Em carta, Alir Terra renunciou ao comando da Santa Casa: “Cumpri minha missão”
Da cela, ex-presidente deixou recado para "que o doente na Santa Casa jamais seja visto como lucro”
A ex-presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, renunciou ao cargo de presidente da instituição e também à função de conselheira em uma carta escrita à mão de dentro da cela onde está presa. O documento, datado de 15 de setembro, foi apresentado como uma renúncia “irrevogável e irretratável” ao mandato do triênio 2026/2028.
RESUMO
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Alir Terra Lima, ex-presidente da Santa Casa de Campo Grande, renunciou ao cargo e à função de conselheira por meio de carta escrita à mão de dentro da cela onde está presa desde a Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro para investigar suspeitas de peculato e lavagem de dinheiro. No documento, ela afirma querer garantir gestão plena à instituição. A Justiça negou pedido de prisão domiciliar à ex-dirigente, de 71 anos.
Na carta, cuja autenticidade foi confirmada pelo advogado Murilo Marques e que será anexada ao processo, Alir afirma que decidiu renunciar definitivamente aos cargos para permitir que a Santa Casa tenha “gestão plena” e dê continuidade às atividades sem entraves. No fim do documento, ela escreveu: “Que o doente na Santa Casa jamais seja visto como objeto de lucro”.
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A renúncia ocorre menos de duas semanas após a Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro para investigar suspeitas envolvendo a administração da Santa Casa e contratos da instituição. Alir foi presa preventivamente na operação junto com outros integrantes da cúpula do hospital.
Na carta, a ex-presidente afirma que a Santa Casa é uma instituição filantrópica que “salva vidas” e que precisa continuar funcionando com autonomia para tomar decisões relacionadas ao atendimento dos pacientes.
“A Santa Casa é uma instituição filantrópica que salva vidas e necessita continuar com gestão plena e sem entraves burocráticos, pois a doença não espera decisões e atitudes devem ser tomadas”, escreveu.
Em outro trecho, Alir afirma que a instituição, com 119 anos de atuação, precisa manter suas negociações e ações junto ao Ministério da Saúde. Segundo ela, para isso é necessário que o hospital esteja com uma gestão plena em todos os sentidos.
A ex-presidente também relaciona sua saída à necessidade de permitir que o novo comando tenha condições de tomar decisões administrativas.
“O afastamento da minha pessoa em caráter definitivo possibilitará decisões na gestão ao atendimento do novo presidente com a diretoria corporativa, administrativa, e Conselho de Administração”, escreveu.
A carta também traz uma reflexão pessoal sobre a trajetória de Alir na instituição. Ela afirma que são 119 anos de serviços prestados à sociedade e diz que, assim como aqueles que passaram pela Santa Casa, também deixará este mundo sem levar consigo qualquer coisa.
“Cumpri minha missão e cada um foi testemunha da minha dedicação. Continuo associada”, escreveu.
Mudança no comando - A renúncia ocorre em meio a uma sucessão de mudanças na administração da Santa Casa após a Operação Antidotum.
No dia 23 de setembro, Heitor Rodrigues Freire foi apresentado como novo presidente da instituição. Ele havia comandado a Santa Casa entre 2020 e 2022, durante o período mais crítico da pandemia de covid-19, e foi indicado pelo Conselho de Administração para concluir o mandato que iria até 31 de dezembro de 2028.
No mesmo evento, o médico Luiz Alberto Kanamura foi apresentado como superintendente técnico hospitalar, enquanto José Roberto assumiu a diretoria de compliance.
Entretanto, no próprio dia da posse de Freire, a Justiça determinou o afastamento da diretoria da Associação Beneficente de Campo Grande, mantenedora da Santa Casa, e nomeou um gestor provisório pelo prazo inicial de 180 dias.
A decisão foi tomada pelo juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos. Com a medida, a administração do hospital passou a ficar sob responsabilidade de Kanamura, que havia sido nomeado superintendente técnico hospitalar no mesmo dia.
Entre as atribuições do gestor estão representar o hospital, adotar providências urgentes, reorganizar contratos, negociar com fornecedores, contratar ou rescindir serviços e preservar documentos e informações para análise.
A decisão judicial aponta uma crise administrativa e financeira na Santa Casa e risco à continuidade dos serviços de saúde. O juiz também determinou que o gestor apresente relatórios mensais ao Judiciário sobre a situação administrativa, financeira e operacional da instituição.
Operação Antidotum - A Operação Antidotum foi deflagrada pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), para investigar suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo contratos da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde.
Foram cumpridos 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia, além de seis prisões preventivas.
Entre os presos estão Alir Terra Lima, então presidente da Santa Casa; Alessandro Dias Junqueira, diretor administrativo; Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, diretor-adjunto de Finanças; Rinaldo Hakme Romano, ex-diretor de Finanças; Monique Gregório de Oliveira, responsável pelo setor de prontuários; e Maurício Aparecido Benites, empresário ligado à Redvalue Tecnologia.
Uma das frentes da investigação envolve um contrato para digitalização de prontuários médicos. O acordo previa pagamentos de R$ 1,8 milhão por ano durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, teriam ocorrido pagamentos elevados sem a correspondente prestação dos serviços, com suspeita de desvio de R$ 1,4 milhão apenas no primeiro ano.
Outra frente apura contratos da Operadora Santa Casa Saúde com empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte. Inicialmente, o Ministério Público apontou prejuízo mínimo de R$ 4,9 milhões. As suspeitas ainda são investigadas.
Prisão mantida - A renúncia ocorre também enquanto Alir permanece presa preventivamente. No dia 23 de setembro, a Justiça negou o pedido da defesa para substituir a prisão por domiciliar.
A defesa havia usado, entre outros argumentos, a idade de 71 anos. O juízo do Núcleo de Garantias do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul entendeu, porém, que a idade, isoladamente, não é suficiente para substituir a prisão preventiva pela domiciliar.
A decisão também apontou que não foram apresentados elementos que comprovassem extrema debilidade causada por doença grave ou impossibilidade de receber atendimento médico adequado durante a custódia. Ao mesmo tempo, determinou que sejam garantidos acompanhamento médico e acesso aos medicamentos prescritos enquanto Alir permanecer presa.
Em manifestação anterior, a defesa afirmou que Alir está indignada com a prisão e negou qualquer prática ilícita, sustentando que pretende demonstrar à Justiça que não havia motivos para a manutenção da prisão preventiva.
A prisão preventiva é uma medida cautelar adotada durante a investigação e não representa condenação dos investigados.
Carta marca saída definitiva - Ao formalizar a renúncia, Alir deixa registrado que sua decisão não se limita à presidência. Ela também abre mão do cargo de conselheira, afirmando que o afastamento definitivo tem como objetivo permitir que a instituição siga sua administração em meio à crise provocada pela investigação e pelas decisões judiciais.
O documento termina com a frase que resume, segundo a própria ex-presidente, o princípio que deveria nortear a instituição: “Que o doente na Santa Casa jamais seja visto como objeto de lucro”.



