo e dois automóveis de alto padrão.
Em Campo Grande – A Operação Tomada de Contas mobilizou mais de 180 policiais federais para cumprir 6 mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. O STJ também autorizou quebra de sigilos, bloqueio de bens e afastamento de investigados de suas funções. São investigados crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Em Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão. As ordens integram a mesma investigação sobre contratos, pagamentos e movimentações financeiras no TCE de Mato Grosso.
Até o momento, a corporação não divulgou quantos endereços receberam as equipes em Campo Grande, quem são os alvos locais nem quais materiais os policiais recolheram nas buscas. Também não esclareceu se os investigados com vínculos no Estado participaram diretamente das movimentações financeiras apontadas na decisão judicial.

