Rezadeira de 90 anos tem casa incendiada pela segunda vez em Tacuru
Conforme a Aty Guasu, caso ocorreu por intolerância religiosa contra a liderança espiritual Kaiowá e Guarani
A casa da rezadeira Roberta, de 90 anos, foi incendiada na manhã desta quinta-feira (29), na Aldeia Jaguapiré, em Tacuru, a cerca de 410 quilômetros de Campo Grande. Segundo denúncia da Aty Guasu, organização que representa os povos indígenas Kaiowá e Guarani, o incêndio foi criminoso. A entidade afirma que a rezadeira sofre racismo e intolerância religiosa por manter as práticas espirituais tradicionais da comunidade.
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Esta é a segunda vez que uma casa onde Roberta morava é destruída pelo fogo. Segundo Valdenir Romero, liderança indígena da Jaguapiré, a primeira residência, feita de sapé, também foi queimada. No incêndio desta quinta-feira, a idosa perdeu os pertences que mantinha na casa e ficou sem lugar para morar.
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“Fico muito triste mesmo. Perderam tudo os objetos dela. Ela é uma grande rezadora, tem história na Aldeia Jaguapiré, é moradora daqui da aldeia”, relatou Valdenir. Segundo ele, Roberta morava sozinha no local. Apesar da gravidade da situação, ninguém ficou ferido.
Em denúncia divulgada nesta quinta-feira, a Aty Guasu afirma que o fogo destruiu instrumentos sagrados utilizados nos rituais tradicionais, como takua, xiru, mbaraka e mimby. A entidade também relata que Roberta é alvo de acusações de feitiçaria e de perseguição por exercer sua espiritualidade e defender a cultura dos povos Kaiowá e Guarani.
A organização relaciona a denúncia a outras violações relatadas na região de Jaguapiré, onde, após o segundo turno das eleições, houve ameaças de envenenamento da água consumida pela comunidade indígena.
A Aty Guasu cobra investigação e responsabilização dos envolvidos e afirma que casos de destruição de espaços sagrados nas aldeias precisam ser apurados.
Até o momento, segundo Valdenir, não há informação sobre quem teria provocado o incêndio. A liderança também demonstrou preocupação com a situação da idosa, que perdeu a moradia e pode ter tido documentos e outros pertences destruídos. A comunidade busca formas de ajudá-la após o ocorrido.
Casos de intolerância política - O incêndio se soma a uma série de manifestações contra indígenas de Tacuru após o resultado do segundo turno das eleições. A troca de áudios entre servidores municipais, denunciada pela APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) na segunda-feira (26), trouxe ameaças de envenenamento da água consumida pelos moradores da Aldeia Sassoró. Nas gravações, um dos homens sugere colocar veneno no abastecimento para matar indígenas, em reação ao resultado eleitoral no município, onde Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 62,19% dos votos válidos, o equivalente a 3.189 votos.
A denúncia mobilizou órgãos federais. O Ministério dos Povos Indígenas encaminhou uma nota técnica à Polícia Federal para pedir a identificação e a responsabilização dos envolvidos. Já o MPF (Ministério Público Federal) deu prazo de 48 horas para a Prefeitura de Tacuru explicar o caso e informar quais medidas adotou para proteger a comunidade.
Nesta terça-feira (28), a DPU (Defensoria Pública da União) também instaurou procedimento e classificou as manifestações como discurso de ódio de caráter racista e discriminatório, além de recomendar medidas de segurança e vigilância sanitária na aldeia.
Nesta quinta-feira (29), a Prefeitura informou que instaurou um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) e afastou os dois servidores envolvidos. Um deles atuava na condução de caminhões-pipa responsáveis pelo abastecimento de água da comunidade indígena.
Em nota, a administração municipal repudiou manifestações de racismo, discriminação, incitação à violência e ameaças contra os povos indígenas e afirmou que colabora com as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.
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