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Sem vaga em hospital, mulher morre de covid intubada em posto de saúde

Segundo a Sesau, a mulher abandonou o posto de saúde quando estava em observação e só voltou com quadro grave

Por Paula Maciulevicius Brasil | 15/03/2021 15:50
Última imagem de Mariana em vida, foto tirada pelo filho dela dentro da UPA Nova Bahia, horas antes de morrer. (Foto: Arquivo Pessoal)
Última imagem de Mariana em vida, foto tirada pelo filho dela dentro da UPA Nova Bahia, horas antes de morrer. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Ela disse: 'meus parabéns, meu filho' e sorriu". No dia em que completava mais um ano de vida, o professor de Artes Marciais, Gleison Silva de Abreu, de 41 anos, via a mãe pela última vez. Sem saber que aquela seria a despedida, ele ouviu as felicitações acompanhadas de um sorriso ao deixar dona Glainor Mariana da Silva, de 60 anos, na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Nova Bahia, na Capital. Trabalhando em serviços gerais de uma empresa terceirizada que atende a Assembleia Legislativa, Mariana morreu de covid-19 na UPA, após um dia de espera por vaga em hospital.

O caso é confirmado pela Sesau, que reforça a necessidade de isolamento social diante da lotação máxima em todos os hospitais públicos de Campo Grande, devido à alta proliferação do coronavírus.

Segundo a família, Mariana como era conhecida, não tinha comorbidades. Na semana retrasada, entre quinta e sexta-feira, ela teria sentindo cansaço e procurado um posto de saúde. Passou pelo médico, ouviu que poderia ser chikungunya e que deveria fazer repouso em casa. Sem atestado, ela foi trabalhar na segunda-feira (8) na Assembleia e lá procurou a ala médica.

"Aí encaminharam ela para o UPA do Tiradentes, mas ela estava bem, tranquila. Lá estava muito desconfortável, calor, cheio de pessoas e os médicos queriam deixá-la em observação, mas eu perguntei se ela estava bem, se ela tinha falta de ar, como não sabíamos se era covid, levei ela pra casa", conta o filho.

O erro de deixar a unidade acabou levando à complicação do quadro.

Dona Mariana sorrindo ao lado dos filhos: Gleison e Erik. (Foto: Arquivo Pessoal)
Dona Mariana sorrindo ao lado dos filhos: Gleison e Erik. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda conforme a narrativa do filho, a ideia é que se a mãe tivesse qualquer piora, voltaria ao posto. "Ela dormiu bem à noite e de manhã [terça] disse que tinha acordado cansada e com falta de ar, aí eu falei que levaria ela no posto e que eu iria comprar os medicamentos do tratamento precoce, porque independentemente do que a ciência fala, tenho relatos de pessoas que se curaram com esse protocolo", diz Gleison.

No mesmo dia ela aproveitou para ir ao banco e pagar contas, até pedir para ser levada de volta à UPA, dessa vez do Nova Bahia. "Após darem entrada, falaram que ela ia ficar em observação, o teste para covid deu negativo. Eu conversei com ela por mensagem, perguntei se estava bem, ela disse que sim, que estava num quarto arejado, em uma cama e com oxigênio", lembra o filho.

Na manhã seguinte, de quarta-feira (10), a família conta que ela se queixou de falta de ar e o outro filho conseguiu driblar a segurança e entrar para ver a mãe. "Ela conversou, falou que estava um pouco cansada, mas até então estava falando bem, orientada. Até que acharam meu irmão lá e mandaram ele sair", fala Gleison.

O outro filho, Erik, foi então para casa fazer almoço e voltou por volta das 13h, quando recebeu a notícia que o deixou em choque. "Foi quando disseram que ela estava morta. Estava aguardando vaga para ir para o hospital e morreu na hora de intubarem. A médica disse que conversou com a minha mãe e ela autorizou a intubação. Tem alguma divergência aí, porque ela estava conversando normal. Não consigo entender", desabafa.

Gleison procurou a delegacia policial para registrar boletim de ocorrência e pedir necrópsia. "Mas como falaram que era covid, não podia fazer. Só botaram ela num saco plástico e enterrou. Quando ela morreu que fizeram o teste do cotonete, antes tinham feito só o de sangue", diz.

Mariana foi enterrada sem velório no cemitério Jardim da Paz, na quinta-feira, dia 11. "Nunca vi isso de matar em horas, ela não tinha nada, a saúde era zero bala. Ela trabalhava e estava fazendo planos de ir para a praia com a família. Era mulher forte, o estado dela não estava avançado assim, a gente não chegou a colocá-la em uma cadeira de rodas, por exemplo. Eu não vou generalizar e colocar todo mundo no mesmo pacote, mas acredito que em algum momento houve alguma falha", sustenta o professor.

Outro lado - A assessoria de imprensa da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) confirmou que a morte de Glainor Mariana da Silva foi por Covid-19.

A prefeitura lembra que o quadro foi agravado pela desistência de atendimento no dia 8.  "A paciente buscou atendimento...com quadro considerado leve...foi prontamente atendida, medicada e foi solicitada a realização de exames para posterior retorno. No dia 05 ela retornou na mesma unidade e passou novamente por atendimento.

No dia 08 de março ela deu entrada no CRS Tiradentes por volta de 10h44  onde foi novamente medicada e permaneceu em observação. Às 20h foi constatado que a paciente havia evadido da unidade, sem recomendação de alta", explica a Sesau.

O relatório do município confirma a versão da família, da espera por transferência que durou um dia. "No dia 9 a paciente procurou o CRS Nova Bahia por volta de 11h51 já com quadro de saúde agravado. Ela foi atendida, estabilizada e permaneceu aguardando transferência para uma unidade hospitalar.  A vaga foi disponibilizada no dia 10, por volta de 10h30, porém não houve tempo hábil para transferência, vindo a paciente a falecer horas depois".

Sobre o processo de intubação, a Sesau preferiu repassar explicações somente à família. Garante estar "à disposição dos familiares para os eventuais pedidos de esclarecimentos".


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