Traficante movimentou quase R$ 1 milhão de esquema com transações “em família”
Lucas dos Santos, o “LK”, usava empresa fake, mãe e irmãs para lavar dinheiro do tráfico com policiais

A investigação que levou o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) a deflagrar a Operação Infiltrados aponta que Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, teria estruturado uma rede financeira com participação da própria família para movimentar dinheiro proveniente do tráfico de drogas.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O Gaeco identificou que Lucas da Silva dos Santos, o "LK", teria usado contas da mãe, Valdenice, e das irmãs Ana Carolina e Jéssica para lavar dinheiro do tráfico. Foram encontrados 349 depósitos sem origem identificada, somando R$ 970.244, entre 2024 e 2026. A empresa L R Obras e Construções, registrada no endereço da mãe, também seria usada como fachada. Os familiares foram presos na Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco em setembro.
A apuração identificou 349 depósitos sem identificação de origem que somaram R$ 970.244 entre fevereiro de 2024 e março de 2026, distribuídos entre as contas pessoais de Lucas e a empresa L R Obras e Construções Ltda., apontada pelos investigadores como uma empresa de fachada.
- Leia Também
- Delegado investigado por desvio de droga gastou R$ 2 milhões em casa de luxo
- Preso foi cooptado para ligar policiais aos compradores de droga desviada
O levantamento financeiro também encontrou centenas de transferências entre Lucas, a mãe, Valdenice da Silva Gois, e as irmãs Ana Carolina da Silva dos Santos e Jéssica da Silva dos Santos, que é advogada. Para o Gaeco, as três familiares teriam atuado como interpostas pessoas, ou “testas de ferro”, para ocultar a localização, a movimentação e a propriedade de valores e bens relacionados ao tráfico.
A participação atribuída à família aparece tanto em conversas interceptadas ou obtidas durante a investigação quanto na análise das movimentações bancárias. Em uma delas, Lucas fala sobre a compra de drogas e afirma que parte de uma carga de 20 quilos de skunk pertenceria a uma irmã. Na análise financeira, os investigadores identificaram transferências de centenas de milhares de reais entre Lucas e as duas irmãs, além de movimentações com a mãe.
Conversa cita compra de drogas com uma das irmãs - Um dos elementos utilizados no procedimento preparatório é uma conversa de Lucas com um interlocutor ainda não identificado. No diálogo, o investigado fala sobre uma aquisição de drogas e afirma ter comprado 7 quilos de “óleo”, termo que faz referência à pasta-base de cocaína, além de 20 quilos de skunk.
Durante a conversa, Lucas afirma que 10 quilos do skunk seriam dele e os outros 10 quilos pertenceriam à irmã.
A partir desse diálogo, os investigadores passaram a analisar a possível participação das irmãs de Lucas. O procedimento registra que ele possui duas irmãs, Ana Carolina da Silva dos Santos e Jéssica da Silva dos Santos, e destaca que não foi possível determinar, naquela conversa específica, qual delas seria a mulher mencionada por Lucas.
A investigação, contudo, encontrou movimentações financeiras envolvendo as duas.
O documento descreve a negociação como uma aquisição de drogas em espécie de “consórcio”, na qual Lucas teria se associado a uma das irmãs para comprar entorpecentes conjuntamente. Conforme a própria investigação, esse tipo de associação teria como objetivo dividir custos, riscos e a logística da operação.
Na mesma tratativa, Lucas teria informado que já havia colocado o carregamento de drogas em um caminhão destinado a realizar o frete de uma empresa.
Contas da família teriam sido usadas para movimentar dinheiro - A análise dos dados bancários levou os investigadores a apontar que não apenas Lucas, mas também a mãe e as duas irmãs movimentavam valores relacionados ao esquema investigado.
Segundo o procedimento, foram encontrados comprovantes de transações realizadas a partir das contas de Ana Carolina, Jéssica e Valdenice com recursos que, conforme a investigação, seriam provenientes do tráfico e destinados a atividades relacionadas à organização.
O Gaeco afirma que as três teriam atuado como interpostas pessoas, chamadas no documento de “testas de ferro”, para movimentar o produto financeiro do tráfico sob orientação de Lucas.
Ainda segundo o procedimento, os recursos obtidos com o narcotráfico eram direcionados às contas das familiares para dificultar a identificação de Lucas como beneficiário dos valores. O dinheiro passaria, assim, pelo sistema financeiro com aparência de ter origem nas atividades profissionais das próprias familiares.
Os investigadores também encontraram movimentações feitas pelas três em favor de pessoas que, segundo a apuração, auxiliavam Lucas na traficância e na lavagem de capitais. Entre os nomes citados estão Eberth Batista de Almeida e Lavínia Carvalho da Luz.
As transações entre as familiares e o próprio Lucas também foram analisadas e aparecem em relatórios de informação produzidos pelo Gaeco.
Ana Carolina movimentou mais de R$ 900 mil em operações com o grupo - A movimentação envolvendo Ana Carolina é uma das mais detalhadas no procedimento.
Entre 14 de agosto de 2022 e 9 de dezembro de 2025, ela realizou 97 operações financeiras nas quais transferiu para Lucas R$ 415.305. Os valores foram enviados por transferências interbancárias e Pix e beneficiaram tanto as contas pessoais do investigado quanto a conta da empresa L R Obras e Construções Ltda.
No sentido contrário, entre 7 de fevereiro de 2022 e 25 de março de 2026, Lucas realizou 142 operações para Ana Carolina, transferindo R$ 487.900,87. As transações também partiram das contas pessoais de Lucas e da conta da empresa.
Além disso, a namorada de Lucas, transferiu R$ 141.065,45 para Ana Carolina em 35 operações.
Somados os valores enviados por Lucas e a namorada, Ana Carolina recebeu R$ 628.966,32 no período analisado. O procedimento classifica esses recursos como valores obtidos com o tráfico de drogas.
A análise também aponta que as movimentações não eram isoladas. Segundo o documento, as contas dos envolvidos eram utilizadas para pagamentos de fornecedores, recebimento de valores das vendas de drogas, distribuição de lucros e outros pagamentos relacionados à atividade investigada.
Jéssica recebeu R$ 326 mil de Lucas - A outra irmã, Jéssica da Silva dos Santos, que é advogada, também aparece em uma série de transações consideradas suspeitas pelos investigadores.
Entre 22 de agosto de 2021 e 26 de março de 2023, Lucas recebeu de Jéssica R$ 326.080,36, distribuídos em 93 transações bancárias.
No caminho inverso, durante o mesmo período, Lucas transferiu R$ 280.235,18 para Jéssica em 154 operações.
O relatório afirma haver indicativos de que a conta de Jéssica teria sido cedida para que Lucas movimentasse valores provenientes da comercialização de entorpecentes. Assim como no caso de Ana Carolina, as transferências eram feitas tanto pelas contas pessoais de Lucas quanto pela conta da L R Obras e Construções.
Mãe recebeu R$ 137 mil e repassou R$ 76 mil - A mãe de Lucas, Valdenice da Silva Gois, também aparece na movimentação financeira investigada.
Entre 3 de dezembro de 2024 e 13 de janeiro de 2026, Valdenice transferiu R$ 137.050 para Lucas em 13 operações.
No sentido contrário, Lucas transferiu R$ 76.310 para a mãe em sete transações realizadas no período analisado.
O procedimento aponta que parte dos valores enviados por Valdenice beneficiou Lucas diretamente e também a conta da L R Obras e Construções.
Os investigadores ressaltam, porém, que a análise financeira envolvendo Valdenice não ficou restrita às operações identificadas no período abrangido pelo afastamento de sigilo bancário. Segundo o procedimento, a conta da mãe não havia sido incluída inicialmente na medida cautelar porque o nome dela ainda não havia surgido na investigação quando o pedido foi feito.
Mesmo assim, nos dados telemáticos obtidos de Lucas foram encontrados diversos comprovantes de transferências de e para a conta de Valdenice.
Depósito de R$ 85 mil liga mãe de LK a outro investigado - Entre esses registros, o Gaeco destaca um depósito de R$ 85 mil, realizado em 3 de dezembro de 2024 por José Gonçalves Bezerra, pai do policial militar Alison Lemes Bezerra, citado na investigação como “Daga” ou “Daguinha”.
Segundo o procedimento, Alison é apontado como traficante e comparsa de Lucas, além de integrante da organização criminosa investigada. O dinheiro foi identificado em movimentação relacionada à conta de Valdenice.
Empresa teria funcionado como fachada - Outro ponto da investigação é a L R Obras e Construções Ltda., empresa vinculada a Lucas e utilizada nas movimentações financeiras analisadas.
O procedimento afirma que a empresa não desenvolvia atividade econômica efetiva e teria funcionado como empresa de fachada e instrumento para movimentar dinheiro obtido com o narcotráfico.
Segundo os investigadores, não foram identificadas operações comerciais regulares capazes de justificar o volume e a natureza dos fluxos financeiros encontrados.
A sede formal da empresa, conforme o documento, está registrada na residência de Valdenice, mãe de Lucas. Para o Gaeco, a estrutura teria servido para dar cobertura à atividade atribuída ao filho.
A análise apontou ainda que boa parte das entradas e saídas da empresa correspondia a transferências com outros investigados, especialmente pessoas que o procedimento identifica como “testas de ferro” de Lucas. Entre os nomes estão Ana Carolina, Jéssica, Lavínia Carvalho da Luz, Matheus Gabriel Machado Bezerra e Valdenice.
Para os investigadores, esse mecanismo configuraria lavagem de capitais.
R$ 970 mil em depósitos sem origem identificada - A dimensão da movimentação financeira aparece em outro trecho do procedimento.
Foram identificados 349 depósitos sem identificação de origem nas contas bancárias de Lucas e da L R Obras e Construções entre fevereiro de 2024 e março de 2026. O total chegou a R$ 970.244.
Desse montante, R$ 803.981 correspondem a 328 depósitos em dinheiro feitos diretamente nas contas de Lucas entre 19 de fevereiro de 2024 e 27 de março de 2026.
Na conta da L R Obras e Construções foram encontrados outros 21 depósitos em dinheiro, realizados entre 20 de agosto de 2025 e 6 de março de 2026, totalizando R$ 166.263.
O procedimento aponta que os valores não tinham origem comprovada e os relaciona ao dinheiro obtido com a narcotraficância.
Família seria usada para afastar LK da origem do dinheiro - A conclusão apresentada no procedimento é que Ana Carolina, Jéssica e Valdenice teriam participado da ocultação e dissimulação da localização, movimentação, propriedade e disposição de valores e bens provenientes, direta ou indiretamente, do tráfico.
Segundo o documento, as três teriam atuado como interpostas pessoas sob orientação direta de Lucas.
A estratégia apontada pelos investigadores seria fazer com que os valores circulassem por contas de terceiros, dificultando a identificação de Lucas como real beneficiário e permitindo que o dinheiro aparentasse ter origem em atividades profissionais das familiares.

Prisões na Operação Infiltrados - A participação atribuída à família aparece no contexto da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco em 24 de setembro para investigar um suposto esquema envolvendo agentes de segurança pública e traficantes para o desvio de drogas apreendidas, principalmente cocaína.
A investigação começou em outubro de 2025, a partir de provas e desdobramentos das operações Traquetos e Blindspot.
Ao todo, foram expedidos 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 mandados de busca e apreensão, em Campo Grande, Dourados e Terenos. Entre os alvos estão policiais civis, policiais militares, um policial penal e um ex-policial civil.
Lucas já havia sido preso em 1º de setembro, quando a Polícia Civil cumpriu contra ele mandado de prisão preventiva relacionado à investigação sobre a subtração, transporte, ocultação e distribuição de entorpecentes por um grupo que teria contado com a participação de policiais.
Na ocasião, em imóvel ligado a Lucas no Jardim Mansur, foram apreendidos R$ 47.699 em dinheiro, dois carregadores de pistola, balanças de precisão, cadernos com anotações relacionadas ao tráfico e movimentações financeiras, além de veículos.
Na Operação Infiltrados, conforme informado pelo advogado Willian Frata, foram presas Valdenice, Ana Carolina, Jéssica e a esposa de Lucas.
A defesa de Lucas informou anteriormente que ainda não havia tido acesso integral aos autos da investigação e que só se manifestaria sobre o mérito das acusações depois de conhecer o conteúdo completo do procedimento. Os advogados também questionaram a necessidade da prisão dos familiares.
Assim, os elementos financeiros reunidos pelo Gaeco colocam Lucas no centro de uma estrutura que, segundo a investigação, teria usado contas da mãe e das duas irmãs, além de uma empresa sem atividade econômica efetiva, para movimentar recursos atribuídos ao tráfico de drogas. O principal volume identificado até agora está nos R$ 970.244 em 349 depósitos sem origem identificada feitos nas contas de Lucas e da empresa entre 2024 e 2026.


