Traficantes donos de garagem de luxo na Capital são condenados a 69 anos
Nesta primeira sentença do caso, o foco foi o núcleo logístico do grupo que atuava em Campo Grande
Parte do braço logístico ligado ao “clã Morinigo” foi condenada a 69 anos de prisão pela 5ª Vara Federal de Campo Grande. As maiores penas foram aplicadas a Elson Marques dos Santos Júnior e ao pai dele, Elson Marques dos Santos. O primeiro foi condenado a 21 anos de prisão, e o segundo, a 14 anos, por tráfico internacional de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
RESUMO
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Nove integrantes do clã Morinigo foram condenados a 69 anos de prisão pela 5ª Vara Federal de Campo Grande por tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As maiores penas foram aplicadas a Elson Marques dos Santos Júnior, 21 anos, e ao pai, Elson Marques dos Santos, 14 anos, líderes do núcleo logístico do grupo, resultado da Operação Status da Polícia Federal, deflagrada em setembro de 2020.
Esse núcleo viabilizava o transporte de cocaína vinda do Paraguai em veículos adaptados. Segundo a sentença, o grupo cooptava motoristas, cadastrava “mulas”, comprava ferramentas para ocultar a droga nos tanques, monitorava rotas, descarregava cargas e escondia valores em espécie. Também gerenciava empresas de fachada, como a Classe A Motors e a Trato Rações, usadas para lavar dinheiro, além de pagar advogados e mesadas “cala-boca” a familiares de presos.
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Ao todo, nove integrantes foram condenados nesta primeira sentença do caso. Já os membros da família Morinigo, Emídio Gimenez Morinigo e os filhos Kleber e Jefferson, são julgados em outro processo. A condenação é resultado da Operação Status, deflagrada pela PF (Polícia Federal) em setembro de 2020. Um dos momentos emblemáticos da ação foi o “limpa pátio” feito na antiga concessionária de carros de luxo Classe A, em Campo Grande.
Elson Marques e o pai receberam as maiores penas porque, segundo a investigação, lideravam o núcleo logístico. Eles eram responsáveis diretos por cooptar os motoristas, comprar e providenciar a transferência dos veículos para os nomes das “mulas” e adquirir as ferramentas usadas para esconder a cocaína nos tanques. Elson Júnior também gerenciava a empresa de fachada e as finanças após as prisões, incluindo contratação de advogados e pagamento de mesadas “cala-boca” às famílias dos presos.
Na estrutura do grupo, o núcleo familiar de Elson mantinha relação próxima e direta com os principais líderes do clã Morinigo nas redes sociais, além de compartilhar endereços comerciais e residenciais na Capital.
Outro réu condenado por envolvimento com a chefia foi Renato Hernani de Moraes Mendes, que recebeu pena de 4 anos. Renato possui vínculo de parentesco por afinidade com a liderança. Ele é casado com a irmã da esposa de Jefferson Morinigo, apontado pelas investigações como um dos comandantes da organização criminosa.
Gerson Garcia, condenado a 4 anos e 8 meses, possui laço consanguíneo direto com o topo da pirâmide do grupo. Ele é irmão da esposa do patriarca, Emídio Morinigo Ximenes, sendo, portanto, tio legítimo de Jefferson e Kleber Morinigo. A investigação apontou que Gerson usava a própria casa para dar suporte aos negócios dos sobrinhos.
A relação dos demais condenados com a família Morinigo ocorria por subordinação profissional e laços de confiança intermediados pelos gerentes. Rondinele da Silva de Jesus, Edimar Heleno de Paula, Everton Luiz Costa de Oliveira e Abel Palacio receberam, cada um, pena de 4 anos e 8 meses de prisão. Cristiano Jonatan Diaz foi condenado a 4 anos.
Os réus Edimar Heleno, Rondinele, Gerson Garcia, Renato Hernani e Everton Luiz atuavam diretamente na estrada ou nos locais de depósito, descarregando a droga. Edimar, Rondinele e Everton eram os motoristas contratados para fazer as viagens. Gerson Garcia utilizava sua residência, no bairro Vila Progresso, como entreposto para descarregar a droga e desmontar os veículos que chegavam da fronteira.
Renato Hernani e Abel Palacio prestavam serviços de apoio na movimentação das cargas e no monitoramento das rotas para evitar barreiras policiais. Abel foi flagrado em conversas telefônicas orientando a própria família a esconder dinheiro vivo em locais seguros fora de casa assim que soube da prisão de outros integrantes do grupo na estrada.
Milhões
As provas coletadas apontam que a organização criminosa utilizava empresas comerciais e a compra de veículos para lavar o dinheiro gerado pelo tráfico de drogas. A Classe A Motors foi identificada como o principal canal de lavagem. O capital da empresa subiu de R$ 80 mil para R$ 2,5 milhões após a entrada de Jefferson Morinigo no negócio.
Para esconder os valores de origem ilegal, o grupo também abriu uma empresa de comércio de ração animal no bairro Morada do Sossego, chamada Trato Rações. O estabelecimento funcionava apenas como fachada, mantendo pouca mercadoria e as portas fechadas na maior parte do tempo. O local servia de garagem para um caminhão usado para buscar cocaína em Ponta Porã.
Os condenados lavavam dinheiro ocultando a real propriedade desses negócios e dos automóveis. Cristiano Jonatan Diaz aceitou figurar como proprietário falso, o chamado laranja, da empresa de ração e do caminhão-baú. A polícia descobriu a fraude ao constatar que o único bem real no nome de Cristiano era uma motocicleta usada de pequeno valor, incompatível com o patrimônio da firma.
Além das empresas de fachada, a denúncia revelou que os acusados utilizavam os serviços de uma rede de doleiros operada na fronteira e em estados vizinhos. O dinheiro em espécie obtido nas vendas da droga pagava contas de consumo, faturas de cartão de crédito das esposas dos líderes e despesas médicas de alto custo em hospitais do estado de São Paulo, sem passar pelas contas bancárias dos verdadeiros donos.
Os crimes que geraram as condenações variam de acordo com a participação de cada réu. Elson Marques dos Santos Júnior foi condenado por tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e por integrar organização criminosa. Seu pai, Elson Marques dos Santos, foi punido por tráfico internacional de drogas e organização criminosa. O início do cumprimento da pena é em regime fechado.
Cristiano Jonatan Diaz recebeu condenação pelo crime de lavagem de dinheiro. Como sua pena ficou em 4 anos e ele preenchia os requisitos legais, o juiz substituiu a prisão por duas penas alternativas, que consistem em prestação de serviços comunitários e pagamento de um salário mínimo a uma instituição de caridade.
Rondinele da Silva de Jesus, Gerson Garcia, Abel Palacio, Renato Hernani de Moraes Mendes, Edimar Heleno de Paula e Everton Luiz Costa de Oliveira foram condenados pelo crime de integrar organização criminosa com atuação transnacional. Todos receberam o direito de recorrer da sentença em liberdade, e o regime da pena é semiaberto.
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