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Campo Grande, Domingo, 15 de Setembro de 2019

22/08/2019 13:00

Terra de disputa sangrenta, fronteira vê crescer a rota do tráfico de cocaína

As agruras da região fronteiriça, que tenta superar o estigma de ser terra sem lei, são debatidas nesta quinta-feira

Aline dos Santos
Fórum Permanente de Segurança na Fronteira é realizado hoje em Campo Grande. (Foto: Kisie Ainoã)Fórum Permanente de Segurança na Fronteira é realizado hoje em Campo Grande. (Foto: Kisie Ainoã)

No sangrento cenário de disputa entre facções criminosas na fronteira com o Paraguai, Mato Grosso do Sul registra aumento do tráfico de cocaína, droga de alto valor no mercado do crime. As agruras da região fronteiriça, que tenta superar o estigma de ser terra sem lei, são debatidas nesta quinta-feira (dia 22) em Campo Grande, durante o II Fórum Permanente de Segurança na Fronteira.

“Há disputa entre as facções criminosas, principalmente pelo tráfico de cocaína. Há muito a fronteira com o Paraguai deixou de ser apenas uma rota da marijuana (maconha) e hoje, principalmente, tem disputa pelo tráfico de cocaína. É uma grande porta de entrada”, afirma o titular da Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública), Antônio Carlos Videira.

A redução nos flagrantes do tráfico de maconha e a explosão das apreensões de cocaína aparecem nas estatísticas da PF (Polícia Federal). Até 31 de julho de 2019, a maconha recolhida totalizou 37,9 toneladas. No ano passado, no mesmo período, foram 50,2 toneladas. Já a curva da cocaína é ascendente: cinco toneladas até julho deste ano, contra 2,7 toneladas em igual período de 2018.

O superintendente da PF (Polícia Federal), Cleo Mazzotti, elenca fatores que resultaram na migração para o tráfico de cocaína, como a parceria com o Paraguai na destruição de plantação de maconha.

“Isso tem dificultado a entrada de maconha no território nacional e impacta diretamente no volume de apreensões. Também a Polícia Federal, juntamente com outras forças, conseguiu desarticular organizações criminosas de alto poder aquisitivo, o que permitiu quebrar um pouco a logística para transportar volumes muito grandes”, afirma Mazzotti.

Superintendente da PF, Mazzotti aponta migração para o tráfico de cocaína.  (Foto: Kisie Ainoã)Superintendente da PF, Mazzotti aponta migração para o tráfico de cocaína. (Foto: Kisie Ainoã)

Segundo ele, agora é priorizado o transporte de ilícitos de menor volume como a cocaína. No combate a essa modalidade de tráfico, o superintendente da PF afirma que é preciso parceria com países produtores de cocaína: Bolívia, Peru, Venezuela e Colômbia. Como crimes correlatos, o tráfico de drogas traz execuções e sequestros.

No debate realizado em Campo Grande, as tentativas de soluções incluem instalação de um Centro de Inteligência, integração entre as forças de segurança, ataque às finanças das organizações criminosas e, nas palavras do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, mais energia para se chegar ao “fim do filme”.

O Estado tem 1.517 quilômetros de fronteira, sendo 1.131 km com o Paraguai e 386 km com a Bolívia. “A fronteira de Mato Grosso do Sul é sempre destacada pelo crime transnacional. Tem um fluxo muito grande de drogas, armas e contrabando. Com consequências muito além da fronteira”, afirma Santos Cruz, que comandou tropas da ONU (Organização das Nações Unidas) no Haiti e na África. O general foi secretário nacional de segurança pública e ex-ministro.

Santos Cruz é entusiasta da integração entre as forças de segurança e com os países vizinhos, mas com o resultado enérgico. “O produto final tem que favorecer as ações contra o transgressor. Esse é o fim do filme, o fim da linha. Você pode ter o sistema técnico com a tecnologia que quiser. Mas a gente nunca pode esquecer que o final de tudo é a operação contra o transgressor. Essa é a parte prática”, afirma.

Precisamos de tranquilidade, segurança pública e paz, afirma presidente da OAB/MS, Mansour Karmouche. (Foto: Kisie Ainoã)"Precisamos de tranquilidade, segurança pública e paz", afirma presidente da OAB/MS, Mansour Karmouche. (Foto: Kisie Ainoã)

Terra sem lei – Com o “equilíbrio” do crime estremecido desde 2016, ano da execução de Jorge Rafaat Toumani, que se dividia entre atividades legais e criminosas, a fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero (Paraguai) convive com o aumento de execuções.

O Atlas da Violência 2017, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo FBS (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), identificou o assassinato do traficante como um dos principais fatores da eclosão da violência no Brasil.

“Precisamos de tranquilidade, segurança pública e paz. Quando você traz autoridades, principalmente do governo federal, chama atenção para essas questões, como a guerra de facções. É um problema grave que acontece no Mato Grosso do Sul e reflete no País inteiro”, afirma o presidente da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil), Mansour Elias Karmouche.

De acordo com ele, o Estado está na disputa com outras unidades da federação para a implantação de um centro de inteligência. “O centro é importante para detectar crimes, o rastro da lavagem de dinheiro, como se organizam as facções criminosas”, afirma o presidente da OAB/MS.

Coordenador-geral de Fronteiras, Eduardo Maia Bettine destacou a criação de um programa nacional de vigilância para essas regiões. “A fiscalização na fronteira é essencial para reduzir crimes nos grandes centro”, afirma. Segundo ele, operações resultaram prejuízo de R$ 69 milhões para grupos criminosos em três meses.

General Santos Cruz é entusiasta da integração entre as forças de segurança . (Foto: Kisie Ainoã)General Santos Cruz é entusiasta da integração entre as forças de segurança . (Foto: Kisie Ainoã)

Dando lucro ao crime – Presidente da ACICG (Associação Comercial e Industrial de Campo Grande), Joao Carlos Polidoro, afirma que o contrabando e descaminho, outras faceta de crimes transfronteiriços, influenciam no comércio de todas as cidades, seja grande ou pequena.

No tocante ao cigarro ilegal, que vem do Paraguai, ele destaca a alta tributação do produto produzido no Brasil, que chega a 80%. “É muito vantajoso trazer o cigarro que lá tem menos de 20% de imposto e vender no Brasil pela metade do preço. O cigarro é mostrado como um item que quanto mais se cobra imposto, pior fica para o produto legal”, diz.

Além de redução de carga tributária e repressão, Polidoro alerta que o consumidor precisa se conscientizar que está alimentado o mundo da criminalidade ao adquirir produtos ilegais.

Conforme o delegado da Receita Federal em MS, Edson Ishikawa, até julho de 2019 foram apreendidos 31 milhões de maços de cigarros contrabandeados do Paraguai. No ano passado, foram 75 milhões de maços.

O Fórum Permanente de Segurança na Fronteira é realizado até às 18h no auditório da Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), localizada na avenida Dom Antônio Barbosa, 4155.

Presidente da ACICG, Polidoro faz alerta a consumidores sobre contrabando. (Foto: Kisie Ainoã)Presidente da ACICG, Polidoro faz alerta a consumidores sobre contrabando. (Foto: Kisie Ainoã)
 “A fiscalização na fronteira é essencial para reduzir crimes nos grandes centro”,  diz Betinne, representante do Ministério da Justiça. (Foto: Kisie Ainoã) “A fiscalização na fronteira é essencial para reduzir crimes nos grandes centro”, diz Betinne, representante do Ministério da Justiça. (Foto: Kisie Ainoã)
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