Gestor da Santa Casa na pandemia volta ao comando em meio a nova crise
Heitor Freire retorna à presidência 12 dias após operação policial atingir cúpula do hospital

Três anos depois de deixar a presidência da Santa Casa de Campo Grande, Heitor Rodrigues Freire retorna ao comando do maior hospital de Mato Grosso do Sul em meio a outra crise. Se entre 2020 e 2022 enfrentou a pandemia de covid-19, desta vez assume a instituição após a operação que levou à prisão da então presidente Alir Terra e de integrantes da diretoria.
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Heitor Rodrigues Freire retorna à presidência da Santa Casa de Campo Grande três anos após deixar o cargo, assumindo o comando do maior hospital de Mato Grosso do Sul até dezembro de 2028. A troca ocorre após a Operação Antidotum, que prendeu a ex-presidente Alir Terra e integrantes da diretoria por suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com prejuízo estimado em R$ 4,9 milhões.
Freire foi apresentado nesta quarta-feira (23), durante evento realizado pela manhã no Auditório Carroceiro Zé Bonito, na Santa Casa. Ele ficará na presidência até 31 de dezembro de 2028 e deverá tomar posse formalmente na próxima segunda-feira (28).
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A solenidade também marcou a posse do médico Luiz Alberto Kanamura como superintendente técnico hospitalar e a apresentação de José Roberto na diretoria de compliance.
Advogado e corretor de imóveis, Freire tem uma relação de 33 anos com a Santa Casa. Ele já presidiu a instituição durante o período mais crítico da pandemia de covid-19. Em outubro de 2020, por exemplo, estava à frente do hospital quando a direção denunciou superlotação e pacientes voltaram a ocupar corredores diante do aumento da demanda. Ele permaneceu no cargo até a posse de Alir Terra, em janeiro de 2023.

Agora, disse retornar em uma “situação de emergência”. Ao falar aos associados, funcionários e autoridades presentes, lembrou as mais de três décadas de convivência com a instituição e afirmou que o hospital já atravessou diferentes períodos de dificuldade. “Vivemos crises e dificuldades, problemas e emergências, mas todos foram superados com a presença de Deus”, afirmou.
Freire também comentou a Operação Antidotum e disse ter acompanhado os acontecimentos com “perplexidade muito grande”, por considerar a situação inédita na história recente da instituição. Ele foi indicado pelo Conselho de Administração para assumir o restante do mandato.
Ao defender união para atravessar o novo momento, o futuro presidente abriu o discurso citando a conhecida frase de Fernando Pessoa: “Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Além da mudança na presidência, a Santa Casa oficializou nesta quarta-feira Luiz Alberto Kanamura como novo superintendente técnico hospitalar. Médico e cirurgião-geral, ele já foi diretor clínico da instituição e atua como preceptor de residência médica.
Kanamura iniciou o discurso falando da “honra e responsabilidade” de assumir a função e destacou o tamanho da estrutura que ficará sob sua gestão.
Segundo ele, a Santa Casa mantém cerca de 600 leitos e concentra atendimentos de alta complexidade. O hospital é referência estadual em neurocirurgia, politraumas, grandes queimados e traumas ortopédicos, além de responder, segundo o superintendente, por aproximadamente dois terços das internações em cardiologia de Campo Grande.
O médico, porém, afirmou que a instituição trabalha sobrecarregada e com financiamento insuficiente para os serviços prestados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). O novo superintendente propôs a construção de um novo modelo de relação entre o hospital, o Governo do Estado e a Prefeitura de Campo Grande.
Ele apresentou quatro pontos: concentrar a atuação da Santa Casa nas áreas em que é referência; estabelecer contratos com regras claras; buscar complementação financeira do poder público onde os valores da tabela SUS não cobrirem os custos; e adotar metas, indicadores públicos e prestação de contas rigorosa. “Quando o hospital fica bem, o sistema todo respira”, resumiu.
Estado fala em regionalização - Presente à solenidade, o secretário estadual de Saúde, Maurício Simões, lembrou que sua primeira experiência como gestor ocorreu por indicação de Kanamura, quando assumiu a coordenação do centro cirúrgico da própria Santa Casa. Em tom descontraído, atribuiu ao médico parte da responsabilidade por hoje ocupar o comando da SES (Secretaria de Estado de Saúde).
Simões concentrou a fala na regionalização do SUS em Mato Grosso do Sul. Segundo ele, ao assumir a pasta, encontrou uma estrutura dividida em quatro macrorregiões e 11 microrregiões, além de uma distribuição desigual da rede hospitalar entre os 79 municípios.

Conforme o secretário, enquanto 11 municípios não possuem hospitais, outros concentram várias unidades. Ele também citou hospitais com ocupação média entre 30% e 40%, cenário que classificou como preocupante porque a ociosidade também consome recursos.
A SES reduziu de 11 para nove o número de microrregiões e, desde junho de 2025, passou a financiar o chamado “cinturão ortopédico”, com atendimento em municípios como Ribas do Rio Pardo, Aquidauana, Bataguassu, Maracaju e Rio Brilhante.
Ao tratar dos recursos destinados à saúde, Simões afirmou que existe financiamento, mas também “muito desperdício”. “Não vou falar de desvio, isso é problema da Justiça”, disse.
Na relação com a Santa Casa, Simões também reconheceu dificuldades para alinhar os serviços oferecidos pelo hospital às demandas do Estado. “A Santa Casa é uma vendedora de serviço, eu sou o comprador de serviço. Há muita dificuldade de afinar”, afirmou. Segundo ele, muitas vezes as partes não conseguem chegar a um acordo porque a instituição oferece serviços que não estão entre aqueles de interesse da gestão estadual.
A Prefeitura de Campo Grande foi representada no evento pelo superintendente de Atenção Especializada e Urgência à Saúde, Yama Albuquerque Higa.
Operação - A troca no comando ocorre menos de duas semanas depois da Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado).
A ação levou à prisão de Alir Terra e de integrantes da direção da Santa Casa. Naquele mesmo dia, os 18 conselheiros se reuniram às pressas para discutir a situação e os efeitos da investigação sobre o hospital. Freire, então ex-presidente e integrante do conselho, participou da reunião.
A investigação apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo contratos da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde. Foram cumpridas seis prisões preventivas e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
Uma das frentes investiga contrato para digitalização de prontuários. Outra apura contratos firmados pela Operadora Santa Casa Saúde com empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte. Inicialmente, o Ministério Público apontou prejuízo mínimo de R$ 4,9 milhões. As suspeitas seguem sob investigação.
Após a operação, Heitor Miguel Scheibeler assumiu interinamente a presidência da instituição até a definição do novo comando.

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