Evento internacional expõe limite do trânsito em Campo Grande e revolta fãs
Trecho virou o caos sem respeito a restrição de caminhões e com gente saindo de casa mais tarde do que deveria
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O show do Guns N' Roses em Campo Grande expôs falhas graves na gestão de trânsito da cidade. O engarrafamento ultrapassou 14 quilômetros na Avenida João Arinos, principal acesso ao Autódromo Orlando Moura, e teve início quatro horas antes da apresentação. Sem rotas alternativas e com operação insuficiente, parte do público abandonou os veículos e seguiu a pé por até 13 quilômetros para não perder o evento.
Anúncio de público recorde não garantiu preparação para o show do Guns N' Roses, que evidenciou as limitações na estrutura viária e na capacidade de gestão de trânsito em Campo Grande. Algumas pessoas ficaram 7 horas no trecho entre a Joaquim Murtinho e o Autódromo de Campo Grande, o que em dias normais não demora mais do que 20 minutos. Outros desistiram no meio do caminho e muitos seguiram a pé.
- Leia Também
- Produtora do Guns N' Roses pede desculpas pelo atraso e leva vaias
- Sem alternativa, roqueiros desistem do trânsito e seguem a pé pela BR-262
Sem rotas alternativas, com operação considerada falha em pontos estratégicos e sem adaptação da rodovia para o volume excepcional de veículos, o sistema entrou em colapso quatro horas antes da apresentação principal e entrou noite adentro.
"A gente devia ter levado a sério o anúncio de 'chegue antes' que a organização colocou com letras garrafais no Instagram, mas eu pensei que sair às 16 horas era suficiente pra chegar. Acontece que são 19 horas e não andamos nem 3 quilômetros. É o caos, não teve nenhum planejamento viário. Parece até boicote de quem deveria ter organizado o trânsito para o show", comentou o agente de saúde Clóvison Benante, em um dos trechos da Avenida João Arinos, principal ligação com a BR-262, que leva ao Autódromo.
Equipes da Guarda Civil Metropolitana, Polícia Militar, Detran e Polícia Rodoviária Federal tiveram aparição bem tímida, trabalhando apenas como espectadores e não conseguiram reverter o cenário. No fim, para muitos, o acesso ao show virou um teste de paciência e também de resistência física. Em alguns casos, a única alternativa foi descer do carro e seguir a pé pela rodovia.
“Não tem plano de gestão do tráfego em uma via sem acesso alternativo”, avaliou Aly Ladislau, ao lado da namorada e de 3 amigos há 3 horas dentro do carro.
Só quem saiu antes das 16 horas conseguiu uma viagem sem raiva. "Problema é que eu não tinha como ir antes, eu trabalho né. E olha que ainda pedi para sair às 17h. Não tem jeito ano, acho que vou perder o show", lamentou Valéria Santiago, assistente administrativa.
Ônibus fretados também foram “perdendo” passageiros pelo caminho, que decidiram seguir a pé. Houve coletivos que deixaram o ponto por volta das 16h30 e permaneceram praticamente parados por horas.
"Paguei 80 reais pelo transporte e agora tenho de ir a pé? Pior, nem sei se vou conseguir chegar. O show do Raimundo já perdemos", reclamou Josafá Rodrigues, que foi paramentado com bandana na cabeça e camiseta de roqueiro para o primeiro evento internacional da vida.
O engarrafamento ultrapassou 14 quilômetros e, em alguns momentos, simplesmente não andava. A equipe do Campo Grande News acompanhou o trajeto e levou 1h20 para percorrer apenas 100 metros na João Arinos. "Das 17h às 20h andamos 2,5 km e ainda faltavam 5,5 km. Não dá para fazer evento nesse local”, relatou Sílvio Panage.
O congestionamento começava ainda na região urbana, na Rua Joaquim Murtinho, na altura da Escola Estadual Hércules Maymone, e se estendia até o autódromo.
Entre os relatos, o casal Miriam e Ali Barakat decidiu abandonar o carro para não chegar no fim do show. “Abandonamos o carro na avenida e viemos a pé. Foram 13 quilômetros. Era isso ou nada”, contou ele. “Tinha gente descendo do busão e pegando a estrada”, completou Miriam.
Funil no viaduto travou avenida
Um dos principais trechos de colapso ocorreu no viaduto que conecta a Avenida João Arinos à BR-163 e dá acesso à BR-262. No local, a suposta estratégia de controle de fluxo não evitou a formação de um funil com grande concentração de veículos. "Tem só um cara do Detran, de enfeite", protestou o motociclista Juanir Gonçalves, que apesar de estar sob duas rodas também ficou encurralado entre os carros.
Outro fator que agravou o cenário foi a presença de veículos pesados. Mesmo com restrição de caminhões na BR-262, válida até as 22h entre os quilômetros 233 e 328, carretas continuaram circulando normalmente no trecho, como mostram vídeos enviados ao Campo Grande News.
“Devia ter interrompido ali as descidas do viaduto e colocado uma equipe na saída para Cuiabá avisando que o acesso ficaria momentaneamente fechado. Se tivessem parado por umas duas horas já estaria resolvido. Não pensaram em nada. Despreparo total. Há semanas falavam disso e não teve planejamento?”, questionou o engenheiro Ricardo Trindade.
As alças de acesso permaneceram abertas e veículos vindos da BR-163, incluindo carretas, foram liberados para entrar na João Arinos, enquanto o tráfego da avenida era interrompido para grandes caminhões passarem rumo à BR-262. Com apenas um agente do Detran no ponto considerado mais crítico, o controle foi caótico.
Veículos pesados que desciam a alça avançavam, enquanto a João Arinos ficava completamente travada, o que gerou revolta. “Nunca vi isso. O agente do Detran privilegiou os caminhões que estavam descendo e parou todos os carros que seguiam para o show, um absurdo. Nem moto anda. A gente está parado aqui há 1h15”, reclamou a universitária Beatriz Vicente, que nem ia ao evento. “Eu só queria chegar na minha casa”, disse a moradora do Jardim Noroeste.
Nas redes sociais, o tom predominante também foi de revolta. “Estamos há três horas praticamente parados no trânsito”, disse Márcio Campos. “Falta de competência”, criticou Geraldo André Filho. “Que fiasco de organização”, escreveu Vera Penzo.
Além do transtorno, houve prejuízo financeiro. Com ingressos que chegaram a R$ 600 e estacionamento antecipado de até R$ 100, parte do público temeu não conseguir chegar a tempo.
“São 35 mil pessoas, é um evento grande, a cidade precisa aprender”, comentou Karolyne Melo.

