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Capital

Traficantes donos de garagem de luxo na Capital são condenados a 69 anos

Nesta primeira sentença do caso, o foco foi o núcleo logístico do grupo que atuava em Campo Grande

Por Lucia Morel | 05/06/2026 15:43
Traficantes donos de garagem de luxo na Capital são condenados a 69 anos
Núcleo de quadrilha com a divisão dos "departamentos". (Arte: Thiago Mendes)

Parte do braço logístico ligado ao “clã Morinigo” foi condenada a 69 anos de prisão pela 5ª Vara Federal de Campo Grande. As maiores penas foram aplicadas a Elson Marques dos Santos Júnior e ao pai dele, Elson Marques dos Santos. O primeiro foi condenado a 21 anos de prisão, e o segundo, a 14 anos, por tráfico internacional de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

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Nove integrantes do clã Morinigo foram condenados a 69 anos de prisão pela 5ª Vara Federal de Campo Grande por tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As maiores penas foram aplicadas a Elson Marques dos Santos Júnior, 21 anos, e ao pai, Elson Marques dos Santos, 14 anos, líderes do núcleo logístico do grupo, resultado da Operação Status da Polícia Federal, deflagrada em setembro de 2020.

Esse núcleo viabilizava o transporte de cocaína vinda do Paraguai em veículos adaptados. Segundo a sentença, o grupo cooptava motoristas, cadastrava “mulas”, comprava ferramentas para ocultar a droga nos tanques, monitorava rotas, descarregava cargas e escondia valores em espécie. Também gerenciava empresas de fachada, como a Classe A Motors e a Trato Rações, usadas para lavar dinheiro, além de pagar advogados e mesadas “cala-boca” a familiares de presos.

Ao todo, nove integrantes foram condenados nesta primeira sentença do caso. Já os membros da família Morinigo, Emídio Gimenez Morinigo e os filhos Kleber e Jefferson, são julgados em outro processo. A condenação é resultado da Operação Status, deflagrada pela PF (Polícia Federal) em setembro de 2020. Um dos momentos emblemáticos da ação foi o “limpa pátio” feito na antiga concessionária de carros de luxo Classe A, em Campo Grande.

Elson Marques e o pai receberam as maiores penas porque, segundo a investigação, lideravam o núcleo logístico. Eles eram responsáveis diretos por cooptar os motoristas, comprar e providenciar a transferência dos veículos para os nomes das “mulas” e adquirir as ferramentas usadas para esconder a cocaína nos tanques. Elson Júnior também gerenciava a empresa de fachada e as finanças após as prisões, incluindo contratação de advogados e pagamento de mesadas “cala-boca” às famílias dos presos.

Traficantes donos de garagem de luxo na Capital são condenados a 69 anos

Na estrutura do grupo, o núcleo familiar de Elson mantinha relação próxima e direta com os principais líderes do clã Morinigo nas redes sociais, além de compartilhar endereços comerciais e residenciais na Capital.

Outro réu condenado por envolvimento com a chefia foi Renato Hernani de Moraes Mendes, que recebeu pena de 4 anos. Renato possui vínculo de parentesco por afinidade com a liderança. Ele é casado com a irmã da esposa de Jefferson Morinigo, apontado pelas investigações como um dos comandantes da organização criminosa.

Gerson Garcia, condenado a 4 anos e 8 meses, possui laço consanguíneo direto com o topo da pirâmide do grupo. Ele é irmão da esposa do patriarca, Emídio Morinigo Ximenes, sendo, portanto, tio legítimo de Jefferson e Kleber Morinigo. A investigação apontou que Gerson usava a própria casa para dar suporte aos negócios dos sobrinhos.

A relação dos demais condenados com a família Morinigo ocorria por subordinação profissional e laços de confiança intermediados pelos gerentes. Rondinele da Silva de Jesus, Edimar Heleno de Paula, Everton Luiz Costa de Oliveira e Abel Palacio receberam, cada um, pena de 4 anos e 8 meses de prisão. Cristiano Jonatan Diaz foi condenado a 4 anos.

Os réus Edimar Heleno, Rondinele, Gerson Garcia, Renato Hernani e Everton Luiz atuavam diretamente na estrada ou nos locais de depósito, descarregando a droga. Edimar, Rondinele e Everton eram os motoristas contratados para fazer as viagens. Gerson Garcia utilizava sua residência, no bairro Vila Progresso, como entreposto para descarregar a droga e desmontar os veículos que chegavam da fronteira.

Renato Hernani e Abel Palacio prestavam serviços de apoio na movimentação das cargas e no monitoramento das rotas para evitar barreiras policiais. Abel foi flagrado em conversas telefônicas orientando a própria família a esconder dinheiro vivo em locais seguros fora de casa assim que soube da prisão de outros integrantes do grupo na estrada.


Traficantes donos de garagem de luxo na Capital são condenados a 69 anos
Uma das propriedades da família Morinigo no Paraguai. (Foto: Senad/Divulgação)

Milhões

As provas coletadas apontam que a organização criminosa utilizava empresas comerciais e a compra de veículos para lavar o dinheiro gerado pelo tráfico de drogas. A Classe A Motors foi identificada como o principal canal de lavagem. O capital da empresa subiu de R$ 80 mil para R$ 2,5 milhões após a entrada de Jefferson Morinigo no negócio.

Para esconder os valores de origem ilegal, o grupo também abriu uma empresa de comércio de ração animal no bairro Morada do Sossego, chamada Trato Rações. O estabelecimento funcionava apenas como fachada, mantendo pouca mercadoria e as portas fechadas na maior parte do tempo. O local servia de garagem para um caminhão usado para buscar cocaína em Ponta Porã.

Os condenados lavavam dinheiro ocultando a real propriedade desses negócios e dos automóveis. Cristiano Jonatan Diaz aceitou figurar como proprietário falso, o chamado laranja, da empresa de ração e do caminhão-baú. A polícia descobriu a fraude ao constatar que o único bem real no nome de Cristiano era uma motocicleta usada de pequeno valor, incompatível com o patrimônio da firma.

Além das empresas de fachada, a denúncia revelou que os acusados utilizavam os serviços de uma rede de doleiros operada na fronteira e em estados vizinhos. O dinheiro em espécie obtido nas vendas da droga pagava contas de consumo, faturas de cartão de crédito das esposas dos líderes e despesas médicas de alto custo em hospitais do estado de São Paulo, sem passar pelas contas bancárias dos verdadeiros donos.

Os crimes que geraram as condenações variam de acordo com a participação de cada réu. Elson Marques dos Santos Júnior foi condenado por tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e por integrar organização criminosa. Seu pai, Elson Marques dos Santos, foi punido por tráfico internacional de drogas e organização criminosa. O início do cumprimento da pena é em regime fechado.

Cristiano Jonatan Diaz recebeu condenação pelo crime de lavagem de dinheiro. Como sua pena ficou em 4 anos e ele preenchia os requisitos legais, o juiz substituiu a prisão por duas penas alternativas, que consistem em prestação de serviços comunitários e pagamento de um salário mínimo a uma instituição de caridade.

Rondinele da Silva de Jesus, Gerson Garcia, Abel Palacio, Renato Hernani de Moraes Mendes, Edimar Heleno de Paula e Everton Luiz Costa de Oliveira foram condenados pelo crime de integrar organização criminosa com atuação transnacional. Todos receberam o direito de recorrer da sentença em liberdade, e o regime da pena é semiaberto.


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