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Capital

"Mestre das pontes", José Francisco ganha homenagem em obra emblemática

Familiares, amigos e ex-alunos se reuniram para homenagear José Francisco de Lima, engenheiro das pontes de MS

Por Paula Maciulevicius Brasil e Alana Portela | 12/06/2021 12:01
Canteiro próximo de pontilhão ganhou flores e cartazes de homenagem ao engenheiro José Francisco de Lima. (Foto: Kísie Ainoã)
Canteiro próximo de pontilhão ganhou flores e cartazes de homenagem ao engenheiro José Francisco de Lima. (Foto: Kísie Ainoã)

Três dias depois de partir, foi no pontilhão erguido em 1984, que amigos, familiares e ex-alunos homenagearam o engenheiro José Francisco de Lima. Aos 68 anos, ele partiu no dia 9 de junho, como mais uma vítima da covid-19, e deixa legado de centenas de pontes, estrutura que, segundo amigos, ele não fazia só na engenharia. José Francisco de Lima era uma ponte para a vida.

Filha dele, a jornalista Karina Medeiros de Lima conta que o pai teve os primeiros sintomas ainda no mês de maio, mas acreditava que fosse apenas uma gripe forte. Por insistência da família e depois de passar mal, José Francisco foi a um cardiologista que o encaminhou para o teste. Positivo para a doença, o engenheiro preferiu tratar em casa e ficou isolado da esposa.

Esposa do engenheiro, Nágila fala do vazio que sentiu logo que o marido foi internado. (Foto: Kísie Ainoã)
Esposa do engenheiro, Nágila fala do vazio que sentiu logo que o marido foi internado. (Foto: Kísie Ainoã)

Três dias depois de ter o resultado em mãos, José Francisco desmaiou e foi levado às pressas para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) da Coronel Antonino, onde ficou internado até conseguir uma vaga no Hospital Regional.

No CTI da covid do hospital, a filha chegou a mandar áudios, inclusive cantando Alceu Valença, músico que o pai amava. "Morena tropicana eu quero teu sabor... Ai, ai, ai, ai"

O pai mostrava reações, mesmo intubado, às mensagens de áudio da família, mas não apresentava melhora no quadro. José Francisco já tinha sido vacinado, e teve o resultado positivo 10 dias depois de ter tomado a segunda dose.

Na homenagem, faixas, cartazes e flores estão no canteiro da Avenida Afonso Pena, próximo ao pontilhão da Ceará. Projeto que para o engenheiro fazer, na década de 1980, foi necessário ir até o Rio de Janeiro aprender a técnica.

Rosa amarela era símbolo do amor do casal e virou a forma com que Nágila pode se despedir e homenagear o marido. (Foto: Kísie Ainoã)
Rosa amarela era símbolo do amor do casal e virou a forma com que Nágila pode se despedir e homenagear o marido. (Foto: Kísie Ainoã)

Engenheiro civil, Elói de Lima, de 44 anos, herdou a mesma paixão do pai pela profissão, e inclusive teve em José Francisco pai e professor. "Eu o admirava muito, por ele entrei nesta profissão, foram mais de 100 pontes construídas no Estado, mais de 20 só em Campo Grande", pontua o filho.

Esposa do engenheiro, Nágila Aparecida Medeiros de Lima, de 62 anos, dividiu a casa e a vida por 48 anos com José Francisco. Os dois se conheceram na juventude e rosas marcaram a época de namoro.

"Ele roubava sempre uma rosa para me levar nos encontros, foi uma rosa que usei para me despedir dele no caixão", conta. Rosas também foram colocadas durante a homenagem. "Quando ele saiu de casa para internar, eu senti um silêncio, um vazio enorme. Como se nada mais existisse. O luto pela covid já começa antes da morte, porque você sabe a gravidade da situação", descreve a viúva.

Casados há quase 50 anos, esposa lembra a última palavra do engenheiro que a chamou do quarto: "Ná". (Foto: Kísie Ainoã)
Casados há quase 50 anos, esposa lembra a última palavra do engenheiro que a chamou do quarto: "Ná". (Foto: Kísie Ainoã)

Quando ainda estavam em casa, isolados, Nágila lembra que a última palavra que ouviu do marido foi chamando-a pelo apelido carinho, "Ná", enquanto ela passava pelo corredor para regar as plantas.

"Fomos companheiros a vida inteira. Aquele Ná, o som daquele Ná não sai da minha cabeça", diz emocionada.

Primeiro aluna, depois colega de trabalho e amiga, Sandra Regina Bertoncini, de 61 anos, foi uma das participantes e quem também tem histórias do engenheiro para compartilhar. Por ter sido criado em Três Lagoas, o apelido dele era "Zé das três pocinhas", contou.

De aluna à colega de trabalho, Sandra Regina diz que José Francisco era ponte para a vida. (Foto: Kísie Ainoã)
De aluna à colega de trabalho, Sandra Regina diz que José Francisco era ponte para a vida. (Foto: Kísie Ainoã)

"Ele foi meu professor em 1981, na UFMS, depois meu colega de trabalho por 31 anos. Organizávamos viagens a trabalho e a gente se divertia muito. É difícil acreditar que ele partiu", confessa.

Quando soube da internação, Sandra chegou a acender uma vela e rezar para que o amigo melhorasse. O que não aconteceu.

"O que ele representa? Ele representa a ponte da vida, era ele quem fazia as pontes pelo Estado", diz.

Histórico Profissional - José Francisco foi engenheiro, projetista de estruturas de concreto armado, além de professor na UFMS, e acumulou mais de quarenta anos de profissão. Foi presidente do Crea-MS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul) na gestão de 1988 a 1990, sendo responsável pela criação de inspetorias no Estado.

O engenheiro deixa a esposa, três filhos e netos.

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