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Capital

Assassinato de Maria Graziele foi o último capítulo de relacionamento violento

Família procurou a polícia por pelo menos 3 vezes desde 2012, quando jovem se envolveu com feminicida

Por Marta Ferreira | 27/04/2020 13:32
Maria Graziele ao lado de Lucas, com quem começou a se relacionar mal havia saído da infância. (Foto: Reprodução Facebook)
Maria Graziele ao lado de Lucas, com quem começou a se relacionar mal havia saído da infância. (Foto: Reprodução Facebook)


Quando se despediram no sábado (25) de Maria Graziele, 21 anos, num funeral aos moldes permitidos pela pandemia de novo coronavírus, breve e com pouca gente, a família sepultou da pior forma uma história de tentativas de livrar a jovem da face mais cruel dos relacionamentos tóxicos: quando descambam para a morte, geralmente antecedida de outras formas de violência. Maria Graziele Elias da Silva, estudante de Estética, mal havia entrado na adolescência, aos 13 anos, e o namoro dela e do agora feminicida Lucas Pergentino Câmara, de 26 anos, já levava pai e mãe à polícia em Campo Grande, como apurou a reportagem.

Entre 2012 e 2014 foram registrados três boletins de ocorrência, o mais recentes deles em razão de espancamento sofrido pela jovem durante crise de ciúmes doentios por parte de Lucas. Eles moravam juntos, na mesma casa onde ela foi morta, no Parque do Lageado, sul da cidade, conforme as investigações. Haviam se conhecido pela região, já que ela vivia no bairro vizinho, o Dom Antônio Barbosa.

Os outros boletins foram por episódios relacionados à “fuga” da menina para ficar com o namorado.  Oito anos depois de iniciado o relacionamento, a vida tumultuada do casal terminou como o quarto feminicídio do ano em Campo Grande, confirmado quando o corpo dela foi achado, e o assassino preso, no sábado, depois de confessar o crime, e poucas horas após o velório. Lucas estava lá e até enviou coroa de flores.

Lucas Pergentino Câmara foi preso no sábado à tarde. (Foto: Henrique Kawaminami)
Lucas Pergentino Câmara foi preso no sábado à tarde. (Foto: Henrique Kawaminami)

Encarnou o personagem de viúvo sofrido. Até ser preso, conviveu normalmente por 11 dias com a família da própria vítima. Foi, inclusive, com a mãe denunciar o desaparecimento à polícia e tentou despistar as suspeitas contra ele, presentes desde o início para os investigadores.

Violências repetidas – A trajetória de registros policiais envolvendo os dois jovens começa em 2012. Na primeira situação, em agosto daquele ano, Maria Graziele foi deixada às 6h45 na escola, na Vila Carvalho, mas a família acabou sendo surpreendida por ligação informando que havia sofrido acidente de trânsito, por volta das 9h30, e havia sido levada para a Santa Casa de Campo Grande.

Estava na garupa da motocicleta de Lucas, tratado no período como ex-namorado, quando houve uma colisão e ela acabou ferida. Segundo descrito no registro policial, o rapaz, então com 18 anos, havia buscado a menina na escola sem consentimento dos pais. A rigor, a atitude é ilegal, por ele ser  maior de idade e ela menor.  Poderia ser configurada como estupro de vulnerável, se confirmado que já tinham relação sexual.

Em 2013, quando Maria Graziele tinha 14 anos, a mãe denunciou o abandono do lar, a polícia encontrou a jovem na residência de Lucas, a mesma do Parque Lageado. Ela voltou para casa dos pais, contra a vontade.

Agressão na madrugada - Menos de três anos depois, a ocorrência mais grave.  Maria Graziele foi agredida pelo companheiro, segundo as informações obtidas pela reportagem, na madrugada de 17 de setembro de 2014.  Morava com ele já fazia oito meses e, conforme contou, foi acordada por volta das 2h e passou a sofrer violência de todo o tipo: primeiro o agressor usou uma toalha, depois jogou a jovem no chão e passou a dar chutes nas costas e no rosto. O aparelho dentário que ela usava foi quebrado, diante da violência.

Ficou com hematomas espalhados pelo corpo e dores nas costas. Houve, ainda, cárcere privado, pois foi impedida de sair de casa até a manhã do dia 18 de setembro. Nesta data, à noite, foi feito registro policial. Tudo isso ocorreu sob xingamentos impublicáveis.

O ataque teve relação com as conversas com outra pessoa encontradas no celular da moça.

Pela investigação que o Campo Grande News fez, Lucas Pergentino Câmara foi alvo de dois processos judiciais derivados dos boletins de ocorrência, já encerrados. Foi decretada medida protetiva e ao fim de ação, em 2016, foi condenado por vias de fato, mas o casal acabou continuando junto e só se separou dois meses antes da morte de Maria Graziele. A última noite de vida dela foi na casa do ex, em uma recaída, tudo indica, para comemorar o aniversário dele. Como as ações correm em segredo de justiça, não foi possível saber o detalhamento.

A reportagem havia conversado tanto com a mãe da jovem quanto com o pai, antes de Lucas ser preso. Em nenhum momento ele foi citado como suspeito. Em respeito a pedido da família, não houve uma nova tentativa de falar com eles a respeito das novas descobertas.

Por meio de uma pessoa próxima, a informação obtida foi de que os pais tentaram, como puderam, preservar Maria Graziele e estão bastante abalados com tudo, como era de se esperar.

Técnico em informática, segundo levando pelo Campo Grande News, Lucas Pergentino Câmara agora é preso provisório, à espera da conclusão do inquérito da DEH (Delegacia Especializada de Repressão a Homicídios).


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