Após anos nas ruas, Sabiá poderá ganhar uma casa popular
Ele está na lista de futuros beneficiários do Residencial Águas de Lindóia, previsto na Vila Nasser
Antônio Pereira da Silva é um nome comum, mas só Sabiá é Sabiá. O apelido virou a identidade do homem de 60 anos que deve ser a figura mais folclórica do Centro de Campo Grande.
RESUMO
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Antônio Pereira da Silva, conhecido como Sabiá, figura folclórica do Centro de Campo Grande, está prestes a conquistar sua casa própria através do programa Minha Casa, Minha Vida. Aos 60 anos, o ex-morador de rua, que hoje vive com seu curador e amigo Josias de Oliveira, foi incluído na lista de beneficiários de um condomínio subsidiado pelo Fundo de Arrendamento Residencial. O projeto, denominado Residencial Águas de Lindóia, será construído na Rua Lindóia, no Bairro Vila Nasser. Sabiá, que possui deficiência cognitiva e recebe BPC, foi contemplado através de uma cota que reserva 3% das unidades para pessoas em situação de rua. A mudança representa uma transformação significativa na vida de quem já dormiu em portas de comércio e bancos de praça.
Enquanto a região onde perambulou por décadas vive crise e perde cada vez mais movimento em comparação à época em que era um andarilho conhecido, o Antônio que virou Sabiá aproveita um bom momento na vida.
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Dormir na porta de comércio, no posto de saúde e no banco da praça é uma fase que acabou. Nem todas as pessoas conquistadas pela sua falta de simpatia — Sabiá gostava de gritar e ser arisco, mas no fundo é um doce — sabem que ele era morador de rua.
Isso ficou no passado quando o homem foi "adotado" e começou a morar com o amigo Josias de Oliveira, 66 anos, que obteve judicialmente sua curatela. O curador é um dos engraxates da Rua Barão do Rio Branco sobreviventes dos velhos tempos. Foi durante o trabalho que ambos se conheceram e a amizade nasceu. Eles moram numa casa alugada por pouco mais de R$ 500 mensais no Bairro Guanandi.
As reações explosivas que chamavam atenção em Sabiá são traços de uma deficiência cognitiva. Elas acalmaram desde que ele envelheceu e começou a tomar remédios receitados pela equipe de psiquiatria que o acompanha. São também cerca de R$ 500 gastos todo mês para comprá-los junto a outros medicamentos para um problema nas pernas que o acompanha há muitos anos. Recentemente, ganhou um cordão de uma psicóloga para ser identificado como uma pessoa com deficiência.
Quando não está na Barão do Rio Branco com o engraxate, o homem fica num outro ponto tradicional do Centro, o Bar do Zé, na Rua General Melo. Senta-se numa cadeira de plástico ao lado dos amigos. Agitado do jeito que é, balança sem parar o tronco e faz uma afirmação ou outra no meio das conversas.
Passarinho fujão e teimoso, ele já escapou de internações e preocupou quando pegou covid-19 e foi para o hospital. Felizmente, resistiu a todas as dificuldades e ainda sabe sorrir, apesar de estar quase sem dentes.
Casa própria - Sabiá anda contente porque poderá ganhar uma casa.
A promessa é que seja num condomínio integralmente subsidiado pelo FAR (Fundo de Arrendamento Residencial) do programa federal Minha Casa, Minha Vida, que também deverá abrigar moradores da comunidade Cidade dos Anjos, localizada ao lado do antigo lixão da Capital.
Quem garante que Sabiá está perto de ter o próprio cantinho são a assistente social Áurea Domingues, que sempre cuidou dele nas ruas, e a coordenadora do Movimento Nacional de Luta por Moradia, Edymar Fernandes Cintra.
Como presidente de entidade cadastrada e apta a fazer seleções pelo programa, Edymar enviou nesta terça-feira (17) uma lista de nomes à Caixa Econômica Federal e ao Ministério das Cidades, incluindo o de Antônio Pereira da Silva “Sabiá”.
A líder do movimento social explica que uma portaria publicada no ano passado criou uma reserva obrigatória de 3% das unidades construídas com recursos do FAR para pessoas em situação de rua. É uma espécie de cota.
Pelo histórico de vida, Sabiá divide a listagem com outras pessoas desse grupo. Cerca de 60% das demais vagas serão destinadas aos moradores da comunidade, afirma Edymar, que deixarão seus barracos.
O condomínio já tem área enquadrada na Rua Lindóia, Bairro Vila Nasser. Vai se chamar Residencial Águas de Lindóia. Não começou a ser construído ainda. “Nós celebramos muito isso ontem. Provavelmente, ano que vem o Sabiá estará dentro da casa dele”, diz emocionada a coordenadora.
Atualmente, parte das necessidades de Antônio é coberta por um salário mínimo recebido por meio do BPC (Benefício de Prestação Continuada). Josias, que também ganha pouco, diz que não pagar aluguel aliviaria bastante o orçamento.
O amigo também sonha com a casa própria, pois acompanhará o futuro proprietário como seu representante legal. É ele hoje quem faz comida, leva ao médico e cuida das outras necessidades de Sabiá.
"Vai ser numa boa, tranquilo. Vai fazer uma reprogramação para melhor da nossa vida, do cotidiano nosso. Vai ser maior, provavelmente um lugar bacana, com portaria, mais privacidade, segurança. Vai ser muito legal”, imagina Josias.
O diálogo entre os amigos mostra que a alegria é compartilhada:
- Tá feliz morando com o Josias?
- Tá.
- Morando lá na Rua Jatobá, lá no Guanandi?
- Tá.
- Quer mudar para um apartamento?
- Vai.
- Vamos fazer um churrasquinho, né? Comprar uma carninha para assar?
- Vai.
"Vamos comprar um guaraná e uma Coca-Cola para confraternizar com as amigas e amigos na nova casa que nós vamos, provavelmente, ganhar", planeja o engraxate.
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