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Comportamento

O que sobra para uns vira primeiro skate para crianças da Capital

Iniciativa reúne peças e vestuário doados para montar equipamentos a meninos e meninas da periferia

Por Amanda Ferreira | 06/09/2026 08:08


O que sobra para uns vira primeiro skate para crianças da Capital
Projeto Mikita distribiu não apenas skates para crianças, mas também peças de roupas (Foto: Arquivo Pessoal)

Para muitas crianças que crescem longe das lojas especializadas e das pistas mais estruturadas, ter um skate completo e de boa qualidade ainda é um sonho distante. Foi olhando para essa realidade que o skatista Thyago Lopes, de 38 anos, o “D2”, decidiu transformar peças usadas, tênis e equipamentos parados em oportunidade para quem quer começar no esporte.

Com três décadas de experiência sobre o skate, D2 percebeu que o custo para montar um equipamento adequado passou a afastar principalmente quem não consegue investir em shape, rodas e outras peças específicas. Segundo ele, modelos mais baratos, vendidos em lojas de departamento, nem sempre oferecem as condições recomendadas para a prática.

A partir dessa dificuldade, surgiu a ideia de recolher materiais que outros skatistas já não usavam e dar um novo destino a eles. No início, as doações aconteciam de maneira espontânea nas próprias pistas. D2 observava quem estava com tênis desgastado ou skate em más condições e entregava o que conseguia reunir.

O que sobra para uns vira primeiro skate para crianças da Capital
Uma das entregas feitas nos bairros da periferia da Capital (Foto: Arquivo Pessoal)

Com o aumento das contribuições de amigos e de pessoas que haviam deixado o esporte, a iniciativa ganhou proporção e passou a atender principalmente crianças de bairros periféricos de Campo Grande. A arrecadação também cresceu.

Além de peças avulsas, começaram a chegar roupas, calçados e equipamentos suficientes para a montagem de skates completos. D2 passou então a levar o material a regiões como o Santa Mônica e outros bairros da periferia.

A proposta do projeto é usar o skate como uma alternativa de convivência, lazer e permanência no esporte, especialmente para crianças que dificilmente teriam condições de comprar o próprio equipamento.

O que sobra para uns vira primeiro skate para crianças da Capital
Processo de montagem dos skates com materiais doados (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu não tinha condições também quando eu era mais novo. Agora eu consigo. Eu sou skatista desde os anos 90 e comecei a andar de skate em 96 e era muito difícil você ganhar uma peça, ainda mais um skate. E o skate é muito sinistro, cara. O skateboard é um leque de coisa, viu?”, contou D2 para a reportagem.

 Homenagem - O nome do Projeto Mikita também carrega uma homenagem pessoal. A iniciativa recebeu o nome de Marcos Mikita, pai de Thyago, que morreu no ano passado e, segundo o skatista, era conhecido por estar sempre disposto a ajudar quem precisava. Thyago conta que herdou dele esse olhar voltado ao próximo e decidiu colocar o sobrenome do pai no projeto como forma de manter viva essa característica por meio das doações.

As doações acontecem conforme as necessidades aparecem. Quando recebe a indicação de uma criança que precisa de tênis, shape, rodas ou outras peças, Thyago tenta reunir o material e fazer a entrega. Para conseguir os equipamentos, ele conta com doações de amigos, skatistas e apoiadores, além de buscar peças em diferentes pontos da cidade e até em municípios próximos.

O que sobra para uns vira primeiro skate para crianças da Capital
Prêmio dos jogos escolares foi um skate completo do Projeto Mikita (Foto: Arquivo Pessoal)

“O objetivo não é formar atletas profissionais, mas aproximar crianças do esporte e oferecer uma alternativa de convivência que possa afastá-las do contato com drogas e criminalidade”. Para D2, o principal retorno do projeto está na reação das crianças ao receberem o skate ou alguma peça que desejavam.

Ele resume a proposta dizendo que o esporte pode mudar trajetórias e criar novas referências para quem cresce em áreas mais vulneráveis. Quem quiser contribuir pode procurar os pontos de arrecadação parceiros ou entrar em contato pelas redes sociais ligadas ao projeto e à comunidade do skate @projetomikita.

Entre os locais citados por ele estão o Japa Nosso Bar, na Rua Guanabara, 1.538, e a Associação de Skate de MS, além dos perfis pessoais, da loja e da associação. “Meu pagamento é o sorriso da criança”, afirma. As entregas também vêm acompanhadas de um pedido aos responsáveis: o skate precisa ser usado.

D2 afirma que não cobra qualquer valor pelas peças ou equipamentos, mas orienta pais e mães a incentivarem as crianças a praticar e a não deixarem o material parado em casa. No início, as doações aconteciam principalmente nas pistas que ele já frequentava, mas, com o aumento das arrecadações, decidiu direcionar parte do trabalho para bairros onde há mais crianças em situação de vulnerabilidade.

Entre os locais que passaram a receber atenção estão regiões como Santa Mônica e Santa Emília, onde, segundo ele, há procura pelo esporte e muitas crianças sem condições de comprar o próprio equipamento. A ideia é levar os equipamentos diretamente até os bairros e ampliar o acesso de quem dificilmente conseguiria começar no skate por conta própria.