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Capital

“Estou arrasado”, diz pai de garoto suspeito de queimar 80% do corpo do amigo

Vítima afirmou durante atendimento hospitalar que colega ateou fogo nele por conta de uma briga

Por Ana Paula Chuva e Geniffer Valeriano | 05/08/2026 09:01
“Estou arrasado”, diz pai de garoto suspeito de queimar 80% do corpo do amigo
Pai do menino de 12 anos dentro da casa onde acidente aconteceu (Foto: Victória Costacurta)

Sem saber ao certo os motivos de o filho de 12 anos ter ficado retido na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Cepol, o trabalhador de 34 anos desabafou sobre a tragédia que deixou outro garoto, de 11 anos, com 80% do corpo queimado. O caso aconteceu no Bairro Vila Popular, em Campo Grande, e a vítima está intubada em estado grave.

RESUMO

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Um menino de 11 anos ficou com 80% do corpo queimado após um acidente envolvendo álcool e fogo no Bairro Vila Popular, em Campo Grande. Um garoto de 12 anos foi apreendido e investigado por ato infracional análogo a tentativa de homicídio, pois a vítima relatou que o colega ateou fogo após uma briga. A vítima segue internada em estado grave na UTI, intubada. O pai do adolescente apreendido busca assistência jurídica.

Visivelmente abalado e sem dormir, o pai do garoto que manuseou o combustível tenta entender a dimensão do que aconteceu. "Não sei por qual motivo deixaram ele retido. Querendo ou não, foi uma brincadeira e teve um acidente. Eu deixo ele em casa porque já tem 12 anos, mas nunca imaginei que ia acontecer uma coisa dessas. A gente nunca espera. Agora estou arrasado e me preocupo mais com o menino que está internado, porque ele ainda é uma criança. Se nós, adultos, já não suportamos uma dor dessa, imagina uma criança. Fico pensando na mãe dele também", lamentou o homem.

Divorciado da mãe da criança, o homem explicou ao Campo Grande News que, no período da manhã, o garoto foi para a escola; à tarde, após o almoço com o pai, fica sob o olhar de uma babá que cuida dos irmãos menores do menino enquanto o responsável trabalha.

"Na hora do almoço eu vou em casa e depois volto pro trabalho. A babá fica de olho nele. Ela cuida, não consegue ver toda hora porque cuida de outras crianças também, mas sempre dá uma olhada. Não sei o que aconteceu ontem, a gente não espera que a criança apronte isso", relatou.

O pai só soube do ocorrido após a ligação de um vizinho avisando sobre a presença de quatro viaturas da Polícia Militar em sua porta. “Eram 4 viaturas. Ai ele me contou o que aconteceu”, disse o homem.

À reportagem, a delegada da Deaij (Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude), Daniela Kades, explicou que a apreensão do adolescente de 12 anos ocorreu porque a versão de que o caso teria sido uma brincadeira foi contrariada pelo relato da vítima.

"A princípio, para a gente chegou como um acidente, uma brincadeira. Mas a vítima relatou para todas as pessoas que estavam no hospital que o menino colocou fogo nela por causa de uma briga. Essa história de brincadeira com fogo é a versão do adolescente apreendido", afirmou.

Segundo a delegada, diante desses elementos, o caso passou a ser investigado como ato infracional análogo à tentativa de homicídio.  Sobre o procedimento adotado após a apreensão, Daniela esclareceu que adolescentes não passam por audiência de custódia.

"A gente comunica a apreensão ao juiz plantonista, que decide se o adolescente será liberado ou encaminhado para a UNEI (Unidade Educacional de Internação). Enquanto isso, ele pode permanecer na delegacia aguardando essa decisão", explicou.

Ela acrescentou que, caso seja determinada a internação provisória, o adolescente poderá permanecer apreendido por até 45 dias, prazo em que a Justiça deve ouvir os envolvidos e definir a medida socioeducativa cabível.

Caso

De acordo com o boletim de ocorrência, a PM (Polícia Militar) foi acionada para ir até a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Santa Mônica, para onde o menino foi levado às pressas por uma vizinha. Antes de ser intubado devido à gravidade das lesões de 3º grau, o garoto conseguiu declarar à assistente social que estava na casa do amigo e que, após uma discussão, o colega teria ateado fogo em seu corpo.

Contudo, ao irem até a residência, policiais encontraram o garoto de 12 anos sozinho. Ao ser questionado, o menino apresentou outra versão: disse que a ideia de brincar com o combustível partiu do amigo e que ele chegou a alertar sobre o perigo.

O menino pegou um galão de 5 litros de álcool que estava guardado no armário da cozinha e ambos foram para os fundos do quintal "riscar pedra". Enquanto a vítima segurava a pedra, o colega despejava o líquido e usou um isqueiro.

Nesse momento, as chamas atingiram o galão de combustível, provocando uma explosão de ar que projetou o líquido em chamas diretamente contra o corpo de Yuri.

Em pânico ao ver o amigo em chamas, o garoto tentou ajudá-lo. A vítima correu para o banheiro e ligou o chuveiro, mas o fogo não apagou e a água do poço artesiano da casa acabou. Os dois correram para a cozinha, onde o amigo passou a encher vasilhas na torneira da pia para jogar sobre o corpo da vítima até apagar os últimos focos.

O menino ainda trocou de roupa com peças emprestadas e ficou deitado por cerca de 30 minutos na casa. Com dores insuportáveis, saiu à rua para pedir socorro. Coletores de lixo que passavam no local viram o estado da criança e mobilizaram os vizinhos, que acionaram o transporte por aplicativo para levá-lo com urgência à unidade de saúde.

A polícia registrou o caso como abandono de incapaz com resultado de lesão corporal de natureza grave e lesão corporal culposa. Como o garoto de 12 anos foi localizado sozinho e o Conselho Tutelar informou que não tinha disponibilidade para deslocar um conselheiro ao local, os policiais precisaram levar o menino na viatura até o trabalho da mãe e, posteriormente, contataram o pai por telefone.

À reportagem, o homem relatou que ainda está atrás de assistência jurídica. "Parece que foram brincar de riscar pedra, pegaram o álcool e o menino que estava com o isqueiro na mão acabou ferido. Nesse momento, ainda estou atrás de advogado ou defensor público para acompanhar meu filho na audiência", finalizou o pai.

O garoto retido deve passar por audiência na Vara da Infância e da Juventude para definir quais medidas socioeducativas ou de proteção serão aplicadas ao caso. A vítima permanece internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

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