ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JULHO, QUARTA  22    CAMPO GRANDE 21º

Capital

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte

Teoria das janelas quebradas ajuda a explicar por que terrenos abandonados viram depósitos de resíduos

Por Viviane Oliveira | 22/07/2026 14:14
Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Entulho, sofás e restos de poda se acumulam em frente à casa de morador na Rua Babaçu, no Jardim Aero Rancho (Foto: Osmar Veiga)

Na criminologia, a Teoria das Janelas Quebradas sustenta que pequenos sinais de abandono, como janela quebrada, pichações ou lixo acumulado, transmitem a sensação de que ninguém cuida do espaço. A consequência é um efeito cascata: desordem atrai mais desordem. Em Campo Grande, a lógica se repete em áreas usadas para descarte clandestino.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Campo Grande enfrenta um problema crescente de descarte irregular de resíduos, com cerca de 60 pontos críticos mapeados pela prefeitura. Sofás, entulho e eletrodomésticos abandonados formam lixões clandestinos que favorecem a proliferação de insetos e animais peçonhentos. O custo é duplo: mobilização de equipes e destinação no aterro. A cidade conta com cinco ecopontos gratuitos, mas o descarte irregular persiste até próximo a essas unidades. Multas variam de R$ 2,9 mil a R$ 11,7 mil.

Basta um sofá velho, um colchão ou um monte de entulho ser abandonado para que outras pessoas passem a enxergar o local como depósito improvisado. Em pouco tempo, o terreno se transforma em lixão a céu aberto, favorecendo a proliferação de insetos e animais peçonhentos e comprometendo a qualidade de vida da vizinhança. Hoje, a prefeitura mantém cerca de 60 pontos críticos mapeados.

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Secretário da Sisep, André Brandão, durante entrevista ao Campo Grande News (Foto: Osmar Veiga)

Segundo o secretário da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos), André Brandão, o descarte irregular deixou de ser apenas uma questão de limpeza urbana e passou a impactar a saúde pública, o meio ambiente e as finanças do município. "O que observamos é que isso está muito relacionado à educação ambiental e, muitas vezes, a uma questão cultural. Isso favorece a proliferação de insetos e animais peçonhentos, compromete a estética da cidade e exige que o poder público atue depois que o crime ambiental já aconteceu", afirma.

Além dos impactos ambientais, a prática aumenta os gastos da prefeitura. O titular da pasta explica que, sempre que móveis, eletrodomésticos ou entulho são abandonados em terrenos baldios, equipes e máquinas precisam ser mobilizadas para retirar o material. Depois disso, o município ainda arca com o custo da destinação final no aterro da CG Solurb. "É um gasto duplo. Primeiro mobilizamos servidores, caminhões e máquinas para fazer a retirada. Depois ainda pagamos pela destinação adequada. Se o cidadão utilizasse um dos ecopontos ou levasse diretamente à Solurb, esse custo não existiria."

Segundo o secretário, esse dinheiro poderia ser aplicado em outros serviços de zeladoria, como roçada, pintura de meio-fio, manutenção de vias sem pavimentação e limpeza preventiva de bocas de lobo.

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Morador em situação de rua dorme em sofá abandonado na Rua das Orquídeas, no Jardim Jockey Club (Foto: Osmar Veiga)

A praga dos sofás - Entre os resíduos encontrados nos pontos de descarte irregular, um chama atenção pela frequência: o sofá velho. Ao lado de colchões, geladeiras, guarda-roupas, camas, televisores e entulho da construção civil, ele se tornou símbolo dos lixões clandestinos espalhados pela cidade. "O maior volume é justamente de resíduos da construção civil e esses inservíveis volumosos. É isso que mais ocupa espaço e exige uma grande operação para retirada e transporte", explica.

Os prejuízos vão além da degradação da paisagem. Durante a limpeza de galerias pluviais no Jardim Los Angeles, por exemplo, equipes encontraram garrafas PET, cabos de vassoura, restos de construção e até animais mortos dentro dos bueiros. "Houve situações em que não conseguimos desobstruir a tubulação. Foi preciso abrir o asfalto e substituir manilhas por causa da quantidade de material acumulado", relata.

Confira a galeria de imagens:

  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News
  • Campo Grande News

Mesmo após mutirões de limpeza, os lixões costumam reaparecer rapidamente. "Fazemos uma força-tarefa com Guarda Civil Metropolitana, Planurb, Sesau e outras secretarias. Retiramos tudo e, no outro dia, o cidadão volta a jogar lixo no mesmo lugar. Isso mostra que o principal desafio continua sendo a conscientização."

A prefeitura mantém cinco ecopontos gratuitos, no Panamá, no Noroeste, no Nova Lima, no União e nas Moreninhas, para receber pequenos volumes de entulho, móveis velhos, eletrodomésticos e resíduos de poda. Ainda assim, existem pontos de descarte irregular a menos de 100 metros dessas unidades.

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Antônio Ramalho Franco, de 56 anos, complementa a renda comprando materiais recicláveis para revenda (Foto: Osmar Veiga)

Cenário que se repete - Morador da Travessa Rio Apá, no Conjunto Aero Rancho, há 40 anos, o aposentado Antônio Ramalho Franco, de 56 anos, complementa a renda comprando materiais recicláveis para revenda. Quando a reportagem esteve no local, ele desmontava equipamentos para separar peças reaproveitáveis em um terreno que, até poucos dias antes, funcionava como lixão clandestino. O que não tem valor comercial é separado para recolhimento pela Solurb. "Em um mês, consigo juntar material que rende entre R$ 3 mil e R$ 4 mil. Já tenho lugar certo para vender. Quando o material chega, procuro fazer o serviço o mais rápido possível para não acumular".

Segundo Antônio, quase tudo chega ao local. "Tem máquina velha, bicicleta, armário, televisão. Das TVs a gente tira a placa, que tem valor. O restante, como vidro e outras peças que não servem, coloco em caixas de papelão para a coleta seletiva recolher."

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Lúcia aproveita a sombra da árvore após a limpeza do terreno realizada pela prefeitura (Foto: Osmar Veiga)

Na mesma travessa, a dona de casa Lúcia de Fátima de Jesus, de 44 anos, mora no bairro há 29 anos e acompanhou o mutirão de limpeza realizado recentemente. Sentada em frente de casa, à sombra de uma árvore, ela lembra que o terreno acumulava móveis velhos, entulho e até animais mortos."Aqui tinha sofá, guarda-roupa, geladeira, todo tipo de tranqueira. Quase todo dia aparecia um cachorro morto. O cheiro de carniça era tão forte que a gente nem conseguia sentar na frente de casa. Quando um começa a jogar lixo, os outros vão atrás."

Segundo Lúcia, cerca de oito caminhões de lixo foram retirados da área. Agora, os moradores esperam que o terreno seja transformado em um espaço de lazer. A expectativa, porém, é acompanhada de desconfiança."Sempre prometem e nunca cumprem. Já falaram que aqui ia ter praça, academia ao ar livre, quadra de vôlei... Até agora, nada", lamenta.

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Entulho e móveis descartados irregularmente ocupam quase toda a Rua Babaçu, deixando apenas uma estreita faixa para circulação (Foto: Osmar Veiga)

No mesmo bairro, na Rua Babaçu, outro cenário chama atenção. Um morador transformou a frente da própria casa em um lixão a céu aberto. Segundo vizinhos, todo o material recolhido durante limpezas na vizinhança é depositado no local. O acúmulo de entulho, móveis velhos e outros inservíveis reduziu a rua a um estreito corredor, deixando apenas uma pequena passagem para veículos e pedestres.

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte

Denúncias e multas - Casos de descarte irregular podem ser comunicados pelo Fala CG (156), que aciona a Sisep para limpeza e demais providências, ou pela Guarda Civil Metropolitana (153), por meio da Patrulha Ambiental. O descarte irregular e a queima de resíduos podem resultar em multas entre R$ 2,9 mil e R$ 11,7 mil, além das sanções previstas na legislação ambiental.

Para quem não dispõe de veículo para transportar móveis e entulho até um ecoponto, o Campo Grande News consultou empresas de frete e encontrou preços entre R$ 120 e R$ 300, conforme a região da cidade.

Praga urbana: sofás e lixo transformam 60 áreas em pontos crônicos de descarte
Sofá velho descartado às margens do Rio Anhanduí, na Avenida Vereador Thyrson de Almeida, no Conjunto Aero Rancho (Foto: Osmar Veiga)

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.