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Capital

PCC domina 40% da massa carcerária de MS, mas vê oposição crescer

"Enquanto PCC for maioria, poucos vão morrer, mas se a oposição crescer um pouco mais e resolver se rebelar, a guerra estoura”, revela fonte ligada ao sistema

Por Luana Rodrigues | 16/01/2017 15:28
Rebelião ocorrida no mês de agosto, em Naviraí, onde maioria dos presos faz oposição ao PCC. (Foto: Divulgação)
Rebelião ocorrida no mês de agosto, em Naviraí, onde maioria dos presos faz oposição ao PCC. (Foto: Divulgação)

Assim como empresas, facções criminosas têm uma hierarquia rígida e responsabilidades atribuídas a cada posto. Seus integrantes competem por cargos e salários melhores e devem responder com resultados ao chefe. Mas, também como no mercado de trabalho, mudar de 'empresa', ou de organização criminosa, é uma das mais eficazes maneiras de subir na 'carreira'. Talvez seja essa a justificativa para o crescimento da “oposição” ao PCC (Primeiro Comando da Capital) em Mato Grosso do Sul. A facção vem 'perdendo' força no Estado, enquanto os opositores tentam tomar o poder.

Historicamente, a facção paulista tem maioria no Estado. A Agepen (Agência de Administração do Sistema Penitenciário) não divulga os números, “por questão de segurança”, mas, segundo um levantamento feito pelo Campo Grande News junto a fontes ligadas ao sistema de segurança pública e carcerário, de toda a população das prisões do Estado (15.373), ao menos 40%, ou seja, cerca de 6 mil detentos, são membros declarados ou simpatizantes do PCC.

No entanto, há cerca de dois anos, essa superioridade numérica vem diminuindo. “O que está acontecendo é um fenômeno. O PCC é uma facção que reprime bastante dentro dos presídios, eles têm mensalidade, controlam tudo, por exemplo, se você está com uma dívida com eles, te obrigam a assumir crimes, ou obrigam a fazer crimes, controlam toda a sua vida, e as outras não fazem isso, ou fazem de maneira mais controlada. É uma conjuntura repressora e, com isso, começou a ter uma oposição muito maior que as outras”, revela uma fonte ligada ao sistema, que pediu para não ser identificada.

É neste contexto de aversão ao Primeiro Comando que se destaca o CV (Comando Vermelho). “O PCC passou dos limites, começou a matar comparsas, ameaçar, cobrar por tudo, tem gente que não aceita, tem gente que quer ser autônomo. Existe um receio de que o PCC se torne hegemônico no tráfico. Para combater isso e ganhar força, toda essa oposição se juntou ao Comando”, explica.

Assim começam os conflitos. O Comando Vermelho se aproveitou do mal-estar entre essas pequenas facções e os paulistas para formar alianças regionais com FDN (Família do Norte), do Amazonas; PGC (Primeiro Grupo Catarinense), de Santa Catarina; SDC (Sindicato do Crime), do Rio Grande do Norte; Bonde dos 40, do Maranhão; e Okaida, da Paraíba. Em troca, esses bandos ganham abrangência nacional e se fortalecem na oposição ao PCC.

“Em Mato Grosso do Sul não existem integrantes dessas facções, mas há uma oposição  grande dos sem-facção. Hoje, o ponto mais crítico é Dourados, que tem 2,4 mil presos e onde cerca de 1,3 mil são da oposição. Eles ocupam dois pavilhões, enquanto o PCC está encurralado em apenas um, e isso pode explodir a qualquer momento”, alerta.

Nas demais penitenciárias, Naviraí é outra com maior número de integrantes do Comando. Já na penitenciária de Segurança Máxima de Campo Grande e no presídio de Segurança Média de Três Lagoas, a maioria ainda é do PCC.

“É por isso que ocorrem as mortes. Quando o PCC descobre que algum preso está fazendo 'negócios' com o Comando ou com a oposição, manda julgar. Enquanto eles forem maioria vai ser assim, mas assim que a oposição crescer um pouco mais e resolver se rebelar, a guerra estoura”, explica.

PCC domina 40% da massa carcerária de MS, mas vê oposição crescer

Explosão - Conforme publicação da Revista Época, desde os primeiros sinais de racha, os presídios entraram em ebulição. No Rio de Janeiro, quase 100 presos da facção oriunda de São Paulo foram realocados antes da matança no Norte, no final de semana.

Em Porto Velho, 96 detentos foram transferidos para diferentes unidades de Rondônia depois dos assassinatos. Um início de motim em Pacatuba, no Ceará, terminou com grades quebradas e detentos soltos no pátio. Em Rio Branco, no Acre, 25 membros de uma organização invadiram a cadeia e deixaram quatro feridos. Um dos criminosos acabou preso.

Em Manaus, no Amazonas, os bandidos foram mais longe: falaram em “espalhar o terror” dentro e fora das penitenciárias e ameaçaram de morte promotores, juízes e o secretário de Segurança. Reivindicam que os chefes da facção local, a FDN, sejam mandados de volta a Manaus, para presídios mais seguros.

Diante de uma das mais graves crises de segurança pública nacional dos últimos tempos, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, restringiu-se a dizer que não faz comentários “sobre grupos criminosos”, mas admitiu que a situação nas cadeias é “gravíssima”.

“Não é possível combater de forma séria e dura o crime organizado se não começarmos pelos presídios”, disse. Um dia depois, Moraes determinou o envio de membros do Departamento Penitenciário Nacional para Boa Vista, em Roraima, para investigar os crimes.

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