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Cidades

Registros mostram que MS usou Astrazeneca em grávidas mesmo após suspensão

Anvisa, Ministério da Saúde e SES desaconselharam uso; municípios contradizem dados do Vacinômetro

Por Guilherme Correia | 26/07/2021 12:23
Vacina contra a covid-19 sendo preparada em MS (Foto: Kísie Ainoã/Ilustrativa)
Vacina contra a covid-19 sendo preparada em MS (Foto: Kísie Ainoã/Ilustrativa)

Segundo dados do Vacinômetro, plataforma elaborada pelo governo de Mato Grosso do Sul, podem ter ocorrido 1.145 aplicações de vacina da Astrazeneca, entre primeira e segunda dose, em grávidas e puérperas mesmo depois de recomendações contrárias ao uso desse imunizante neste grupo.

Essas vacinações aparecem registradas nos grupos "gestantes com comorbidades" e "gestantes e puérperas" e foram contabilizadas pela reportagem entre 11 de maio e hoje, 26 de julho (os dados foram consultados por volta de 11h30 desta manhã e os filtros utilizados podem ser vistos no final desta matéria).

Nessa data, há quase dois meses, o Ministério da Saúde já havia condenado o uso da Astrazeneca nesse público e a própria SES (Secretaria Estadual de Saúde) já havia paralisado de forma preventiva a utilização.

Questionada sobre a possibilidade de haver erros de inserção de informações no sistema, a pasta estadual ainda não respondeu.

Outras situações não recomendadas, tais como uso de vacinas vencidas, aplicação em prazo inadequado ou falta de informações, todas negadas pela SES, foram entendidas como erros ou atrasos na inserção feitas pelas unidades vacinadoras, bem como divergências nos sistemas utilizados pelo Estado e pelo governo federal.

No caso de imunizantes fora do prazo de validade, por exemplo, várias vacinas foram inseridas pelos municípios após a data de sua aplicação, causando confusão entre o dia em que foi aplicada e o dia que foi registrada.

Municípios - Segundo os registros, Corumbá teria aplicado 191 doses após recomendação contrária do Ministério da Saúde. Procurada, a Secretaria Municipal do município que aparece no topo dessa lista garantiu que as equipes vacinadoras cumprem à risca o que é recomendado pelas entidades estadual e federal.

Nesse caso, pode ter havido divergência entre informações cadastradas, já que os dados municipais não apresentam nenhum registro de vacinada aplicada nessas condições. A própria pasta disse, posteriormente, que os dados seriam corrigidos.

Segundo os dados estaduais, Dourados (com 132 aplicações) aparecida em seguida - a secretaria local também afirma que a aplicação de doses da Astrazeneca em gestantes foi suspensa assim que houve a recomendação do Ministério da Saúde - além de Sete Quedas (105), Sonora (102), Terenos (82) e Selvíria (67).

Campo Grande consta de 60 aplicações de vacina de tal forma. Por meio de nota, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública) explica que na Capital, desde publicação de nota técnica da Anvisa, em 14 de maio, apenas nove mulheres cadastradas como gestantes receberam vacina dessa patente.

"No ato do cadastro, quando tomaram a primeira dose, ainda estavam grávidas, contudo, a aplicação da segunda dose foi feita após o parto, não havendo mais riscos tanto para a mulher quanto para o bebê. As outras duas, as quais a Sesau ainda não tem informação sobre o nascimento da criança, estão sendo acompanhadas", informa a pasta municipal.

Além desses, outros 41 municípios aparecem nessa lista com pelo menos uma dose aplicada. Para verificar os dados levantados pela reportagem, clique neste link. O espaço fica aberto para eventuais explicações das secretarias municipais.

Por fim, 31 cidades - que aplicaram ou não vacina de Astrazeneca em grávidas antes da suspensão - não aparecem com nenhum registro nesse aspecto desde 11 de maio. São elas Água Clara, Alcinópolis, Anastácio, Anaurilândia, Antônio João, Bandeirantes, Bataguassu, Bodoquena, Brasilândia, Caarapó, Caracol, Corguinho, Coronel Sapucaia, Costa Rica e Coxim.

Além de Glória de Dourados, Iguatemi, Inocência, Itaporã, Ivinhema, Jaraguari, Juti, Ladário, Nioaque, Novo Horizonte do Sul, Paranhos, Pedro Gomes, Ribas do Rio Pardo, Rio Negro, Taquarussu e Três Lagoas.

Somente vacinas da Pfizer e Coronavac, até o momento, podem ser aplicadas em gestantes ou puérperas (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)
Somente vacinas da Pfizer e Coronavac, até o momento, podem ser aplicadas em gestantes ou puérperas (Foto: Marcos Maluf/Arquivo)

Suspensão - O desaconselhamento desse uso, feito pelas autoridades de saúde, foi estabelecido após recomendação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) solicitando paralisação imediata da vacinação contra a covid-19 de mulheres gestantes com o imunizante da Astrazeneca.

Esse pedido foi adotado após o óbito de uma gestante no Rio de Janeiro, que recebeu a vacina, mas que ainda não foi investigado pela pasta federal se houve relação entre o antígeno e a morte.

Nesse caso, o Ministério ressaltou que "a ocorrência de eventos adversos é extremamente rara e inferior ao risco apresentado pela covid-19" - ou seja, a chance de ter reações adversas é ínfima de comparado aos perigos do coronavírus, que já matou mais de 550 mil no Brasil, sendo 8,8 mil no Estado.

Até o momento, o uso continua suspenso e tanto Ministério quanto SES autorizaram aplicar outra patente de vacina para as grávidas que tenham tomado, inclusive antes dessa recomendação, a vacina da Astrazeneca. Elas e novas grávidas e puérperas poderão ser imunizadas exclusivamente com doses de Coronavac ou Pfizer.

Até agora, não houve nenhuma morte de paciente atribuída aos efeitos adversos de imunizantes em Mato Grosso do Sul.

(Matéria editada às 17h23 para correção de informações)

Confira a galeria de imagens:

  • Print da tela do Vacinômetro, consultado nesta manhã pela reportagem (Foto: Reprodução)
  • Há duas categorias: "Gestantes e Puérperas" e "Gestantes com Comorbidades"; reportagem somou as duas para cada município (Foto: Reprodução)
  • Foram filtrados apenas os registros de vacinas da Astrazeneca, produzidas pela Fiocruz (Foto: Reprodução)
  • Os dois grupos de grávidas elencados pelo Vacinômetro foram somados (Foto: Reprodução)
  • Foram consideradas as aplicações de primeira e segunda dose, sendo que cerca de 800 vacinas utilizadas eram da D1 (Foto: Reprodução)
  • Foi considerado período entre 11 de maio, quando Ministério da Saúde e SES se posicionaram sobre o tema, e hoje, 26 de julho (Foto: Reprodução)
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