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Capivara Criminal

Suetônio matou Regiane e depois alegou "apagão" a médico

Feminicídio completa um ano nesta segunda-feira (18) e o réu aguarda julgamento, após ter tentado alegar insanidade mental

Por Marta Ferreira | 17/01/2021 10:26
O túmulo onde Regiane está sepultada, em Campo Grande: ela foi a primeira vítima de feminicídio no ano passado. (Foto: Kísie Ainoã)
O túmulo onde Regiane está sepultada, em Campo Grande: ela foi a primeira vítima de feminicídio no ano passado. (Foto: Kísie Ainoã)

Faz um ano nesta segunda-feira (18) que Suetônio Pereira Ferreira, de 58 anos, cometeu o primeiro feminicídio registrado em 2020, do total de 11 casos ocorridos em Campo Grande no ano passado. A vítima foi a ex-namorada Regiane Fernandes de Farias, 39 anos, atacada a tiros quando chegava para trabalhar em floricultura no Bairro Carandá Bosque, pouco antes das 8h.

“Tony” atirou contra a própria cabeça depois de atingir Regiane, ficou internado sob escolta por cerca de duas semanas, e depois foi transferido para a prisão. Está no IPCG (Instituto Penal de Campo Grande), onde segue à espera de júri popular, previsto para março deste ano.

Texto com a letra de Suetônio anexado a processo sobre o feminicídio. (Foto: Reprodução de processo)
Texto com a letra de Suetônio anexado a processo sobre o feminicídio. (Foto: Reprodução de processo)

Mas se dependesse da estratégia de defesa, estaria em liberdade ou no máximo internado para tratamento, por ter doença psiquiátrica. Pedido nesse sentido foi apresentado logo depois do crime, citando o risco de Suetônio cometer suicídio por ser uma pessoa doente mentalmente.

Na peça, chegou a ser protocolado algo parecido a um bilhete de amor escrito por ele. Na verdade, segundo a coluna identificou, é uma espécie de exercício ensinado em cursos de "telepatia" sobre como atrair uma pessoa.

"O universo nos une. O universo nos interliga pela energia do amor. Você me deseja, você pensa em mim, você gosta da minha companhia, você me ama de forma incondicional. Pela vibração de tudo o que é vivo, eu te atraio agora e sempre”, escreveu o réu, não se sabe em que data.

Esse texto aparece em vídeos no Youtube como "mantra" a ser repetido por quem quer usar a "lei da atração" para conquistar alguém. Quem usa essa técnica acredita que os pensamentos têm força suficiente para levar a pessoa a conquistar seus objetivos.

A resposta da justiça ao pedido de liberdade foi negativa, com manutenção do encarceramento.

"Incapaz" – A alternativa, então, foi alegar insanidade mental, também sem êxito. A “Capivara Criminal” apurou que, de acordo com laudo anexado ao processo, o réu mentiu para o médico responsável por perícia. Alegou ter sofrido “blecaute” de memória e não se recordar de nada nem da data do crime nem de pelo menos quatro dias anteriores.

Estamos diante de um caso de simulação ou produção intencional de sintomas. Ao psiquiatra que o atendeu na Santa Casa, a pedido da defesa, o mesmo narrou o episódio no dia do crime. Ao perito, narrou amnésia total”, comparou o médico Fabiano Coelho Horimoto, nomeado pelo juiz para a análise técnica.

A alegação de “apagão” ocorreu durante a entrevista com o perito realizada no dia 9 de março passado, como parte de incidente de insanidade mental instaurado por solicitação dos advogados do réu. O objetivo era de tornar o acusado inimputável, alegando sofrer de “depressão, ansiedade, bulimia nervosa, transtorno obsessivo compulsivo, instabilidade e disforia”, conforme descrito em petição.

No laudo, a definição do profissional foi de que o lapso de memória descrito pelo réu não encontra respaldo na literatura médica, tampouco enquadramento em diagnósticos já conhecidos. Um dos motivos para isso é o fato de o "paciente" ter se mostrado com memória preservada para todo o restante da questões formuladas.

Como exemplo disso, falou da vida pregressa profissional com detalhamento, mas se esquecer apenas do que antecedeu ao episódio criminoso.

A incoerência ficou mais clara, segundo o perito, em razão da comparação com o prontuário do atendimento na Santa Casa, no qual o paciente não apresentava problemas quanto à lembrança dos fatos.

Viaturas da PM e dos bombeiros no local do crime. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Viaturas da PM e dos bombeiros no local do crime. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Sabia - No resultado da perícia, Suetônio foi diagnosticado como portador de apenas uma doença psiquiátrica, o transtorno repressivo recorrente. Foi anotado estar em episódio grave na época do feminicídio. Na leitura do profissional de Medicina, o quadro pedia tratamento, mas não o livrava da capacidade plena de responder pelos atos.

De acordo com as informações do documento, embora tenha sido informado pela banca defensora o uso contínuo de remédio para depressão, foi identificada apenas uma receita feita pelo irmão do preso, que é médico, na semana anterior à morte de Regiane.

Pela conversa travada com o perito, Suetônio abandonou todos os acompanhamentos médicos já iniciados. Estaria doente mentalmente há pelo menos quatro anos.

Para o psiquiatra, inclusive, “Tony” demonstrou comportamento “elaborado e planejado”. No dia da morte de Regiane, ficou esperando a chegada da ex-namorada no local de trabalho, dentro do carro, acompanhado de outra pessoa.

Policial carrega a arma com que Regiane foi assassinada no dia 18 de janeiro de 2020. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)
Policial carrega a arma com que Regiane foi assassinada no dia 18 de janeiro de 2020. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)


A vítima apareceu e logo foi alvejada com tiros de revolver calibre 44. Na sequência, o ex-namorado atentou contra si, atirando na cabeça e atingindo o ouvido.

Testemunhas relataram cena dramática. Ferida, a vítima pede ajuda e chama o algoz de “psicopata”. Ele, por sua vez, dirige o olhar para a arma e até tenta pegá-la novamente.

Ambos foram levados para a Santa Casa. Regiane morreu poucas horas depois. Suetônio sobreviveu.

Intenção de matar - No dia 20 de janeiro, já liberado por outros médicos, foi atendido por psiquiatra na Santa Casa, a quem disse ter atirado na florista depois de acordar “muito ruim da depressão” no sábado (16). Como transcrito, o réu afirmou no atendimento que acordou “decidido a matar” e esperou até segunda-feira para isso.

A arma, como declarou ao segundo psiquiatra no exame de insanidade mental, disse ter conseguido com os “bandidos na rua”.

Sem palavras - Motorista de Uber quando cometeu o crime, Suetônio só foi ouvido formalmente sobre o crime uma vez, durante audiência judicial. Na fase de inquérito, não prestou depoimento por estar no hospital.

Na frente do juiz, em interrogatório gravado, adotou o silêncio permitido por lei. Esse procedimento, feito por videoconferência, durou pouco mais de um minuto.

Em dezembro, exatos 11 meses depois de a florista ser vítima do feminicídio, o juiz Aluízio Pereira dos Santos, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, decidiu mandar o réu a júri popular. A data provável é março desde ano, caso não haja alterações, entre elas recurso contra a sentença de pronúncia.

O prazo para os advogados apresentarem a apelação vence nesta semana.

Nas alegações finais, a última manifestação feita pelos defensores, o documento assinado por Marlon Ricardo Lima Chaves, Bianca do Carmo Rezende e Kelly Luiza Ferreira do Vale, é para que, pelo menos, sejam retiradas as qualificadoras de motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima, agravantes apontados pela promotoria.

Procurada, a banca informou ainda não ter decidido sobre eventual recurso contra a decisão que mandou Suetônio a júri.

"Tony" na carteira de identidade. (Foto: Reprodução do processo)
"Tony" na carteira de identidade. (Foto: Reprodução do processo)

Quem é – Um homem de 58 anos, pai de 4 filhos, com histórico de dois casamentos, sem ficha criminal e trajetória de atuação profissional em várias áreas: de administrador de fazendas a motorista de aplicativo. Esse é o cidadão agora conhecido como feminicida.

Do que foi exposto sobre as poucas declarações feitas por ele a respeito do ato extremo, Suetônio revelou arrependimento e mostrou-se lacônico com o futuro.

Já me fizeram essa pergunta várias vezes, eu sinto muita vergonha do que fiz, falei pra delegada que falar que me arrependo vai resolver o problema? Sinto vergonha da família dela, da minha família, do filho pequeno...”, afirmou durante o exame psiquiátrico.

(*) Marta Ferreira, que assina a coluna “Capivara Criminal”, é jornalista formada pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), chefe de reportagem no Campo Grande News. Esse espaço semanal divulga informações sobre investigações criminais, seus personagens principais, e seu andamento na Justiça.

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