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Capital

Saco plástico na porta e forno de tijolos: o improviso da escassez contra o frio

Em barracos improvisados ou casas precárias, moradores esperam doações e tentam se proteger do frio intenso

Por Silvia Frias e Cleber Gellio | 18/05/2022 12:06
Joel em frente a tudo que tem: a roupa do corpo e uma lona sustentada por madeiras. (Foto: Marcos Maluf)
Joel em frente a tudo que tem: a roupa do corpo e uma lona sustentada por madeiras. (Foto: Marcos Maluf)

“O que eu tenho é isso aqui”. Joel Rocha Domingos, 65 anos, estende o braço e mostra o arremedo de moradia na Favela do Córrego Bálsamo, na região sul de Campo Grande. É no pequeno espaço erguido com madeira e coberto com lonas que tEm enfrentado o intenso frio dos últimos dias.

Assim como ele, vizinhos da favela e de outras comunidades fragilizadas de Campo Grande tentam driblar o frio. Desde o fim da semana passada, depois do temporal, as temperaturas começaram a cair no Estado e, na Capital, a mínima hoje chegou a 4,8ºC, com sensação de 2ºC.

Joel improvisa forno com tijolos. (Foto: Marcos Maluf)
Joel improvisa forno com tijolos. (Foto: Marcos Maluf)

Joel não tem gás, fogão ou geladeira. No cubículo, tem cama de solteiro e algumas roupas de cama. No corpo, o idoso usa tudo que tem para se proteger do frio: camisa social, casaco, calça, botina e o boné com a inscrita “Gratidão”. Ele aguardava a passagem da equipe do Cras (Centro de Referência de Assistência Social), que entregaria doações. No improviso, fez um forninho com tijolos para tentar se aquecer.

O vizinho, o pedreiro Ricardo Alexandre Angelo da Silva, 46 anos, está em situação melhor, mas não menos fragilizada. Apesar de ter alguns utensílios e eletrodomésticos (fogão, geladeira e gás), passou muito frio esta semana.

“O frio chega com força, chega até a dar câimbra, a gente se esquenta do jeito que pode”, conta. Se protege com o único casaco que tem e, com os velhos cobertores, tenta tampar os buracos do barraco para barrar os ventos.

Lúcia mostra como usou saco plástico para tentar conter o frio da madrugada. (Foto: Cleber Gellio)
Lúcia mostra como usou saco plástico para tentar conter o frio da madrugada. (Foto: Cleber Gellio)

Há um ano, sofreu as consequências do improviso: como estava sem gás, ateou fogo em uma latinha com álcool, mas acabou sendo atingido e sofreu queimaduras nas costas. Ao olhar para a situação do vizinho, se resigna: “Se você acha minha situação ruim, tem gente que acaba sendo pior”.

Também na região sul, mas na Comunidade Lagoa, perto do Jardim Colorado, a dona de casa Rosana Amaral, 44 anos, passa por situação semelhante. No barraco onde vive com o marido há cinco anos, a temporada de frio é sempre tempo de adversidade. Ontem, conseguiu pegar um dos cobertores doados pela Cufa (Central Única das Favelas). “Mas nem todo mundo consegui pegar”. A filha de 18 anos, com bronquite, foi despachada para casa do pai, onde poderia se abrigar melhor.

Ricardo se queimou ano passado ao usar lata com álcool para se aquecer. (Foto: Marcos Maluf)
Ricardo se queimou ano passado ao usar lata com álcool para se aquecer. (Foto: Marcos Maluf)

Ela e o marido trabalham com coleta de material reciclável e dizem que os ganhos caíram muito desde a pandemia. Antes, os dois garantiam dois salários de renda, e agora, conseguem apenas um salário.

Saco plástico – As paredes de alvenaria da edícula simples no Bairro Aero Rancho não pouparam a família de Camile Cristina da Silva, 33 anos, do frio intenso.

Camile mora com os 4 filhos - de 13, 11, 5 e de 1 ano e 2 meses - na casa de duas peças. Quando se mudou, o imóvel construído nos fundos de uma casa não tinha porta e ainda está assim. A mãe de Camile, Lúcia da Silva Santos, 54 anos, improvisou saco plástico na porta para tentar barrar o vento. “Mas foi muito frio”, disse Lúcia.

As crianças menores não foram para a creche. Lúcia conta que a professora reclamou quando o menor foi levado e estava apenas com casaco fino. Se o frio continuar severo, diz, não vão poder ir.

Rosana conseguiu pegar cobertor doado pela Cufa. (Foto: Marcos Maluf)
Rosana conseguiu pegar cobertor doado pela Cufa. (Foto: Marcos Maluf)

"Mas agora acho que vai melhorar", espera Camile. Há uma semana, conseguiu emprego de faxineira e hoje deixou as crianças com a mãe para poder ir trabalhar. “Vou conseguir colocar as contas em dia”, disse, explicando que não tem como contar com ajuda dos pais das crianças: dois deles sumiram e o terceiro morreu.

O que não falta é prioridade: além do aluguel de R$ 350 atrasado há quatro meses, também precisa colocar comida na mesa. No armário, só tem pacote de arroz e outro de macarrão.

Pelo menos o frio começa a ceder até o fim de semana. A previsão é que a temperatura comece a aumentar na sexta-feira, com mínimas de 6ºC e máxima podendo chegar a 21°C na Capital. No sábado, a mínima será de 10° C e, a máxima, 23°C. Já no domingo, os termômetros ficam entre 12°C e 25°C.

Lúcia mostra o saco plástico usado para tampar a porta da edícula. (Foto: Cleber Gellio)
Lúcia mostra o saco plástico usado para tampar a porta da edícula. (Foto: Cleber Gellio)


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