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Cidades

Pandemia criou legião de pacientes à espera por exame e cirurgia em Campo Grande

Há casos de pacientes que esperam exames desde o ano passado, assim como cirurgias para conseguir trabalhar

Por Paula Maciulevicius Brasil e Cristiano Arruda | 16/07/2021 14:28
Depois de quebrar osso de punho, dona Rita aguarda cirurgia pelo SUS. (Foto: Henrique Kawaminami)
Depois de quebrar osso de punho, dona Rita aguarda cirurgia pelo SUS. (Foto: Henrique Kawaminami)

Firmina e Rita. Duas mulheres que estão à espera de chegar a vez no exame ou cirurgia. Cada uma tem seu tempo e razão, e representam uma legião de pessoas que a pandemia criou: pacientes que estão em casa aguardando para serem atendidas.

Por conta da covid-19, os hospitais que atendem SUS em Campo Grande suspenderam as cirurgias chamadas eletivas. A fila acumula quem já esperava e quem entrou na conta durante os últimos meses em que toda a saúde pública se voltou só para o coronavírus.

O novo normal significa também isso, lidar com velhos problemas que não desapareceram, como a falta de vagas, apenas foram para segundo plano diante da urgência da covid.

Dona Firmina com encaminhamentos em mãos está desde dezembro esperando para fazer exame de colonoscopia. (Foto: Arquivo Pessoal)
Dona Firmina com encaminhamentos em mãos está desde dezembro esperando para fazer exame de colonoscopia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Dona Dona Firmina Galeano tem 74 anos e desde dezembro de 2020 espera conseguir realizar um exame de colonoscopia.

A data marca o dia em que ela passou por uma consulta na UBS da Vila Progresso, depois de sentir dores no estômago. Tudo o que a idosa vinha comendo, provocava diarreia.

Os médicos passaram a coloscopia, ela entrou na espera para ser agendada, mas até hoje não conseguiu marcar.

A família relata que ninguém entrou em contato para o agendamento. Até chegaram a ver quanto custaria o exame no particular, mas o preço é muito pesado, cerca de R$ 1,2 mil.

Seis meses depois da consulta no SUS, dona Firmina voltou ao médico, desta vez um particular, que adicionou além da colonoscopia uma tomografia de crânio por conta das fortes dores de cabeça que Firmina vem sentindo e o histórico familiar de AVC e câncer.

Novamente ela vai ao posto de saúde tentar marcar, mas desta vez torce para pelo menos ligarem agendando o horário.

"Nós não temos condições de pagar pelos exames", desabafa.

Rita de Cássia entrou na fila de espera de cirurgia em maio, e apesar de parecer "pouco" o tempo, ela pode perder de vez os movimentos da mão. (Foto: Henrique Kawaminami)
Rita de Cássia entrou na fila de espera de cirurgia em maio, e apesar de parecer "pouco" o tempo, ela pode perder de vez os movimentos da mão. (Foto: Henrique Kawaminami)

Firmina não está sozinha nesta. O tempo de espera da empregada doméstica Rita de Cássia Floriano de Araújo, de 52 anos, pode ser "pouco" como ela mesma já ouviu do atendente do CEM (Centro Especializado Municipal) ao ligar para saber se tinha alguma previsão da cirurgia, mas cada dia que passa ela corre o risco de perder os movimentos da mão direita.

"No mês passado eu liguei e falaram: 'olha, está com muito pouco tempo que lançou no sistema o seu pedido, talvez ano que vem sai'", conta.

O acidente que lhe colocou na espera aconteceu em setembro do ano passado. Rita caiu e quebrou o osso do punho, foi ao posto e ao CEM onde foi atendida e teve o braço imobilizado.

Osso do punho quebrado trouxe à empregada doméstica dores e lenta perda de movimentos, enquanto espera cirurgia. (Foto: Henrique Kawaminami)
Osso do punho quebrado trouxe à empregada doméstica dores e lenta perda de movimentos, enquanto espera cirurgia. (Foto: Henrique Kawaminami)

Foram 15 dias até retornar com a tala na mão direita, depois mais 15 dias. As dores continuaram até que Rita foi encaminhada para um especialista de mão, que pediu um exame de ultrassom.

"Pelo CEM era mais de um ano para fazer, eu paguei pela PAX e levei. A consulta foi dia 14 de maio, e ela falou que eu tinha que fazer a cirurgia, e me deu o encaminhamento", explica.

Mostrando as mãos hoje, Rita explica que o nervo vem inchando e já sente os dedos atrofiarem. "Tem dia que eu não aguento fazer nada. Esses quatro dedos estão dormentes", demonstra.

Os ossos acabaram se afastando e a dor é tamanha que tem dia que Rita é dispensada dos serviços. "O dia que eu passo roupa, por exemplo, à noite não durmo com dor", descreve.

Entre os afazeres da vida, passar roupa lhe traz tanta dor a ponto de empregada não conseguir dormir. (Foto: Henrique Kawaminami)
Entre os afazeres da vida, passar roupa lhe traz tanta dor a ponto de empregada não conseguir dormir. (Foto: Henrique Kawaminami)

Dona Rita ouviu, ainda no CEM, que não tem previsão dela ser chamada. "A moça só falou: 'vai demorar', diz que é por causa da pandemia que não está fazendo cirurgia. Mas tem gente que está bem antes da pandemia na fila de espera", desabafa.

O maior medo de Rita é perder os movimentos das mãos. "A médica falou que se eu não fizer a cirurgia, vai chegar uma hora que vou perder sim. Tem muita gente na fila de espera", completa.

Volta das cirurgias - A Secretaria Estadual de Saúde informou que está organizando a retomada das cirurgias eletivas e exames de alta complexidade em casos que não represente risco de morte, mas que a data de retomada e como será feita ainda serão anunciados, de maneira oficial, após definições.

O mesmo repete a prefeitura de Campo Grande. "São realizadas apenas aquelas que são consideradas de urgências" ou que podem levar à morte se não realizadas dentro de um período específico. É aberta exceção para cirurgias ortopédicas em até 15 dias, mas só quando há fratura óssea.

"Neste momento não há previsão para que esses procedimentos sejam retomados, uma vez que poderá impactar diretamente na ocupação de leitos clínicos e de UTI nos hospitais, que são utilizados, em parte, para o tratamento adequado de pacientes que estão infectados com o novo coronavírus", diz a Sesau.

Na Santa Casa de Campo Grande, a assessoria de imprensa informou que as cirurgias eletivas seguem suspensas temporariamente desde o início da pandemia, mas que alguns procedimentos de especialidades essenciais e que poderiam oferecer risco à vida dos pacientes estão sendo realizados conforme o termo aditivo específico pactuado com o Poder Público no final de 2020, diante da pandemia.

A exceção vale para as áreas de: oftalmologia, oncologia, urologia, nefrologia e cirurgia cardiovascular.

Ainda segundo a assessoria, o retorno depende das novas recomendações das autoridades públicas. "Pois seguimos a determinação que consta na resolução municipal que dispõe sobre a ampliação da suspensão de cirurgias eletivas, nas redes pública e privada de saúde do município de Campo Grande, em razão da pandemia da covid".

O Hospital Universitário afirmou que tem a expectativa de voltar em agosto, mas com a reabertura do PAM (Pronto Atendimento Médico) que ocorreu neste mês de julho, o hospital está recebendo muitos pacientes de urgência e emergência que estão sobrecarregando as equipes cirúrgicas.

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