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Cidades

Pelo SUS, mulheres que não conseguem engravidar só acessam tratamento fora de MS

Na rede privada, o custo de uma fertilização in vitro (FIV) por ciclo varia de R$ 25 mil a R$ 50 mil

Por Inara Silva e Lucia Morel | 07/07/2026 10:28
Pelo SUS, mulheres que não conseguem engravidar só acessam tratamento fora de MS
Mila segura exame nas mãos, uma das etapas para tentar engravidar (Foto: Paulo Francis)

Há cerca de 20 anos, a assistente administrativa Mila dos Santos Pereira, de 39 anos, tenta realizar o sonho de ser mãe. Nesse período, ela já passou por três tentativas de tratamento de fertilização em clínica privada, todas interrompidas por complicações de saúde. “Eu começo a fazer o tratamento e o fígado começa a ter muita alteração, daí eu tenho que parar”, relata Mila ao explicar que tem colestase genética, uma doença hereditária que afeta o fígado e impede o fluxo normal da bile.

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Mila dos Santos Pereira, de 39 anos, tenta realizar o sonho de ser mãe há duas décadas, mas enfrenta barreiras financeiras e a ausência de serviços públicos de reprodução assistida em Mato Grosso do Sul. O estado não conta com nenhum centro pelo SUS, e os dois ambulatórios que existiam foram encerrados. Na rede privada, uma fertilização in vitro pode custar até R$ 60 mil, valor inacessível para a maioria dos brasileiros.

Ela agora tenta o tratamento pelo SUS (Sistema Único de Saúde), e já tem em mãos o encaminhamento para avaliação ginecológica, mas aguarda consulta pelo sistema público. “Eu passei com o médico da família em fevereiro. E ele marcou uma consulta. Só que até hoje não saiu essa consulta”, conta. Mas além disso, ao final do processo, caso consiga completar todos os exames, terá que fazer os testes de fertilização fora de Mato Grosso do Sul.

Atualmente o Estado não conta com nenhum serviço de reprodução assistida pela rede pública, nem em Campo Grande nem no interior. Os dois ambulatórios que ajudavam os casais ou mulheres a realizarem o sonho da gestação fecharam. Neles, só era possível acelerar o diagnóstico para saber o que estava levando o casal à infertilidade.

No Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, na Capital, houve atendimentos na área pelo menos até 2017, quando uma postagem ainda presente no site da instituição indica que, no local, era possível fazer uma série de exames que avaliavam o sêmen, os hormônios femininos, se havia obstrução das trompas ou disfunção dos ovários microcísticos, entre outros.

O Humap (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian) mantinha também um ambulatório para os mesmos atendimentos, mas o médico responsável se aposentou e ninguém mais assumiu a vaga.

Referência em reprodução assistida em MS, a médica Suely Rezende, que já atendeu, pelo menos, 18 mil casais, explica que apesar de a infertilidade ser reconhecida como um problema de saúde pública, não há muitas opções de tratamento pelo SUS, sendo que a maioria se concentra entre as regiões Sul e Sudeste. “O Brasil possui cerca de 196 centros de reprodução humana assistida, mas apenas 11 são públicos ou vinculados ao SUS, representando aproximadamente 6% do total”, comentou.

Na rede privada, por ciclo (tentativa de engravidar), o custo de uma FIV (Fertilização in Vitro) varia de R$ 25 mil a R$ 45 mil, mas conforme Suely, não é incomum que o investimento total por ciclo fique próximo de R$ 35 mil a R$ 50 mil. “Esses valores já incluem medicamentos, procedimentos e laboratório, podendo até ultrapassar R$ 60 mil quando há necessidade de testes genéticos”, contou.

E este é justamente o maior empecilho para Mila. Sem condições financeiras, ela relata que o custo é um dos principais obstáculos. “O mais barato é de uns 16 aos R$ 17 mil, mas sem a biópsia dos óvulos”, explica. No caso dela, devido à doença genética, seria necessária a biópsia embrionária, que custa cerca de R$ 2 mil por óvulo, elevando o tratamento para aproximadamente R$ 30 mil, além de medicamentos.

Pelo SUS, mulheres que não conseguem engravidar só acessam tratamento fora de MS

O médico ginecologista e especialista em reprodução assistida Orlando Monteiro reforça que as taxas de sucesso também variam de acordo com a idade da paciente e a qualidade dos embriões. Segundo ele, em mulheres de até 30 anos, cerca de 70% dos embriões podem ser considerados euploides, aqueles que apresentam o número completo e correto de cromossomos característicos da espécie, sem alterações na quantidade esperada de material genético.

Já aos 40 anos, conforme Monteiro, esse índice pode cair para cerca de 30%. Quando há biópsia embrionária, a chance de implantação de embriões saudáveis pode chegar a 70% ou 80%, segundo o médico.

Atualmente, a fertilização in vitro é mais buscada do que a inseminação artificial porque apresenta taxas de sucesso significativamente maiores e resolve uma gama muito mais ampla de causas de infertilidade.

Números - Conforme a OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que entre 8% e 15% dos casais apresentam infertilidade ao longo da vida. No Brasil, isso representa algo entre 4 e 8 milhões de pessoas afetadas, enquanto apenas alguns milhares de casais conseguem acesso anual à reprodução assistida de alta complexidade pelo SUS. “Essa diferença explica as longas filas observadas em serviços como o Hospital Pérola Byington e o Hospital das Clínicas da USP”, explica Suely.

Reprodução assistida - O médico ginecologista e especialista em reprodução assistida Orlando Monteiro explica que situações como a de Mila exigem avaliação clínica detalhada e, em alguns casos, aconselhamento genético antes do início do tratamento.

Pelo SUS, mulheres que não conseguem engravidar só acessam tratamento fora de MS

Segundo ele, quando há suspeita de doença hereditária, é necessário investigar o risco de transmissão aos filhos e avaliar alternativas. “Então ela precisa primeiro, se ela já não fez, um aconselhamento genético”, afirma.

Monteiro destaca que a reprodução assistida pode envolver diferentes etapas e tecnologias, como fertilização in vitro, biópsia embrionária e testes genéticos pré-implantacionais. Esses procedimentos ajudam a identificar embriões com maior chance de implantação e menor risco de doenças.

“Tem como a gente pesquisar no embrião. Chama-se PGTM, é um teste genético pré-implantacional para doenças monogênicas”, explica.

O médico ressalta ainda que a barriga solidária é autorizada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), desde que realizada por parente de até quarto grau, com consentimento formal de todos os envolvidos e avaliação psicológica. Segundo ele, o processo completo pode levar cerca de três meses, dependendo da avaliação clínica e da preparação dos envolvidos.

Custos e taxas de sucesso - De acordo com o especialista, o custo da fertilização in vitro varia conforme as técnicas utilizadas. Um procedimento básico pode custar cerca de R$ 30 mil, podendo chegar a R$ 50 mil ou R$ 60 mil com tecnologias adicionais, envolvendo medicação e laboratório.

O médico explica que as taxas de sucesso também variam de acordo com a idade da paciente e a qualidade dos embriões. Segundo ele, em mulheres de até 30 anos, cerca de 70% dos embriões podem ser considerados euploides,  aqueles que apresentam o número completo e correto de cromossomos característicos da espécie, sem alterações na quantidade esperada de material genético.

Pelo SUS, mulheres que não conseguem engravidar só acessam tratamento fora de MS
Ginecologista Orlando Monteiro é especialista em reprodução assistida (Foto: Arquivo pessoal)

Já aos 40 anos, conforme Monteiro, esse índice pode cair para cerca de 30%. Quando há biópsia embrionária, a chance de implantação de embriões saudáveis pode chegar a 70% ou 80%, segundo o médico.

Planejamento Familiar - Segundo o médico, a reprodução assistida tem sido cada vez mais utilizada como uma forma de planejamento familiar, permitindo que casais e mulheres organizem a maternidade com maior controle sobre o momento da gestação e, em alguns casos, com a possibilidade de reduzir riscos genéticos e aumentar a segurança reprodutiva.

Monteiro afirma que a procura por reprodução assistida aumentou significativamente nas últimas décadas, impulsionada principalmente pela postergação da maternidade. “Dobrou. Mais que o dobro”, afirma ao comparar com o início de sua atuação na área.

Ele destaca ainda o crescimento do congelamento de óvulos como estratégia preventiva para mulheres que desejam adiar a maternidade. “Hoje o congelamento de óvulos é uma realidade”, diz.

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