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Campo Grande, Sábado, 16 de Dezembro de 2017

30/12/2009 16:20

Retrospectiva: Intolerância tirou vidas em 2009

Redação

O ano de 2009 vai ficar marcado para sempre na vida de duas famílias de Campo Grande, especialmente o dia 18 de novembro, quando o menino Rogerinho, de 2 anos, morreu vítima de tiros disparados pelo jornalista Agnaldo Ferreira Gonçalves. Naquele dia, a família do menino conheceu a tragédia da morte precoce pela violência. E a do jornalista assistiu à prisão de um homem de 60 anos, indiciado por homicídio após uma discussão banal de trânsito. Para a sociedade, o caso foi mais um que evidenciou o quanto a convivência social ainda é recheada de intolerância, e que ela pode explodir bem do lado da gente.

Situações cotidianas que em outros tempos trariam apenas transtorno e chateação tiveram desfecho trágico em Campo Grande neste ano. Até a rivalidade no futebol resultou em mortes. Em abril, dois corinthianos mataram a tiros e facada dois jovens são-paulinos. O motivo foi a provocação após partida entre os dois times.

Em fevereiro, comunicado da Coordenadoria de Políticas para a Diversidade, da Secretaria Estadual de Educação, orientou as escolas da rede estadual de ensino a destinarem banheiros femininos e dos professores para estudantes travestis e transgêneros. A medida, que representou conquista para a minoria, logo de início recebeu nota de repúdio da Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul). A entidade chegou a sugerir a criação de banheiros específicos para travestis.

Em fevereiro houve um caso trágico de intolerância na periferia da Capital. O jovem Clayton Jonas Torres Freitas, à época com 18 anos, teve a carreira promissora interrompida. Ficou em estado vegetativo após ser espancado por dois amigos de infância, em um dos bairros mais violentos de Campo Grande, o Jardim Canguru.

O motivo apontado foi a inveja de sua realização profissional. Na madrugada do dia 13, Diego Bispo da Silva e Cássio Henrique da Silva Rodrigues, ambos de 18 anos, tentaram matar o estudante. Como a arma não disparou, agrediram-no a coronhadas. Do espancamento resultou uma lesão cerebral. Após ser internado na Santa Casa de Campo Grande com ferimentos graves, Clayton ficou em estado vegetativo.

Presos, os agressores contaram detalhes do crime e confirmaram que a motivação foi a inveja que sentiam da vítima e do jeito de bom moço. Os amigos não gostavam do fato de o jovem não usar gírias, vestir-se melhor que os outros, ser querido pela família, trabalhar e ter passado no vestibular.

Recuperação - Apesar do estado em que Clayton ficou após a brutalidade, sua recuperação é considerada 'milagrosa' pela mãe, Helena Britez Torres, de 43 anos. Ela conta que nem os médicos conseguem explicar a melhora do menino em apenas nove meses, a previsão era que ele recuperasse alguns poucos movimentos em no mínimo dois anos.

"Quando ele saiu do hospital o médico desenganou", lembra Helena. O diagnóstico apontava lesão cerebral e na medula, o que impediria o rapaz de recuperar os movimentos e de compreender o que se passava à sua volta. Apesar disso, Clayton consegue entender o que as pessoas falam, tem memória de antes da agressão, enxerga, ouve e consegue ler. Os movimentos também voltaram, o rapaz pode mexer a cabeça, mãos, pernas e pés, sem sequer ter feito fisioterapia, por falta de dinheiro.

A questão financeira também foi parcialmente resolvida, comemora a mãe. Seguro de R$ 5 mil referente ao estágio que o jovem fazia no banco foi liberado e será usado no tratamento, para que ele volte a andar. "Vou investir nele", diz Helena. Apenas para corrigir as mãos atrofiadas serão necessárias 50 sessões de fisioterapia com estímulos elétricos, a R$ 80,00 cada uma, procedimento não oferecido pela rede pública.

Diante da melhora, Helena afirma que os médicos ficaram perplexos e disseram que vão precisar de bateria de exames para dar novo diagnóstico para o garoto, porque o antigo não é mais válido diante da evolução em seu quadro clínico.

"Só falta andar e falar bem", diz a mãe do rapaz.

As mudanças na vida foram muitas, a família mudou de bairro e preferem não ter divulgado o novo endereço por medo dos autores serem soltos e irem novamente atrás do rapaz. O sustento ainda vem de doações. Seguro do INSS liberado recentemente deverá ajudar nas despesas.

Helena, que agradece as doações recebidas, confessa que em nenhum momento perdeu a esperança na recuperação do filho, apesar das dificuldades pelas quais passou. "Pela minha fé eu sempre esperei que ele melhorasse", afirma.

Sobre os autores da agressão, ela confessa que até hoje não entende nem aceita o que chama de 'monstruosidade'. Mas, diz que Deus foi maior que tudo de ruim que o filho passou.

A mãe observa ainda que no bairro onde Clayton foi agredido, a violência continua. "Muitos amigos deles já perderam a vida", aponta. Para ela, o que falta para os agressores é compreensão e diálogo, como forma de combater atitudes extremas.

Insanidade - Em abril foi a vez de desfecho radical para uma briga de torcidas. Após assistirem pela televisão a um jogo entre o São Paulo e o Corinthians, um grupo de amigos do time tricolor foi sentar em frente à casa de um deles, na Vila Margarida, e teriam provocado um grupo de corintianos que passou por ali, segundo testemunhas. Isso foi o suficiente para que Luíz de Souza, de 28 anos, voltasse ao local acompanhado de Cristiano Mendes Rodrigues, de 19 anos, e eles matassem dois são-paulinos.

Em um ano marcado pela dificuldade em lidar com as diferenças, em várias ocasiões sobrepostas à vida, os motivos que levaram várias pessoas a agredirem e até matarem foram extremamente banalizados. Em agosto, ao sair da escola no Jardim Morenão, uma adolescente de 14 anos teve o rosto retalhado com um estilete por uma mulher de 31 anos, com a ajuda de outras duas garotas. A agressão seria uma lição para a menina aprender a "não dar em cima do homem dos outros". Neide Barbosa dos Santos, de 31 anos, autora da ação, foi indiciada por tentativa de homicídio.

Nove dias antes, a menina de 14 anos havia sido vítima de outra agressão, quando vizinhas tentaram atear fogo em seu corpo. Rosângela Cardoso Paixão e as mesmas adolescentes que depois ajudaram a retalhar o rosto dela chegaram a jogar gasolina em suas pernas, mas não conseguiram atear fogo e consumar o crime.

Extremo - No dia 18 de novembro deste ano, o caso que mais chocou, por envolver uma criança como vítima. O menino Rogério Mendonça, de dois anos, foi baleado após o tio se envolver em discussão de trânsito com o jornalista Agnaldo Ferreira Gonçalves. Na versão do jornalista, o tio de Rogerinho, Aldemir Pedra Neto - que dirigia a camionete onde estavam ainda o menino, uma outra criança e o avô, teria fechado o carro de Agnaldo na avenida Mato Grosso, centro da cidade. A versão de Aldemir, que conduzia uma caminhonete L-220, é que a discussão começou porque ele demorou a sair do semáforo.

'Fechada' ou demora no semáforo, a manobra provocou irritação no outro motorista. Os dois desceram dos veículos, discutiram e seguiram seus caminhos, na versão do condutor da caminhonete. Um pouco à frente, no cruzamento com a rua Rui Barbosa, a explosão do jornalista. Ele começou a disparar contra o veículo onde, além do motorista, estavam o pai dele e os dois sobrinhos.

Rogerinho, em pé no banco de trás, foi atingido por um disparo no pescoço e morreu horas depois na Santa Casa. A irmã dele, Ana Maria, de cinco anos, nada sofreu. O passageiro do carro, pecuarista João Afonso Pedra, de 52 anos, também foi baleado, perdeu dentes e teve que ser submetido a cirurgia para reconstrução no maxilar. A morte do menino abalou a família e chocou toda a sociedade. O caso ganhou repercussão nacional.

Agnaldo apresentou-se à Polícia algumas horas depois, aparentemente tranquilo e sem saber da morte da criança. Concluído o inquérito, ele foi indiciado por três tentativas de homicídio, porte ilegal de arma e pela morte da criança.

Além da indignação contra o jornalista, a opinião pública manifestou-se contrária também ao tio do menino por não ter evitado a discussão. O rapaz já tinha um histórico de problemas no trânsito, e estava com a CNH suspensa após ter sido denunciado por realizado manobras perigosas em Jardim, onde morava.

A intolerância sexual também marcou o ano. Na madrugada que antecedeu a parada gay, algumas das principais avenidas da cidade amanheceram pichadas com frases religiosas de salvação. Para os organizadores da parada, o manifesto foi uma retaliação. Até na Justiça houve repercussão ao movimento. Juíza da Vara da Infância, Juventude e do Idoso proibiu crianças e adolescentes menores de 16 anos de irem à parada, o que aumentou a polêmica em relação ao movimento consolidado nas principais cidades brasileiras. Para os participantes, apenas foi reforçado o sentimento de discriminação.

Esse foi o mesmo sentimento da família de Isa, de dois anos, que foi proibida na escola de trocar as aulas de balé por futebol sob a justificativa de que o esporte era coisa de menino. Sem melhor argumento, uma tia da escola ainda teria 'brigado' por conta de sua preferência, na versão da criança. A postura adotada pela escola causou indignação aos pais e confusão na cabeça da menina, que ainda não tem idade para compreender as diferenças entre gêneros.

"Foi muito grave. Uma escola não pode pregar esse tipo de segregação", protestou a mãe da criança, a jornalista Fabrina Martinez. Mas, o que para alguns foi uma importante denúncia contra a conduta preconceituosa da escola, para outros foi uma exposição da criança, em mais um exemplo de intolerância e dificuldade da sociedade em aceitar o pouco convencional.

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