Onde rios enfraquecem, comunidades de MS trabalham para recuperar a água
Indígenas e quilombolas reabilitam nascentes e coletam sementes para preservar mananciais do Pantanal

Onde antes havia água suficiente para fertilizar a terra e favorecer o plantio, trechos de rios desapareceram e vazantes deixaram de existir. A transformação é percebida por quem vive nas cabeceiras dos cursos d'água que seguem em direção ao Pantanal e tem levado comunidades de Mato Grosso do Sul a buscar, no conhecimento acumulado ao longo de gerações, formas de recuperar nascentes e margens de rios.
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Comunidades indígenas e quilombolas de Mato Grosso do Sul adotam práticas tradicionais e técnicas de restauração para recuperar nascentes e margens de rios que abastecem o Pantanal. Dados do MapBiomas indicam que mais de 1 milhão de hectares de savana alagada foram perdidos no bioma entre 1985 e 2025. Segundo o WWF-Brasil, alterações nos biomas do entorno agravam a situação da planície pantaneira.
Na Terra Indígena Limão Verde, em Aquidauana, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, o engenheiro florestal e botânico Claudinei Terena acompanha as mudanças na paisagem a partir das próprias lembranças. Nascido no território, ele recorda uma época em que a abundância de água enriquecia o solo e permitia que a comunidade cultivasse o necessário para viver. Em reportagem publicada pela Agência Brasil, o botânico relata que partes de rios desapareceram devido ao assoreamento e que vazantes, canais ocupados pela água nos períodos de cheia e esvaziados posteriormente, já não existem em alguns pontos. Segundo ele, os rios também estão mais fracos.
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A mudança observada por Claudinei Terena acompanha uma transformação de grandes proporções pela qual o Pantanal tem passado. Dados do MapBiomas mostram que, entre 1985 e 2025, mais de 1 milhão de hectares de savana alagada foram perdidos no bioma. A redução corresponde a 84% da área dessa formação existente no início da série histórica. Desse total, 833 mil hectares passaram para outros tipos de formação, como savânica ou campestre.
Na Limão Verde, uma das respostas à redução da água está na restauração de 3,3 hectares de áreas de nascentes dentro do território indígena. A iniciativa, conforme o relato à Agência Brasil, busca manter o fluxo da água em direção ao Pantanal e, ao mesmo tempo, conservar produtiva aquela porção do Cerrado. O trabalho recupera práticas que, segundo o botânico, já faziam parte da vida da comunidade antes mesmo de receberem denominações técnicas, como é o caso dos sistemas agroflorestais, que combinam diferentes espécies no mesmo espaço.
“Um dos exemplos que a gente apresenta aqui dentro da comunidade é o nosso sistema de cultivo. Nós sempre trabalhamos com agrofloresta sem a gente perceber. A gente sempre plantou em consórcio com alguma coisa”, contou Claudinei à Agência Brasil.
Claudinei lembra que aprendeu ainda criança a reconhecer quais madeiras poderiam ser usadas nas construções e quais plantas tinham propriedades medicinais, identificando diferentes utilidades para cascas, frutos, folhas e raízes.
Sementes que percorrem MS - A cerca de 400 quilômetros da Limão Verde, outra comunidade também participa do esforço para recuperar áreas importantes para a conservação da água, desta vez no Cerrado. Na comunidade quilombola Santa Tereza, em Figueirão, esse trabalho começa com a coleta de sementes nativas. Adauto Cândido Pereira integra a Rede Flores do Cerrado e faz parte de um grupo de 31 coletores, entre 16 mulheres e 15 homens.
O material é comercializado para projetos de restauração desenvolvidos em outras regiões de Mato Grosso do Sul, fazendo com que o trabalho realizado no território quilombola contribua para a recuperação ambiental em diferentes pontos do Estado. A atividade segue critérios para garantir a regeneração das espécies. Um deles é manter parte das sementes nas próprias árvores, permitindo que cumpram seu ciclo natural.
“A gente coleta para atender outros projetos do Estado. (...) Trabalhamos com regras básicas de coletor, de deixar 30% da semente na árvore. Não chega e pega tudo. Tem cuidado com a árvore, com o meio ambiente”, afirmou Adauto à Agência Brasil.
Para o coletor, recuperar as nascentes é também uma maneira de recompor os rios. As sementes fornecidas pela rede são utilizadas em projetos de restauração, inclusive de margens de cursos d'água.
As experiências de Limão Verde e Santa Tereza estão ligadas por uma questão geográfica que ajuda a explicar a fragilidade do Pantanal. A planície depende da água que chega de outros territórios e ecossistemas. Além do Cerrado, recebe influência da Amazônia e Mata Atlântica, no Brasil, e do Chaco e Bosque Chiquitano, na Bolívia e no Paraguai.
Segundo a analista de conservação do WWF-Brasil (Fundo Mundial para a Natureza) Cyntia Santos, essa característica faz com que alterações ocorridas fora da planície tenham reflexos no Pantanal. “É uma planície que depende da reação e das causas nos outros biomas e é afetado por toda essa situação. Ainda mais com as mudanças climáticas atuando também no entorno dele”, afirmou.
Os projetos desenvolvidos nas duas comunidades fazem parte, segundo Cyntia, de intervenções de restauração de cabeceiras realizadas pelo WWF-Brasil no Cerrado. O objetivo é enfrentar alterações no uso da terra capazes de soterrar nascentes e dificultar o fluxo dos rios que seguem para o Pantanal.
Para a analista, parte do problema está relacionada a atividades econômicas desenvolvidas sem orientação adequada, além da falta de assistência técnica e incentivos. A preservação dos caminhos da água, porém, não depende apenas da recuperação da vegetação. Cyntia também chama atenção para intervenções nos próprios rios. Entre elas estão as PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), que, segundo a especialista, fragmentam cursos d'água e provocam impactos sobre a biodiversidade aquática.
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