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Capital

Famílias dependem de doações para superar dias parados e sem trabalho

Trabalhadores poderão receber auxílio de R$ 600,00 do governo federal; medida deve ser publicada amanhã

Por Lucia Morel e Liniker Ribeiro | 01/04/2020 16:32
Esposa de Giuliano mostra vasilha de arroz. Alimento deve durar até sexta-feira. (Foto: Henrique Kawaminami)
Esposa de Giuliano mostra vasilha de arroz. Alimento deve durar até sexta-feira. (Foto: Henrique Kawaminami)

Ganhar hoje para comer amanhã. A frase tem sido falada à exaustão nos últimos dias, seja por representantes do comércio ou pelo próprio presidente da republica, Jair Bolsonaro, para enfatizar o quanto a paralisação das atividades produtivas, em época de epidemia do novo coronavírus, castiga os trabalhadores, principalmente os chamados autônomos.

Sem prevenção melhor que evitar aglomerações e se resguardar dentro de casa para conter a infecção com o vírus, esses trabalhadores, mesmo diante das dificuldades já sentidas na pele, estão dando um jeito de manter a comida na mesa, seja ao contar com doações, seja ao contar com o salário de outros membros da casa.

No bairro Jardim Noroeste, na saída para Três Lagoas, grande parte das famílias sobrevive de empregos informais, como jardinagem, carpintaria, construção civil, entre outros. Há quase duas semanas sem serviço, muitas delas já começam a pensar o que vão fazer para comprar o próximo saco de arroz.

“Um rapaz passou fazendo doação semana passada de arroz, feijão... Por isso tem isso aí”, disse o carpinteiro Giuliano de Souza Rosa, 39, que mora com a esposa e uma filha de 14 anos. A mulher dele mostra o resto de arroz cru em uma vasilha, que acreditam que vá durar até sexta-feira.

Eles também fazem reciclagem, mas seja da carpintaria ou desta outra atividade, não está vindo pagamento de nenhuma, já que com a quarentena, “está tudo parado”, segundo Giuliano.

Questionado sobre o que vai fazer assim que a comida acabar, ele não titubeia. “Depois vamos emprestando de um, de outro, cobrando de quem está devendo a gente. É assim que estamos vivendo”.

Reginaldo e esposa vão sobreviver do salário dela enquanto ele não voltar a trabalhar. (Foto: Henrique Kawaminami)
Reginaldo e esposa vão sobreviver do salário dela enquanto ele não voltar a trabalhar. (Foto: Henrique Kawaminami)

A família do servente de pedreiro Reginaldo Toledo Coimbra, 32 anos, vai depender, durante esse período de isolamento, quase que exclusivamente do salário da esposa, que trabalha em escola municipal.

“Por enquanto, o que traz mais tranquilidade, uma pequena tranquilidade, é que minha esposa trabalha na escola do município e ganha livre uns R$ 800,00 e é desse dinheiro que vamos sobreviver enquanto eu não voltar a trabalhar”, afirma.

Reginaldo conta que está parado há duas semanas e que foi quando recebeu seu último pagamento e fez compras para a casa. “A gente depende desse dinheiro pra comer, sobreviver e comprar as coisas dentro de casa. Com emprego já é difícil, e com essa paradeira fica ainda mais complicado”, avalia.

Além dele e da esposa, a casa ainda abriga duas filhas de 9 anos e 1 ano e 8 meses. “O alimento aí deve durar até umas duas semanas. Depois disso é batalhar pra conseguir”, diz.

Praticamente na mesma situação está a babá Lucia Helena de Brito, 22 anos. Ela, o marido e o bebê de 1 ano do casal vivem no bairro e também dependem da ajuda dos outros nesse momento.

Babá, Lucia está sem trabalhar desde o início da quarentena. (Foto: Henrique Kawaminami)
Babá, Lucia está sem trabalhar desde o início da quarentena. (Foto: Henrique Kawaminami)

“Está sendo difícil pra mim e pro meu marido, que é servente. Minha patroa trabalha em restaurante e está tudo parado”, lamenta. Ela conta com auxílio de Bolsa Família e diz que “é uma ajudinha”, mas que “não dá pro mês inteiro”.

O mesmo rapaz que ajudou a família de Giuliano parece ter passado também na casa de Lúcia, que conta que se não fosse essa doação, eles não teriam o que comer. “Espero que essa epidemia termine logo, para que a gente possa voltar a trabalhar”.

E na casa de Valter Aparecido Carvalho Furtado, 45 anos, apesar da falta de trabalho em período de quarentena, ele garante que está se resguardando em casa “para ver se tudo isso passa mais rápido”, já que com menos circulação de pessoas, mais fácil será a eliminação do vírus.

“Se não fosse minha esposa trabalhar, a gente ia estar perdido”, revela, enfatizando que a comida que tem em casa foi de um sacolão que ainda está sendo pago, em prestações e que só comprará mais comida quando o outro terminar de ser pago.

AJUDA - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou hoje a sanção ao projeto que estabelece um auxílio emergencial de R$ 600,00 aos trabalhadores informais para tentar amenizar os impactos econômicos da pandemia do novo coronavírus. A medida foi aprovada no último dia 30 em votação pelo Senado.

Segundo o texto, os valores serão pagos durante três meses, podendo ser prorrogados. A publicação deve ser feita até amanhã, com todos os dados de como o trabalhador deve proceder para poder receber o benefício.

O projeto de renda mínima garante um pagamento básico emergencial de R$ 600,00 por mês para brasileiros de baixa renda e trabalhadores informais, por pelo menos três meses. O prazo pode ser estendido depois, caso o surto de coronavírus continue.

Até dois integrantes da mesma família terão direito a receber o valor. Mães que são chefes de família e que sustentam as casas sozinhas vão receber o dobro, R$ 1,2 mil. Quem recebe Bolsa Família pode optar pelo que for mais vantajoso. Por exemplo, se ganhar R$ 200 pelo programa de transferência de renda, pode trocar pelos R$ 600 de renda emergencial enquanto durar a calamidade pública.

O valor só será pago a maiores de 18 anos, sem emprego formal e que não recebam nenhum benefício previdenciário ou assistencial, seguro-desemprego ou participem de outro programa de transferência de renda federal que não seja o Bolsa Família. Aposentados, pensionistas e idosos e deficientes que já recebem Benefício de Prestação Continuada (BPC), por exemplo, estão de fora.

Além disso, é preciso comprovar renda familiar mensal de até meio salário mínimo (R$ 522,50, este ano) por pessoa ou de até três salários mínimos (R$ 3.135) por núcleo. O benefício também não será pago a pessoas que tiveram rendimentos tributáveis acima de R$ 28.559,70 em 2018 (R$ 2.379,48 ao mês, em média).

O governo vai avaliar a renda média das famílias que solicitaram o auxílio pelo Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), no caso de quem é inscrito, ou por autodeclaração em plataforma digital.