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Cidades

Sem visitas, quem perdeu a liberdade mata saudade com encontro de tecnologias

Nas unidades que recebem adolescentes infratores e nos presídios, cartas e chamadas por celular estão substituíndo presença física

Por Marta Ferreira | 29/07/2020 12:50
Em papel rosa, decorada, carta escrita por jovem que estava em Unei tem declaração à mãe e promessa de mudança de vida. (Foto: Marcos Maluf)
Em papel rosa, decorada, carta escrita por jovem que estava em Unei tem declaração à mãe e promessa de mudança de vida. (Foto: Marcos Maluf)

Sem receber visitas desde março, por causa da covid-19, pessoas privadas de liberdade em Mato Grosso do Sul seja em presídios ou nas unidades de internação para adolescentes estão sendo personagens de encontro entre duas tecnologias de comunicação de tempos distintos: as cartas escritas à mão e as vídeochamadas e reuniões virtuais. É assim que estão exercendo o direito legal de contato com a família.

Para os mais jovens,  especialmente, o encontro por vídeo no celular é rotina. Estão acostumados, como todo mundo hoje. As cartas, não. Escrever mensagens em papel significa descoberta, aprendizado. Há muitos que jamais haviam parado para escrever uma “missiva”, usando a palavra arcaica, mas diante da ausência da visita presencial, aprendeu. Fazem até os envelopes, enfeitam os papéis.

“Nunca”, respondem quase em uníssono à reportagem do Campo Grande News as quatro adolescentes em cumprimento de medida de restrição da liberdade na Unei (Unidade Educacional de Internação) Estrela do Amanhã, quando indagadas se já haviam feito isso alguma vez na vida.

 Elas têm entre 16 e 17 anos. Estudaram até o ensino fundamental. Estão internadas ali, termo usado quando se trata de menores de 18 anos, por infrações variadas, que não serão expostas nesse texto dada à possibilidade de identificação das personagens.

Falam pouco. Revelam, de sorriso tímido no rosto, ter gostado da experiência de transportar para o papel o contato com a família. Quando perguntadas sobre quem as ensinou a escrever as cartas, também repetem juntas, em tom mais animado: “A Dorô”.

Estão se referindo a Dorotéa Lamar Ramos Ayoroa, a diretora da unidade há cinco anos, uma das responsáveis por incentivar a correspondência escrita.

“Toda quinta-feira a gente recolhe as cartas e leva para os Correios”, conta Dorotéia. Segundo ela, essa foi a forma de, ao mesmo tempo, promover o contato com os parentes impedidos de entrar nos estabelecimentos e ensinar algo novo às adolescentes.

Elas estudam regularmente, matriculadas em escola pública da região. Têm aulas na própria unidade, condição imposta pela justiça, mas estão com as atividades presenciais suspensas, também em consequência da pandemia. Nesse período, recebem tarefas semanais. Ainda ainda assim, há bastante tempo livre.  O contato por meio das palavras desenhadas no papel ajuda a preencher.

Se ao vivo se expressam de forma tímida, nas cartas geralmente endereçadas às mães o tom é de afeto. E de pedido de desculpas, alguns indiretos, outros efetivos.

Flores enfeitam o papel de correspondência de interna em Unei. (Foto: Marcos Maluf)
Flores enfeitam o papel de correspondência de interna em Unei. (Foto: Marcos Maluf)


“Mãe, quero falar para a senhora que eu te amo muito mesmo. Mi perdoa (sic)”, escreve a jovem que deixou o lugar antes de a carta chegar a ser enviada. Ela também cita a religiosidade com a frase "Jesus é vida".

No lugar, existe trabalho social da Pastoral do Menor, da Igreja Católica, cujos voluntários se comunicam com as adolescentes.

Nem todo mundo recebe devolutiva, conta a diretora, sem esconder que, às vezes, isso provoca frustração não apenas na remetente. “É difícil né, na maioria dos casos, os laços familiares já foram quebrados”, relata.

No vídeo - Essa ruptura fica perceptível quando a outra tecnologia, a vídeochamada, é usada. Há um dia da semana específico para isso, em substituição à visita presencial. A conversa é monitorada por uma agente sócioeducacional, responsável por fazer a ligação e passar o telefone à interna.

O Campo Grande News assistiu a parte de uma dessas conversas. Vinda do interior, a jovem fala com a mãe. Há silêncios cortando a conversa. O diálogo só engrena lá pelo quarto minuto dos 10 disponíveis.

“Eu tô ficando doida mãe, quero sair daqui. Cadeia não faz bem para ninguém não”, desabafa a menina.

Mais uns minutos, perguntas sobre parentes, sobre a rotina da casa, sobre alguém que ficou de participar do papo on-line, porém não apareceu. Aí vem a indagação: “Ô mãe, ninguém perguntou de mim não?”, diz a garota. “Ninguém mais lembra de mim aí fora”, imagina.

Adolescente conversa com a mãe, por vídeochamada no celular. A conversa é monitorada o tempo todo e quem faz a ligação é a servidora pública. (Foto: Marcos Maluf)
Adolescente conversa com a mãe, por vídeochamada no celular. A conversa é monitorada o tempo todo e quem faz a ligação é a servidora pública. (Foto: Marcos Maluf)

Do outro lado, a mulher aproveita para dar o recado à filha: “É, agora você tem de aprender. Se não tivesse feito coisa errada”. A reação é de concordância, sem muito entusiasmo.

Nesse momento, a reportagem deixa  a sala.

Nos diálogos e na presença da equipe jornalística,  as adolescentes reforçam a vontade de corrigir os erros cometidos, responsáveis por estarem ali.

“Vou sair daqui uma pessoa diferente”, prometeu à mãe a ex-interna da carta cujo trecho foi citado acima. Essa jovem é mãe de duas crianças. Há menos internas no lugar do que o habitual porque a Justiça mandou para a liberdade vigiada quem entendeu ter condições para isso, por causa do risco de contágio pelo novo coronavírus.

As que permanecem não têm filhos. Têm sonhos pós-Unei. Querem voltar à escola regular, por exemplo. Três falam em vontade de fazer Medicina. Uma em ser advogada.

Além das cartas, o tempo disponível ainda maior na pandemia, sem atividades físicas, sem visitas, é tomado pela leitura. Em cada alojamento, a reportagem  encontrou pelo menos um livro em cada cama. Há um projeto de incentivo ao consumo de literatura, com duas estantes modestas, tocado por uma professora.

Na sala da diretora, o caderno mostra o registro dos livros que uma das adolescentes, já fora do local, leu enquanto estava por lá. (Foto: Marcos Maluf)
Na sala da diretora, o caderno mostra o registro dos livros que uma das adolescentes, já fora do local, leu enquanto estava por lá. (Foto: Marcos Maluf)

Na sala da diretora, há o caderno de registros, onde quem pega uma obra para ler assina a responsabilidade em concluir a leitura e devolver. Uma das jovens, que também já deixou o lugar, leu em menos de 4 meses, mais de 30 obras.

Em Mato Grosso do Sul são nove unidades dedicadas a receber adolescentes infratores. O público é de 200, entre rapazes e moças até 18 anos.

No regime fechado – Nos presídios, onde estão mais de 17 mil detentos e detentas, as cartas também estão sendo incentivadas como forma de contato entre os condenados e presos provisórios, no aguardamento de andamento de processos.

Em Campo Grande, são cerca de 200 correspondências por semana, considerado as unidades femininas e masculinas.

Antes de chegar aos destinatários privados de liberdade, toda a a correspondência é lida, como prevê a lei. As regras vetam, também, o uso de correspondência para envio de objetos.

Também estão sendo visitas virtuais, por meio de videoconferências em programas de internet, todas monitoradas. Não é usado o celular e sim o computador, para que o preso não tenha qualquer acesso a equipamento tecnológico, vedado nos estabelecimentos.

O instrumento é o mesmo que está em uso para audiências, para evitar deslocamentos dos condenados ou processados até os fóruns.