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Capital

Aos 63 anos, aposentada descobre o mundo das letras e muda a própria história

Oficinas no CCI Vovó Ziza transformam rotina de idosos, ampliam autonomia e resgatam autoestima

Por José Cândido | 06/04/2026 14:30
 Aos 63 anos, aposentada descobre o mundo das letras e muda a própria história
Alunas do CCI Vovó Ziza participam de aula de alfabetização e mostram que nunca é tarde para aprender e conquistar autonomia. (Foto divulgação)

Aos 63 anos, a aposentada Genir Maria de Jesus vive um daqueles recomeços que não cabem em idade. Depois de uma vida marcada pelo trabalho na lavoura e pela ausência de oportunidades de estudo, ela comemora uma conquista que, para muitos, parece simples — mas para ela representa liberdade: aprender a ler.

RESUMO

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Aos 63 anos, a aposentada Genir Maria de Jesus aprendeu a ler no Centro de Convivência do Idoso Vovó Ziza, em Campo Grande. O espaço oferece oficinas de alfabetização e espanhol para idosos, com 17 alunos matriculados. As aulas respeitam o ritmo individual e promovem autonomia e autoestima. A professora Cristiane Bonfim destaca que ver alunos assinarem o próprio nome representa dignidade. Uma formatura simbólica está prevista para este ano.

Frequentadora do Centro de Convivência do Idoso (CCI) Vovó Ziza, Genir agora consegue fazer algo que antes parecia distante, como identificar o ônibus certo para voltar para casa. Durante anos, o trajeto era incerto. Dependente da ajuda de desconhecidos, não raramente acabava no destino errado.

“Mesmo com a ajuda das pessoas eu peguei muito ônibus errado”, lembra.

Hoje, com o alfabeto já mais familiar, ela não apenas se orienta melhor pela cidade, como também escreve o próprio nome e encara o aprendizado como uma conquista diária — e um exemplo para os quatro netos.

Recomeçar também é aprender

No CCI Vovó Ziza, histórias como a de Genir são cada vez mais comuns. As oficinas de alfabetização vão além do ensino básico: funcionam como pontes para a autonomia e a autoestima na terceira idade.

Com aulas divididas por níveis de aprendizagem, os encontros respeitam o ritmo de cada aluno. A turma inicial se reúne às segundas e quartas-feiras; a avançada, às terças e quintas. O ensino é individualizado, justamente porque cada história chega com um tempo diferente.

Para a professora Cristiane Bonfim, o impacto vai além da sala de aula.
“É uma sensação maravilhosa participar de uma transformação da vida de alguém. Quando vejo uma pessoa que sempre usou a digital passar a assinar o próprio nome, é dignidade sendo construída”, afirma.

Atualmente, 17 alunos participam da oficina e devem celebrar, ainda neste ano, uma formatura simbólica — marco de uma conquista que não se mede apenas em letras, mas em independência.

Coragem para começar

A decisão de voltar a estudar, muitas vezes, nasce dentro de casa. Foi assim com dona Tereza Canuto, de 85 anos, que encontrou incentivo na irmã mais velha.

“Antes, me dava uma tremedeira. Agora eu já escrevo sem medo, sem nada”, conta.

Para ela, o tempo no CCI é mais que aprendizado — é um respiro.
“As horas que a gente fica aqui refrescam a cabeça, parece que a gente dá um tempo para a gente mesmo.”

Espanhol abre novas portas

Além da alfabetização, o centro também oferece oficinas de espanhol, ampliando horizontes e conectando os alunos com novas realidades. As aulas, realizadas às segundas e quartas-feiras, combinam conversação, gramática básica e atividades lúdicas, como músicas e dinâmicas em grupo.

A iniciativa dialoga com o cenário regional e o avanço da Rota Bioceânica, que deve intensificar a circulação de estrangeiros na região.

Segundo a professora Letícia Gentelini, o entusiasmo dos alunos surpreende.
“Eles são muito interessados. Mesmo na terceira idade, querem aprender, se comunicar, entender o mundo ao redor. Isso é inspirador”, destaca.

Para a ex-agente de trânsito Dilma Moreira, o aprendizado tem destino certo: as viagens para visitar a filha nas Ilhas Canárias.
“Eu já me virava na Espanha, mas agora estou aprendendo o jeito certo de falar. Vai ajudar muito nas próximas viagens.”

Já o veterano Roberto Suzuki, frequentador do CCI há mais de uma década, resume o espírito da turma com bom humor:
“O papagaio velho aprende a falar? Aprende! Eu escolhi a oficina certa para continuar em movimento.”

Muito além da sala de aula

Mais do que espaços de ensino, as oficinas do CCI Vovó Ziza se consolidam como ambientes de convivência, inclusão e redescoberta.

Ali, cada palavra aprendida carrega mais do que significado — representa autonomia, dignidade e a certeza de que nunca é tarde para começar de novo.