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Capital

“Engolido” pela cidade, anel viário é lar perigoso, ganha-pão e muitos desafios

Já existe debate para empurrar rodovia para trás do Noroeste e Chácara dos Poderes

Por Aline dos Santos | 11/12/2023 12:03
Encontro do trânsito urbano com as carretas da BR-163, no anel viário de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)
Encontro do trânsito urbano com as carretas da BR-163, no anel viário de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)

Com 90 quilômetros, num trajeto que inclui as rodovias federais 163, 262 e 060, o anel viário que contorna a área urbana de Campo Grande tem trechos “engolidos” pela cidade, é lar perigoso para quem já não tem onde morar, ganha-pão dos que buscam complementar a renda e exibe desafios.

Neste último quesito, a lista inclui lixões à beira do caminho, lentidão no trânsito e asfalto danificado ou sem sinalização, além de atropelamento da fauna. A partir da BR-163, no viaduto Engenheiro Paulo Avelino de Rezende, localizado sobre a Avenida Ministro João Arinos, o fluxo de veículos é intenso.

Enquanto as carretas “rugem” na principal rota para escoar a produção, carros e motocicletas passam pelo corredor de veículos pesados para acessar bairros que circundam a Avenida Guaicurus ou porque os condutores trabalham em empresas que margeiam a pista.

A BR-163,que é administrada pela concessionária CCR MS Via, é sinalizada e o asfalto se mostra melhor dos que nas rodovias vizinhas, 262 e 060, sob responsabilidade da União, mas sem cobrança de pedágio.

Apesar de trechos perigosos, quando o fluxo urbano se encontra com o da BR-163, a situação já foi pior. Antes da instalação de defensas metálicas, o zigue-zague de carros saindo dos bairros era ainda mais constante.

Placas direcionando trajeto para cidades no anel viário. (Foto: Marcos Maluf)
Placas direcionando trajeto para cidades no anel viário. (Foto: Marcos Maluf)

O adensamento urbano, que faz com que a cidade cresça além do anel viário, levou à discussão sobre uma nova ligação de 37,8 quilômetros entre as saídas para São Paulo e Cuiabá, contornando bairros como Jardim Noroeste e Chácara dos Poderes.

A casa perigosa - Seguindo pelo contorno rodoviário, agora na BR-262, surge o acampamento Zumbi dos Palmares, do MPL (Movimento Popular de Luta). Nascido em março de   2017, com estimativa de ter até 600 famílias, o local parece, à primeira vista, fantasma. São barracos e barracos vazios e alguns já sem cobertura ou parede, deixando, por exemplo, um colchão exposto à chuva e sol.

Acampamento Zumbi dos Palmares às margens da BR-262. (Foto: Marcos Maluf)
Acampamento Zumbi dos Palmares às margens da BR-262. (Foto: Marcos Maluf)

Contudo, ainda há moradores. A explicação para a baixa presença na manhã de sexta-feira (dia 8) é que as pessoas saem para trabalhar. “Vem aqui à noite, que vai estar cheio”, diz homem de 50 anos, que morava no Jardim Los Angeles. Ele não quis dar o nome,  assim como as demais pessoas que falaram com a reportagem. O temor é dizer algo que desagrade à direção do MPL.

A poucos passos de uma placa que alerta “Cuidado, risco de colisão”, uma mulher de 51 anos conta que tinha acabado se de mudar para o acampamento, em companhia da mãe de 75 anos. Ela desabafa que está sendo uma “aventura” morar pela primeira vez tão perto de uma rodovia, mas se esforça para ver vantagem. “Antes, morava em duas peças e aqui são três peças. Aqui, a gente tem assistência, coisa que o poder público não faz pela gente”.

Placa a poucos passos de acampamento alerta para risco de acidente. (Foto: Marcos Maluf)
Placa a poucos passos de acampamento alerta para risco de acidente. (Foto: Marcos Maluf)

De acordo com Patrícia Luz, da coordenação do MPL, o acampamento tem 400 famílias, mas a maioria trabalha durante o dia.

“Eles estão trabalhando e retornam à noite, bastante moradores”, diz. A expectativa é de que grupos sejam assentados em 2024 pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). De toda forma, o acampamento também deve se mudar no ano que vem porque o local terá obras. A data da saída e o novo endereço devem ser definidos na segunda quinzena de janeiro.

Ainda segundo Patrícia, os moradores não são proibidos de falar com a imprensa. “Quando é oficial de Justiça, a gente pede que comuniquem a coordenação para saber do que se trata. A gente não impede de dar entrevista, mas elas acabam ficando com medo [de falar]”, diz.

Trecho da BR-262: obras chega, sinalização viária horizontal sai. (Foto: Marcos Maluf)
Trecho da BR-262: obras chega, sinalização viária horizontal sai. (Foto: Marcos Maluf)

Perto do acampamento, está o Porto Seco, obra de R$ 30 milhões que está sendo saqueada, e um cemitério de vagões na ferrovia.

A BR-262 tem trechos em obra, com alerta do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) que a pista tem pontos sem sinalização por conta das intervenções. Também há o despejo irregular de lixo pelo caminho, com sofás, pneus e entulho de construção.

O anel viário passa pela saída para a Sidrolândia, onde funcionou o Lixão de Campo Grande, que foi desativado e substituído por aterro sanitário. A rodovia também vira cidade no Jardim Inápolis, na saída para Aquidauana.

Descarte irregular de lixo a curta distância da BR-262. (Foto: Marcos Maluf)
Descarte irregular de lixo a curta distância da BR-262. (Foto: Marcos Maluf)

Ganha-pão – No trecho da BR-060, o anel rodoviário volta a ter “cara” de rodovia em Mato Grosso do Sul, com as margens desabitadas. Contudo, há diversos pontos com descarte irregular de lixo. O asfalto tem ondulações e o excesso de velocidade faz vítimas, como um tamanduá morto atropelado.

A rodovia também nos leva a quem faz da rodovia ganha-pão. Prestes a ser tornar caminhoneira, Cristiane dos Santos, 43 anos, vende pastel frito na hora e pão com ovo. Ela conta que cada um custa R$ 5, mas a preferência disparada é pelo pão com ovo.

Na BR-060, Cristiane vende pão com ovo e pastel frito na hora. (Foto: Marcos Maluf)
Na BR-060, Cristiane vende pão com ovo e pastel frito na hora. (Foto: Marcos Maluf)

Na sequência, rindo, diz que o cardápio de pão com ovo, apesar de ser algo simples, deixa grande parte da clientela surpresa. “Parece coisa de outro mundo”, afirma. A ambulante já teve salão de beleza, mas fechou as portas nos difíceis tempos da pandemia.

Morador no Jardim Aeroporto, o aposentado Ermínio Cristaldo, 70 anos, vende garapa desde março deste ano. Antes disso, o ponto às margens da BR-060 era usado por outro vendedor de caldo de cana. Quando ele saiu, Ermínio viu a possibilidade de complementar a renda. Nos dias bons, vende até 15 copos.

Seguindo pelo anel rodoviário, a rodovia se liga com a 163, fechando um contorno de 90 quilômetros. A reportagem solicitou informações ao Dnit sobre sinalização e reparo no asfalto, mas não recebeu resposta até a publicação da matéria.

Erminio vende garapa em rodovia para complementar a aposentadoria. (Foto: Marcos Maluf)
Erminio vende garapa em rodovia para complementar a aposentadoria. (Foto: Marcos Maluf)

Cidade refém – Para se ter ideia da capacidade que Campo Grande tem de crescer, apesar de já ter um enorme perímetro urbano, basta lembrar que o minianel rodoviário, planejado no plano diretor de 1960, ficava onde hoje se localiza as avenidas Tamandaré, Mascarenhas de Morais, Salgado Filho e Rua Ceará.

O arquiteto e urbanista Fayez José Rizk avalia que o anel rodoviário, principalmente no trecho entre as saídas de Cuiabá e São Paulo, terá mesmo que ser alterado. Mas resta saber qual modelo e que travas de uso e ocupação de solo a cidade está disposta a colocar para evitar um crescimento desordenado.

Proposta de novo anel viário, entre as saídas para SP e Cuiabá, empurra a rodovia 163 para mais longe da cidade. (Arte: Lennon Almeida)
Proposta de novo anel viário, entre as saídas para SP e Cuiabá, empurra a rodovia 163 para mais longe da cidade. (Arte: Lennon Almeida)

“A cidade virou refém desse anel, provavelmente vai precisar de outro. Mais todo mundo se acha no direito de expandir. Já é um absurdo o tamanho de Campo Grande, maior do que São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza”, afirma o urbanista.

Ele lembra que se surgir um bairro muito longe, todos os contribuintes terão que pagar para que ali chegue água, luz, esgoto e serviços urbanos.

“A lei de ocupação e uso do solo define o que você pode ocupar e que atividade pode exercer na edificação. Por exemplo, pode fazer uma residência, mas não pode fazer uma indústria. Mas Campo Grande vem sofrendo modificações no uso do solo que desfiguram toda a cidade”, diz Fayez.

Sobre a localização do novo anel viário, o urbanista pondera que é uma equação difícil de resolver e precisa de amplo debate. Uma possibilidade é colocar o contorno bem distante da área urbana, mas aí é preciso controlar a ocupação do solo, evitando que nasça um bairro a 50 km do Centro, por exemplo.

“Acho que um risco menor é fazer mais perto. Mas com o compromisso de não mudar, uma lei do uso do solo rígida. Mas é uma discussão muito grande”.

Tamanduá morreu atropelado na BR-060, em Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)
Tamanduá morreu atropelado na BR-060, em Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)

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