Empresário preso por fraude bancária usava Discord para vender cartões clonados
Plataforma ganha destaque num momento em que o aplicativo tem sido associada à morte de adolescente

Réus em operação contra fraude bancária usavam a plataforma de mensagens Discord para negociar e vender milhares de cartões de crédito clonados. O grupo, que foi alvo da Operação Cyber Trap, da Polícia Federal, em 21 de maio deste ano, usava o aplicativo como uma espécie de vitrine virtual para distribuir os dados bancários obtidos ilegalmente para compradores de diversas regiões do país. O empresário Pedro Henrique Galvão Oliveira, aqui de Campo Grande, era o líder do esquema e está preso.
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A investigação começou após a CEF (Caixa Econômica Federal) identificar a exposição e a comercialização de dados de seus clientes em um site mantido na internet. A partir do rastreamento dessa página, os peritos federais conseguiram mapear a rede e descobriram que ao menos 13 instituições financeiras do país foram afetadas pela fraude, resultando na apreensão de bases com mais de 20 milhões de números de cartões de crédito. Os prejuízos apurados inicialmente somam até R$ 140 milhões de dinheiro de clientes das instituições movimentados indevidamente.
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A utilização do aplicativo Discord no caso ganha destaque num momento em que a plataforma tem sido associada à morte da adolescente Lívia, de 13 anos, que teria sido induzida a participar de um desafio virtual que a levou a tirar a própria vida.
Já no caso do esquema do grupo cibernético investigado, o Discord servia para que os criminosos operassem a venda direta das informações bancárias e mantivessem o negócio em pleno funcionamento. A perícia da Polícia Federal identificou que o aplicativo continuou sendo ativamente utilizado para o compartilhamento de números de cartões de crédito inclusive poucos dias antes de os mandados de busca e prisão serem cumpridos.
Líder - No topo da organização criminosa denunciada pela Justiça Federal está Pedro Henrique Galvão Oliveira, apontado como o líder e criador da estrutura tecnológica responsável pela captura, teste e venda das informações bancárias. Pedro Henrique utilizava codinomes na internet para administrar os servidores e mascarar a origem de suas conexões, sendo o principal beneficiário dos recursos captados pelas fraudes.
Conforme decisão da 5ª Vara Federal de Campo Grande, que o tornou réu junto com outros envolvidos, ele contava com o auxílio direto de sua mãe, Walcineia de Arruda Galvão, que figurava formalmente como proprietária de veículos de luxo adquiridos com os valores obtidos com os crimes, entre eles, um Mustang apreendido em sua casa aqui na Capital. A ex-esposa dele, identificada no processo apenas pelas iniciais, também usufruía dos ganhos ilícitos para custear despesas pessoais e bens de elevado valor, integrando o núcleo familiar do esquema.
A PF identificou ainda que o grupo diversificou o uso das plataformas digitais para criar um ecossistema completo de captação e monetização das fraudes. Além do Discord, aplicativo utilizado predominantemente para a negociação direta com outros criminosos e para o repasse automatizado de lotes de cartões, a organização recorria ao Telegram e WhatsApp.
O primeiro servia como canal de difusão de promoções, atendimento ao cliente e contratação de serviços automatizados de pagamento, funcionando como uma extensão comercial para alcançar um público comprador ainda maior em todo o país. No segundo, havia participação em grupos fechados para divulgar e captar clientes.
A captação das informações das vítimas e o monitoramento da eficácia das fraudes ocorriam por meio de outras ferramentas cibernéticas integradas. O grupo coletava dados em massa por meio de páginas falsas criadas para enganar correntistas, além de adquirir bases hackeadas.
Para garantir que os cartões vendidos estivessem ativos e com limite disponível, os investigados utilizavam servidores virtuais de alta capacidade configurados para rodar programas conhecidos no meio cibernético como checadores, que testavam milhares de combinações por minuto de forma invisível.
A movimentação do dinheiro obtido com a comercialização das informações roubadas dependia do envolvimento de outras pessoas que cederam suas contas bancárias e dados pessoais. Integrantes denunciados como intermediários forneciam chaves do sistema de pagamentos instantâneos para que os compradores dos cartões clonados fizessem as transferências de dinheiro.
Esses valores entravam inicialmente em contas de terceiros e em perfis cadastrados em plataformas digitais de pagamento, dificultando o rastreamento direto do dinheiro até os organizadores do esquema.
Com o dinheiro acumulado através das transferências fracionadas, o grupo iniciava a etapa de dissimulação do patrimônio ilícito. Uma das estratégias mais utilizadas era a compra de veículos de alto padrão que permaneciam registrados em nome de parentes sem capacidade financeira comprovada ou de terceiros que atuavam como laranjas.
Modelos de marcas importadas e caminhonetes esportivas ficavam sob a posse de Pedro Henrique e de pessoas próximas, garantindo a fruição do lucro das fraudes sem que os automóveis aparecessem formalmente no nome do verdadeiro proprietário.
Empresas de fachada - Outro pilar da engenharia financeira montada pela organização criminosa envolvia a utilização de empresas comerciais em Campo Grande para misturar dinheiro limpo e recursos vindos dos golpes. O estabelecimento Severina Bar Comércio de Bebidas, do qual Pedro Henrique era sócio, que movimentou mais de R$ 30,8 milhões entre 2022 e 2024. A empresa apresentava fluxos financeiros desproporcionais ao seu porte comercial, realizando repasses frequentes para os investigados e transferia quantias vultosas para empresas de fachada e agências de publicidade.
O pai do líder da organização, Vanderlei Almeida de Oliveira, usou sua microempresa individual do ramo de produção musical, a VR Music, para fazer circular os recursos obtidos pelo filho. A firma, com capital social de R$ 5 mil, repassou R$ 1,5 milhão para Pedro em 2022. A investigação constatou que as movimentações financeiras entre pai e filho ocorriam sem qualquer justificativa comercial legítima, funcionando como uma ponte para mascarar a origem do dinheiro.
Além disso, uma rede de farmácias, Farma Forte, ligada ao grupo, também desempenhava papel relevante na ocultação dos ganhos cibernéticos. A drogaria era utilizada para receber depósitos oriundos de outras empresas comerciais, incluindo oficinas mecânicas e conveniências da Capital que faziam transferências constantes para o estabelecimento. Pedro Henrique chegou a declarar em depoimento que sua inclusão no quadro societário de drogarias ocorria de maneira formal para viabilizar a circulação dos valores e dificultar a identificação dos reais operadores do negócio.
As investigações da Polícia Federal apontaram que estabelecimentos comerciais de ramos variados em Campo Grande repassavam valores de forma repetida para o líder do esquema e para seus familiares. Oficinas automotivas e conveniências recém-abertas realizavam dezenas de transações bancárias em um curto espaço de tempo direcionadas às contas pessoais dos réus e das empresas controladas por eles. Esse fluxo cruzado de capital criava uma teia de transferências que visava impedir a atuação dos órgãos de fiscalização financeira.
A decisão da Justiça Federal ao aceitar a denúncia do MPF (Ministério Público Federal) destacou que a estrutura do grupo era altamente profissional e mantinha um volume constante de transações. Os réus responderão por crimes de organização criminosa, furto qualificado mediante fraude eletrônica e lavagem de dinheiro. A denúncia detalha cada um dos fatos apurados, desde a invasão e captação das chaves bancárias até os métodos empregados para integrar os milhões de reais ao mercado formal.
O processo segue na 5ª Vara Federal de Campo Grande, onde os réus foram citados para apresentar suas defesas prévias. O líder do esquema teve a prisão preventiva mantida para evitar a continuidade das atividades ilícitas e diante do risco de fuga pela proximidade do Estado com as fronteiras internacionais. A ação penal prosseguirá com a análise das provas documentais, periciais e o depoimento das testemunhas arroladas pelas partes.
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