Diante de um sequestro-relâmpago, você saberia o que fazer para sair vivo?
Capital teve 20 casos acompanhados pelo Campo Grande News nos últimos 5 anos
Ser abordado por criminosos, obrigado a entrar em um veículo e realizar transferências bancárias sob ameaça. Em um sequestro relâmpago, decisões tomadas em poucos segundos podem colocar a vida da vítima em risco. Mas o que fazer para atravessar essa situação sem agravar o perigo?
RESUMO
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Embora raros em Campo Grande, o Campo Grande News acompanhou 20 sequestros relâmpago em cinco anos, o mais recente em 16 de junho, com uma servidora aposentada que perdeu cerca de R$ 40 mil. O delegado Edson Caetano orienta manter a calma, obedecer e não reagir. Recomenda reduzir limites de Pix, acionar a PM pelo 190, registrar boletim e avisar o banco após a libertação. Detalhes como trajeto e características dos suspeitos ajudam a investigação.
Para responder à pergunta, o Campo Grande News conversou com o delegado Edson Caetano, da Depac Cepol (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário do Centro Especializado de Polícia Integrada), que explicou como identificar sinais de risco, quais atitudes evitar durante o crime e o que fazer após a libertação.
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O caso mais recente acompanhado pela reportagem ocorreu em 16 de junho deste ano, quando uma servidora aposentada foi sequestrada em frente ao TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, e perdeu cerca de R$ 40 mil. Este foi um dos 20 casos noticiados pela reportagem nos últimos 5 anos, conforme levantamento próprio.
Entre os sinais que exigem atenção, o delegado cita ser seguido por um carro ou uma moto por vários quarteirões, perceber pessoas paradas perto do veículo, da garagem ou de um caixa eletrônico sem motivo aparente, apenas observando o movimento. Pequenas colisões provocadas de propósito no trânsito ou alguém alertando sobre um suposto pneu furado para fazer o motorista parar também podem indicar risco.
Outro sinal de alerta são os “encontros marcados por aplicativos de relacionamento em que a pessoa muda o local na última hora, para um lugar isolado, um bairro distante ou um imóvel fechado”.

Durante o sequestro - Se a pessoa for sequestrada, a primeira recomendação é priorizar a própria vida e a de quem estiver com ela. “Dinheiro, celular e carro são bens que podem ser recuperados ou ressarcidos; a vida, não. A vítima deve manter a calma, obedecer às ordens e não oferecer resistência”, orienta o delegado.
Também é recomendado não tentar reagir, discutir, gritar ou desarmar o criminoso. Movimentos bruscos, como levar a mão ao bolso, à bolsa ou ao porta-luvas sem avisar, podem colocar a vítima em risco. “Mantenha as mãos visíveis, fale com calma e avise antes de qualquer movimento: ‘vou pegar o celular no bolso’, ‘vou abrir o aplicativo’”, explica.
Encarar o sequestrador ou dizer que vai reconhecê-lo também deve ser evitado. O mesmo vale para mentir sobre saldo bancário, senhas ou limites e tentar fugir de forma arriscada, como saltar de um carro em movimento. Se o criminoso exigir transferências bancárias, a orientação é não recusar nem tentar negociar.
"Durante a ação, a orientação é colaborar. Recusar a senha ou barganhar valores irrita os criminosos e aumenta o risco de agressão. As providências para tentar recuperar o dinheiro começam depois que ela estiver em segurança”, detalha.
Como reduzir os prejuízos - Para evitar prejuízos maiores, o delegado orienta adotar precauções antecipadamente, como reduzir os limites de Pix e de outras transferências, principalmente durante a noite. “Pelas regras do Banco Central, o limite padrão entre 20h e 6h é de R$ 1.000,00 para pessoa física, e o cliente pode diminuí-lo”, afirma.
Outra alternativa é ativar o prazo de carência para aumentar o limite de transferências. “Assim, o banco só libera um limite maior depois de algum tempo, e o criminoso não consegue aumentá-lo na hora. Verifique com seu banco se é possível reduzir ou bloquear empréstimos pré-aprovados no aplicativo, porque os criminosos também costumam contratá-los”, orienta.
Quando possível, também é recomendado usar um “celular de rua”, com apenas uma conta bancária e pouco dinheiro disponível. “Deixe os aplicativos com saldo maior e investimentos em outro aparelho, guardado em casa. Assim, se a vítima disser ‘meu limite é baixo’, estará falando a verdade, e o criminoso poderá confirmar isso na tela”, explica.
O que fazer depois? - Assim que o criminoso libertar a vítima, a recomendação é procurar um local seguro e movimentado e pedir ajuda. A PM (Polícia Militar) deve ser acionada o mais rápido possível, pelo telefone 190, para serem iniciadas as buscas pelos suspeitos. A vítima também deve registrar boletim de ocorrência em uma delegacia da Polícia Civil.
"Atenção: se o seu carro foi usado pelos criminosos, não o limpe antes de falar com a polícia. Pode haver impressões digitais e outros vestígios”, ressalta o delegado.
Somente após estar em segurança, a vítima deve entrar em contato com o banco para solicitar o bloqueio de contas e cartões e informar sobre possíveis empréstimos contratados pelos criminosos. “Quanto mais cedo, maior a chance de o dinheiro ainda estar na conta de destino e ser bloqueado”, afirma.
Se o celular tiver sido levado, o chip e o aparelho também devem ser bloqueados. A vítima deve guardar todos os números de protocolo do banco. Caso o problema não seja resolvido pelo SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor), a orientação é procurar a ouvidoria da instituição e, depois, registrar uma reclamação no Banco Central.
O que a polícia precisa saber? - A vítima pode não se lembrar de todos os detalhes, mas algumas informações ajudam na identificação dos criminosos. Por isso, o delegado orienta informar, durante o registro da ocorrência, a data, o horário e o local da abordagem e da liberação.
Sobre os suspeitos, características como altura, cor da pele, tatuagens, cicatrizes, sotaque, roupas, apelidos ou nomes mencionados entre eles podem ajudar. Caso tenha sido utilizado algum veículo, também é importante informar o modelo, a cor, a placa, mesmo que parcialmente, além de adesivos e amassados.
Os trajetos percorridos, o tempo aproximado de deslocamento, as armas utilizadas, as transações e os empréstimos realizados, os objetos levados, as conversas e as ligações feitas pelos criminosos durante a ação também contribuem para as investigações. “Nenhum detalhe é pequeno demais. Um apelido ou um sotaque pode ser decisivo para a investigação”, destaca.
Durante as investigações, a polícia pode seguir diferentes linhas de apuração, entre elas rastrear o dinheiro transferido pelas vítimas. “Com autorização judicial, a polícia identifica os titulares das contas que receberam os valores, inclusive as chamadas ‘contas laranja’. Quem empresta ou vende a própria conta para receber dinheiro de crime também pode responder criminalmente”, afirma o delegado.
Também podem ser utilizadas imagens de câmeras públicas e privadas ao longo do trajeto, leitores de placas, sistemas de monitoramento de trânsito, dados de telefonia, perícia dos veículos e reconhecimento dos suspeitos pela vítima. “Quando a vítima é levada a vários lugares, cada parada é uma nova chance de haver câmera ou testemunha. Por isso, o relato detalhado do trajeto é tão importante”, explica.
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