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Capital

Não só o Natal: covid também roubou festa de 52 anos de pedreiro

"Os natais sempre tinham um bolo surpresa", relembra filha ao descrever comemoração

Por Liniker Ribeiro | 25/12/2020 07:52
Marcos Natanael Campos de Macedo, ao lado dos netos, em uma das comemorações de aniversário/Natal (Foto: Arquivo Pessoal)
Marcos Natanael Campos de Macedo, ao lado dos netos, em uma das comemorações de aniversário/Natal (Foto: Arquivo Pessoal)

“Abrace a pessoa que você ama, do jeito como eu gostaria de abraçar o meu pai”. As palavras que emocionam, também servem de lição. Durante 51 anos, a comemoração para a família do pedreiro Marcos Natanael Campos de Macedo, no dia 25 de dezembro, unia a celebração do Natal com a alegria de ter ao lado “um grande pai”, nascido na mesma data.

Mas, em 2020, não haverá comemoração. Nenhuma fatia do bolo com a foto do Vasco estampando a paixão de Natanael pelo time carioca será servida. Não tem aniversário, não tem Natal. A covid-19, assim como fez com outras 2.159 pessoas, em Mato Grosso do Sul, tirou a vida do pai de três filhos, há uma semana.

Sete dias impediram que o pedreiro comemorasse 52 anos de vida. Autônomo, o único caminho que Natanael normalmente fazia era o de casa para o serviço, e vice-versa. Mesmo assim, o contágio pela doença veio 9 meses após o início da pandemia, sendo fatal.

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Ele ficou uma semana e quatro dias internado, no Hospital Regional. Foi tudo muito rápido, começou com uma pneumonia, daí ele procurou tratamento em uma unidade de saúde e acabou se contaminando”, relata Carlivania Larissa Zara, de 29 anos, filha de Natanael.

E olha que, segundo a filha, o pai sempre se cuidou. “Usava máscara, álcool, tomava todos os cuidados, principalmente por causa da mãe dele, quem ele via pelo menos uma vez por semana. Ficou todo o período se cuidando, mas acabou se contaminando e não conseguiu vencer, a covid foi mais forte”.

Para a família, o contágio pode ter acontecido no período em que Natanael ficou internado para tratar da pneumonia. Ainda assim, o pedreiro chegou a deixar a unidade de saúde, quando a família conseguiu fazer com que ele realizasse o teste do novo coronavírus. No dia da nova internação, já no Hospital Regional, o resultado: positivo.

“De lá em diante ele foi só piorando. Não chegou a ser entubado e dois dias antes ele apresentou melhora, mas quando foi a noite, na sexta-feira (18), não resistiu”, conta Carlivania.

Além dela, Natanael deixou outros dois filhos, de 27 e 25 anos.

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Fique em casa – Para a família, o que mais dói é saber que o Natanael pode ter sido infectado por uma pessoa bem mais jovem, já que o pedreiro passou pequeno período internado ao lado de pessoas contaminadas pela covid-19.

“Eles [os jovens] não estão levando a sério. Na noite que meu pai dormiu lá, só tinham pessoas com menos de 40 anos, com covid. Pra mim que as pessoas só vão levar a sério quando a doença chegar por perto”, afirma.

Inclusive, o contato feito pelo Campo Grande News com a dona de casa aconteceu logo após a publicação de uma das enquetes do jornal, esta semana. Perguntamos, “No Natal da sua família, vai faltar alguém que a covid levou”. Em resposta, Carlivania não apenas lamentou a morte do pai, mas também pediu compaixão.

Perdi meu Pai há 5 dias e como dói! Enquanto muitos irão estar festejando, eu e minha família estaremos chorando, porque dia 25 seria o aniversário dele”, lamentou. “Se você se ama e ama o próximo, fique em casa, se cuida e diga sempre o quanto você ama para aquela pessoa. Abraça ela até não querer mais. Porque dói saber q você não vai mais vê-la ou vê-lo”, expressou em comentário por meio da rede social Facebook.

Em entrevista, a dona de casa foi ainda mais profunda. “Falta conscientização! É por isso que esse ano não vou ter meu pai, a pessoa de que tenho lembrança de ficar na porta de casa esperando ele chegar, do assobio dele, que foi um grande pai, um grande avô e deixou um legado. Ele amava ouvir flashback, tomar uma cervejinha e jogar baralho”, lembra.

Carlivania também não se esquecerá das festa no dia 25 de dezembro. “Os natais sempre tinham um bolo surpresa, ele já sabia que ia receber, sempre tinha um bolo do Vasco, ele era um grande torcedor. Na virada do ano, a gente primeiro dava parabéns para ele para depois lembrar que era natal, a noite era toda dele”, destaca.

“Fico pensando no abraço que eu não pude dar nele, nem mesmo olhar no fundo dos olhos dele pela última vez e dizer o quanto eu amava ele”, conclui emocionada.

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