Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Teoria das janelas quebradas ajuda a explicar por que terrenos abandonados viram depósitos de resíduos

Na criminologia, a Teoria das Janelas Quebradas sustenta que pequenos sinais de abandono, como janela quebrada, pichações ou lixo acumulado, transmitem a sensação de que ninguém cuida do espaço. A consequência é um efeito cascata: desordem atrai mais desordem. Em Campo Grande, a lógica se repete em áreas usadas para descarte clandestino.
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Campo Grande enfrenta um problema crescente de descarte irregular de resíduos, com cerca de 60 pontos críticos mapeados pela prefeitura. Sofás, entulho e eletrodomésticos abandonados formam lixões clandestinos que favorecem a proliferação de insetos e animais peçonhentos. O custo é duplo: mobilização de equipes e destinação no aterro. A cidade conta com cinco ecopontos gratuitos, mas o descarte irregular persiste até próximo a essas unidades. Multas variam de R$ 2,9 mil a R$ 11,7 mil.
Basta um sofá velho, um colchão ou um monte de entulho ser abandonado para que outras pessoas passem a enxergar o local como depósito improvisado. Em pouco tempo, o terreno se transforma em lixão a céu aberto, favorecendo a proliferação de insetos e animais peçonhentos e comprometendo a qualidade de vida da vizinhança. Hoje, a prefeitura mantém cerca de 60 pontos críticos mapeados.
Segundo o secretário da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos), André Brandão, o descarte irregular deixou de ser apenas uma questão de limpeza urbana e passou a impactar a saúde pública, o meio ambiente e as finanças do município. "O que observamos é que isso está muito relacionado à educação ambiental e, muitas vezes, a uma questão cultural. Isso favorece a proliferação de insetos e animais peçonhentos, compromete a estética da cidade e exige que o poder público atue depois que o crime ambiental já aconteceu", afirma.
Além dos impactos ambientais, a prática aumenta os gastos da prefeitura. O titular da pasta explica que, sempre que móveis, eletrodomésticos ou entulho são abandonados em terrenos baldios, equipes e máquinas precisam ser mobilizadas para retirar o material. Depois disso, o município ainda arca com o custo da destinação final no aterro da CG Solurb. "É um gasto duplo. Primeiro mobilizamos servidores, caminhões e máquinas para fazer a retirada. Depois ainda pagamos pela destinação adequada. Se o cidadão utilizasse um dos ecopontos ou levasse diretamente à Solurb, esse custo não existiria."
Segundo o secretário, esse dinheiro poderia ser aplicado em outros serviços de zeladoria, como roçada, pintura de meio-fio, manutenção de vias sem pavimentação e limpeza preventiva de bocas de lobo.

A praga dos sofás - Entre os resíduos encontrados nos pontos de descarte irregular, um chama atenção pela frequência: o sofá velho. Ao lado de colchões, geladeiras, guarda-roupas, camas, televisores e entulho da construção civil, ele se tornou símbolo dos lixões clandestinos espalhados pela cidade. "O maior volume é justamente de resíduos da construção civil e esses inservíveis volumosos. É isso que mais ocupa espaço e exige uma grande operação para retirada e transporte", explica.
Os prejuízos vão além da degradação da paisagem. Durante a limpeza de galerias pluviais no Jardim Los Angeles, por exemplo, equipes encontraram garrafas PET, cabos de vassoura, restos de construção e até animais mortos dentro dos bueiros. "Houve situações em que não conseguimos desobstruir a tubulação. Foi preciso abrir o asfalto e substituir manilhas por causa da quantidade de material acumulado", relata.
Confira a galeria de imagens:
Mesmo após mutirões de limpeza, os lixões costumam reaparecer rapidamente. "Fazemos uma força-tarefa com Guarda Civil Metropolitana, Planurb, Sesau e outras secretarias. Retiramos tudo e, no outro dia, o cidadão volta a jogar lixo no mesmo lugar. Isso mostra que o principal desafio continua sendo a conscientização."
A prefeitura mantém cinco ecopontos gratuitos, no Panamá, no Noroeste, no Nova Lima, no União e nas Moreninhas, para receber pequenos volumes de entulho, móveis velhos, eletrodomésticos e resíduos de poda. Ainda assim, existem pontos de descarte irregular a menos de 100 metros dessas unidades.

Cenário que se repete - Morador da Travessa Rio Apá, no Conjunto Aero Rancho, há 40 anos, o aposentado Antônio Ramalho Franco, de 56 anos, complementa a renda comprando materiais recicláveis para revenda. Quando a reportagem esteve no local, ele desmontava equipamentos para separar peças reaproveitáveis em um terreno que, até poucos dias antes, funcionava como lixão clandestino. O que não tem valor comercial é separado para recolhimento pela Solurb. "Em um mês, consigo juntar material que rende entre R$ 3 mil e R$ 4 mil. Já tenho lugar certo para vender. Quando o material chega, procuro fazer o serviço o mais rápido possível para não acumular".
Segundo Antônio, quase tudo chega ao local. "Tem máquina velha, bicicleta, armário, televisão. Das TVs a gente tira a placa, que tem valor. O restante, como vidro e outras peças que não servem, coloco em caixas de papelão para a coleta seletiva recolher."

Na mesma travessa, a dona de casa Lúcia de Fátima de Jesus, de 44 anos, mora no bairro há 29 anos e acompanhou o mutirão de limpeza realizado recentemente. Sentada em frente de casa, à sombra de uma árvore, ela lembra que o terreno acumulava móveis velhos, entulho e até animais mortos."Aqui tinha sofá, guarda-roupa, geladeira, todo tipo de tranqueira. Quase todo dia aparecia um cachorro morto. O cheiro de carniça era tão forte que a gente nem conseguia sentar na frente de casa. Quando um começa a jogar lixo, os outros vão atrás."
Segundo Lúcia, cerca de oito caminhões de lixo foram retirados da área. Agora, os moradores esperam que o terreno seja transformado em um espaço de lazer. A expectativa, porém, é acompanhada de desconfiança."Sempre prometem e nunca cumprem. Já falaram que aqui ia ter praça, academia ao ar livre, quadra de vôlei... Até agora, nada", lamenta.

No mesmo bairro, na Rua Babaçu, outro cenário chama atenção. Um morador transformou a frente da própria casa em um lixão a céu aberto. Segundo vizinhos, todo o material recolhido durante limpezas na vizinhança é depositado no local. O acúmulo de entulho, móveis velhos e outros inservíveis reduziu a rua a um estreito corredor, deixando apenas uma pequena passagem para veículos e pedestres.
Denúncias e multas - Casos de descarte irregular podem ser comunicados pelo Fala CG (156), que aciona a Sisep para limpeza e demais providências, ou pela Guarda Civil Metropolitana (153), por meio da Patrulha Ambiental. O descarte irregular e a queima de resíduos podem resultar em multas entre R$ 2,9 mil e R$ 11,7 mil, além das sanções previstas na legislação ambiental.
Para quem não dispõe de veículo para transportar móveis e entulho até um ecoponto, o Campo Grande News consultou empresas de frete e encontrou preços entre R$ 120 e R$ 300, conforme a região da cidade.

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