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Capital

Férias e pipas: brincadeira de criança que faz cada vez mais vítimas do cerol

Por Paula Maciulevicius | 24/01/2012 16:16

Na lagoa Itatiaia, é possível confirmar o que já foi dito pela Polícia, o aumento de crianças e não tão crianças assim, soltando pipa

Sob o sol da lagoa Itatiaia, menino exibe, sem o cerol, a atriz principal do céu na imaginação das crianças. (Foto: João Garrigó)
Sob o sol da lagoa Itatiaia, menino exibe, sem o cerol, a atriz principal do céu na imaginação das crianças. (Foto: João Garrigó)

Férias, pipas e um número cada vez maior de vítimas do cerol. A brincadeira de criança é alvo de fiscalizações da Polícia. Nas ruas, o receio de ciclistas e motociclistas em se tornarem protagonistas da inconsequência do uso do cerol.

Na lagoa Itatiaia, é possível confirmar o que já foi divulgado pela Polícia Civil, o aumento de crianças e não tão crianças assim, soltando pipa. “Em época de férias dobra o número de ocorrências”, fala a delegada da Deaij (Delegacia Especializada do Atendimento a Infância e Juventude) Maria de Lourdes Cano.

Meninos entre 9 e 14 anos empinando pipas orgulhosos. “Olha vamos ficar famosos por não soltar pipa com cerol”, disse um dos menores.

Olhando para cima a brincadeira de colorir o céu de pipas parece inocente, mas não é. E fez uma vítima neste final de semana. Um motociclista foi atingido por uma linha feita de cerol quando atravessava a rua Panambiverá, no bairro Tijuca, em Campo Grande. Por sorte, a vítima conseguiu parar e evitou a queda, mas mesmo assim o cerol provocou um corte fundo no nariz.

O cerol deixou marcas e ensinou a lição. “Não quero mais soltar com cerol não”. (Foto: João Garrigó)
O cerol deixou marcas e ensinou a lição. “Não quero mais soltar com cerol não”. (Foto: João Garrigó)

A pena para quem for flagrado com linha de pipa com cerol só pode ser aplicada caso haja vítimas.

Do começo do ano até agora, segundo dados da Deaij, mais de 40 pessoas foram abordadas em ações específicas ou quando a Polícia que está em outra diligência se depara com o perigo do cerol.

“Só pode ser autuado em flagrante se lesionar ou vier a matar”, explica a delegada Maria de Lourdes. A pena prevista é de três meses a um ano de detenção.

Caso esteja apenas soltando a pipa, segundo a Polícia, a pessoa pode responder por expor em risco a vida ou integridade física dos demais.

Na região da lagoa Itatiaia a diversão da meninada é a pipa. O fato pode ser visto de cima e de longe. Pelo menos enquanto o Campo Grande News esteve no local, a consciência das crianças e adolescentes falava mais alto do que a vontade de ver a pipa do outro cortada, ao chão.

“A minha eu não solto com cerol porque meu pai não deixa. Se pega no pescoço do motoqueiro, já era”, diz um menino de 9 anos. Com as linhas nas mãos eles mostram que ali não tem cerol. “É sem, olha, está branquinha. Só fica assim meio suja por causa da terra”, completa o garoto.

Entre eles, um de 13 anos admite, até semana passada usava cerol e a marca ainda está nas mãos. “Parei semana passada porque cortei minha mão, não quero mais soltar com cerol”.

O menino ainda conta como fazia a linha, usando vidro estilhaçado e cola. “Você mexe os dois, amarra a linha e vai passando. Espera secar e depois é só colocar no pote e pronto”, relata como quem é acostumado a fazer.

Motociclistas convivem agora com congestionamento de linhas no céu. Mudança no tráfego que exige proteção. (Foto: João Garrigó)
Motociclistas convivem agora com congestionamento de linhas no céu. Mudança no tráfego que exige proteção. (Foto: João Garrigó)

Sobre a Polícia ele fala que só nunca foi pego porque correu.

“Eles chegam, vêem se tão com cerol, se tiver leva a linha e leva você. Daí é só a mãe para tirar. Eu não, nunca fui pego, saí correndo, mas quase me levaram”.

Caminhando em torno da lagoa, o porteiro Adilson Dolenkei, 50 anos, relata o que havia acabado de presenciar, ainda assustado.

“Agora mesmo, no entorno aqui, dois rapazes estavam soltando pipa, passou um motoqueiro e percebeu que a linha estava baixa, ele parou antes e advertiu os caras. Mas vai fazer o que? Tinha era que ter uma lei municipal, porque que é perigoso é, eu já tive amigo que cortou o pescoço”, conta.

Motociclista, Iran Nunes Junior, 27 anos, já passou por apuros. Por “sorte”, como ele mesmo define, ainda não foi vítima do cerol. A observação dele amplia a questão, de que soltar pipa usando o cerol não se restringe a brincadeira dos pequenos. “Não é criança não, a maioria é adulto”, comenta.

Ao transitar pelo bairro Tiradentes ele estava sem a antena na moto. Com os riscos eminentes, ele precisou criar a própria “barreira” de proteção.

“Eu vou andando assim quando vejo, para não pegar no pescoço. E não adianta falar, se não ameaça chamar polícia, eles não param”, finaliza.

De cima, a brincadeira colore o céu. A inocência da pipa que deu lugar a inconsequência. (Foto: João Garrigó)
De cima, a brincadeira colore o céu. A inocência da pipa que deu lugar a inconsequência. (Foto: João Garrigó)
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