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Campo Grande, Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

13/03/2018 11:55

Após morte de Dorsa, médico rompe silêncio sobre acusação de fraude

Cardiologistas foram gravados em diálogo em que falam em omitir informações sobre morte durante cirurgia

Anahi Zurutuza
Da direita para a esquerda, médicos João Jackson e Josér Carlos Dorsa, em foto publicada pelo primeiro em rede social (Foto: Facebook/Reprodução)Da direita para a esquerda, médicos João Jackson e Josér Carlos Dorsa, em foto publicada pelo primeiro em rede social (Foto: Facebook/Reprodução)

Cinco anos depois que áudio sobre a morte de uma paciente do HU (Hospital Universitário) de Campo Grande durante cirurgia veio à tona, o médico cardiologista que conversa ao telefone com José Carlos Dorsa, rompeu o silêncio.

João Jackson Duarte se manifestou publicamente um dia depois que o colega, que ficou conhecido após denúncias sobre a existência da suposta “Máfia do Câncer”, morreu em uma sauna na Capital.

O cardiologista lamenta a morte do colega e critica a imprensa por ter “ressuscitado” o histórico da Operação Sangue Frio, força-tarefa que investigou ele, Dorsa e outros profissionais da área da saúde.

Quando a conversa gravada foi divulgada em meio ao turbilhão de denúncias feitas pela Sangue Frio, pouco se falou sobre quem era o médico que dialogava com Dorsa sobre a adulteração de documentos oficiais para supostamente esconder erro médico.

Embora a imprensa já tenha noticiado que o MPF (Ministério Público Federal) denunciou João Jackson e o Dorsa por falsidade ideológica e uso de documentos falsos, o médico faz questão de tornar público na postagem, para quem ainda não sabia, que a segunda voz no áudio é dele.

“Hoje é um dia muito triste para mim! E li em alguns posts o diálogo sobre a morte de uma paciente, amplamente divulgada pela imprensa e ressuscitada em dia mais inadequado possível, onde o Dr. Dorsa conversa com um médico! Então!!! Este médico do diálogo SOU EU!”, começa assim o desabafo postado no Facebook, na noite desta terça-feira (12).

O médico diz também que apesar de ainda estar respondendo pelo ocorrido em 21 de junho 2012, na Justiça e em processo aberto pelo CRM-MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul), toda vez que a conversa com Dorsa é revivida, ele e o colega são “condenados”. “Estamos até hoje respondendo judicialmente e no CRM sobre o caso, que sempre é revivido pela imprensa, falada e escrita! Pelo que eu sei não fomos condenados, exceto pela imprensa!”, continua a criticar.

João Jakson não mede elogios para o colega. “Olha, sinceramente, eu poderia ficar no anonimato e me esconder, porque as palavras escritas da imprensa são pesadas e injustas e sem nem um compromisso com a verdade, mas no dia de hoje não dá para aguentar calado. Inclusive peço desculpas aos amigos pela exposição, não quero polemizar ou causar nenhuma confusão! Mas é que conheço o Dr. Dorsa há mais de 20 anos! Vi muitas vezes ele operar por mais de 24 horas seguidas, sem comer e se beber água, de pé em frente do paciente e aprendi com ele o que é ‘nunca desistir’ e ele nunca desistiu!”.

O cardiologista ainda defende que Dorsa foi o único a querer tratar a paciente que morreu na mesa de cirurgia. “Participei SIM deste diálogo! Paciente deu entrada em risco de morte já tinha sido desenganada em vários outros hospitais da cidade e ninguém teve coragem de indicar qualquer procedimento para tentar salvar a vida daquela senhora! Então, o Dr. Dorsa, que eu conheço há mais de 20 anos, abraçou a causa da paciente e indicou um procedimento que ele trouxe aqui para o Estado e salvou a vida de mais de 20 pacientes!!!”.

Ele também nega que tenha omitido ou adulterado informações no documentos que registraram a morte de Maria Domingues Lopes Dias, 65. “Já anexamos todas as provas aos autos do processo com descrição de relatório de procedimentos que descreve tudo que foi feito e inclusive descreve a perfuração do ventrículo que é uma complicação inerente ao procedimento de alto risco! Bom, vamos aguardar o julgamento em paz e fazendo o nosso melhor pelos pacientes! Com a consciência tranquila de quem fez e faz de tudo para ajudar o paciente a se curar!”.

Sauna onde José Carlos Dorsa morreu (Foto: Marina Pacheco)Sauna onde José Carlos Dorsa morreu (Foto: Marina Pacheco)

Morte – José Carlos Dorsa Vieira Pontes, de 51 anos, morreu na noite de domingo (11) em uma casa de massagem e sauna no centro de Campo Grande.

O cardiologista teria passado mal e sofrido uma convulsão, sendo encontrado no segundo andar do estabelecimento deitado de bruços. Há suspeita de que ele tenha sofrido um ataque cardíaco, porém, a causa da morte só será confirmada em exames que ficarão prontos dentro de 30 dias, conforme a Polícia Civil.

Alvo da operação – Alvo de dez ações judiciais decorrentes da Sangue Frio, entre denúncias cíveis e criminais, Dorsa vivia a expectativa de que, dentro de um mês, conseguiria provar sua inocência em um dos processos sobre fraudes em contratações e desvios de recursos no HU, segundo o advogado Fabrizio Tadeu Severo dos Santos, que desde 2012 defendia o médico das acusações relacionadas à “Máfia do Câncer”.

A denúncia de erro médico e fraude em documentos é a que talvez mais tenha atingido a imagem do cardiologista. Dorsa e Jackson foram denunciados pelo MPF em julho do ano passado por omitirem procedimentos feitos na cirurgia cardíaca de Maria Domingues.

No episódio, a paciente morreu em decorrência da perfuração no ventrículo esquerdo. Dorsa e o cardiologista João Jackson declararam em documentos oficiais que a morte se deu por “causa diversa”.

Contudo, interceptações telefônicas feitas durante a Sangue Frio, em 2013, mostraram os profissionais combinando o que diriam em relação a um dos procedimentos que não deram certo.

Sangue Frio – Nas primeiras horas da manhã do dia 19 de março de 2013, munidos com 19 mandados de busca e apreensão e quatro ordens judiciais de afastamento de funções, policiais federais foram ao Hospital do Câncer Alfredo Abrão, ao HU, à residência do médico oncologista Adalberto Abrão Siufi e à clínica NeoRad. A operação também teve como alvo Dorsa, que era diretor do HU na época. 

Na época, ele foi afastado da direção do HU por 60 dias e próximo à data do retorno, pediu para sair do cargo.

No Hospital Universitário, foram investigadas fraudes em licitações, corrupção passiva, desvio de dinheiro público e superfaturamento em obras.



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