Minutos depois de chegar à Denar, cocaína apreendida até pela PRF era negociada
Investigação liga carga de 326 kg apreendida pela PRF e Dracoo ao esquema envolvendo policiais

RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Às 13h04 de 14 de dezembro de 2022, uma carga de 326 quilos de cocaína chegou à Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), em Campo Grande. O entorpecente havia sido apreendido horas antes em uma operação conjunta da PRF (Polícia Rodoviária Federal) e do Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado), escondido no fundo falso de um veículo, que seguiu para armazenamento na Denar.
- Leia Também
- Traficante movimentou quase R$ 1 milhão de esquema com transações “em família”
- Delegado investigado por desvio de droga gastou R$ 2 milhões em casa de luxo
Quarenta e oito minutos depois, segundo o relatório do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), a mesma droga já aparecia em conversas entre investigados sobre desviar e vender o entorpecente.
Segundo o Gaeco, a cocaína apreendida pela PRF e pelo Dracco teria sido oferecida por policiais civis da DENAR a uma organização criminosa. A investigação usa conversas, imagens e a identificação de uma marca nos tabletes para sustentar essa suspeita.
A história começa na Avenida Gunter Hans, em Campo Grande. Conforme o boletim citado no relatório, equipes abordaram um veículo que transportava uma placa solar. Durante a fiscalização, os policiais encontraram um compartimento oculto onde estavam 300 invólucros de cloridrato de cocaína.
O laudo pericial apontou que a carga totalizava 326 quilos. Dois homens foram presos em flagrante pelo transporte da droga. Após a apreensão, o material foi encaminhado à Denar, onde permaneceu sob custódia.
A conversa 48 minutos depois
Segundo o relatório, às 13h52, o traficante Edmilson Santos Pereira e o intermediário dos policiais, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, passaram a tratar da compra da cocaína.
Na conversa, segundo a transcrição apresentada no relatório, aparece a seguinte fala: “Vê se eles não pega dessa que chegou hi (...) Vamos pegar sim.”
Para os investigadores, a referência seria à droga recém-chegada à delegacia.
O relatório cita que os policiais mencionados seriam Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva.

A marca “BUGATTI”
A ligação entre a carga apreendida e a negociação teria ganhado outro elemento três dias depois. Durante a perícia, os investigadores identificaram diferentes inscrições nos tabletes de cocaína apreendidos. Uma delas era “BUGATTI”.
Segundo o Gaeco, em 17 de dezembro, Lucas enviou a Edmilson uma fotografia de um dos pacotes com a droga. A imagem original teria sido apagada, mas uma miniatura permaneceu armazenada no celular de Edmilson.
Para a investigação, o detalhe era importante porque o tablete da fotografia teria a mesma inscrição “BUGATTI” encontrada na cocaína apreendida no dia 14.
O relatório afirma que essa seria uma das evidências de que a droga negociada era a mesma carga apreendida pela PRF e pelo Dracco.
Nos dias seguintes, segundo o GAECO, os envolvidos passaram a discutir valores e quantidade. Em uma das conversas, Lucas pergunta sobre a possibilidade de conseguir “uns 40”.
A investigação interpreta a expressão como referência a 40 quilos de cocaína. Em áudio citado no relatório, Lucas afirma: “Dá pra nós ganhar um lucrinho entendeu? Girar dinheiro pô, pra depois pagar os caras.”
Para o Gaeco, a conversa indicaria que a intenção seria retirar parte da droga, revendê-la e usar o dinheiro para quitar os valores cobrados pelos supostos fornecedores.
A investigação aponta que a negociação dependia do pagamento aos supostos fornecedores. Em uma conversa, Lucas cobra Edmilson: “Mane preciso paga a fita lá mano. De fé.”
Em outro trecho, segundo o relatório, ele explica que precisava acertar os valores antes de conseguir novas cargas.
O Gaeco afirma que os pagamentos eram feitos principalmente em dinheiro vivo. Em determinado momento, Edmilson envia imagens de maços de dinheiro para demonstrar que teria valores disponíveis.
A pressa antes das férias
Outro detalhe destacado pelos investigadores aparece nas conversas de dezembro.
Lucas demonstra preocupação em realizar o pagamento rapidamente porque os supostos fornecedores entrariam em período de férias. Segundo a transcrição: “Os cara vai entrar de férias mané, essa semana, acho que quinta-feira eles entra de férias.” Para o Gaeco, a referência seria aos policiais lotados na Denar.

