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Cidades

“Dei afeto, não podia desconfiar”, diz mulher enganada por falsa adolescente

"Ela tinha uma fala infantil, gestos típicos de autistas”, lembra mulher que acolheu golpista de 37 anos

Por Ângela Kempfer | 05/06/2026 14:45


RESUMO

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Renata Magalhães, nutricionista de 52 anos, foi uma das vítimas de Amanda Maria Souza de Oliveira, mulher de 37 anos presa por fingir ser uma adolescente de 12 anos com autismo para viver às custas de famílias acolhedoras. No Rio de Janeiro, Renata cuidou de Amanda por um mês e quinze dias, chegando a cogitar a adoção. A suspeita confessou aplicar golpes em diversos estados e possui antecedentes criminais. A defesa aguarda exame de sanidade mental.


Renata Magalhães, nutricionista de 52 anos, foi uma das vítimas de Amanda Maria Souza de Oliveira, presa por passar 14 meses fingindo ser uma adolescente de 12 anos e vivendo às custas de pais adotivos. Ela cuidou da mulher de 37 anos, no Rio de Janeiro, achando se tratar de alguém indefeso, durante um mês e quinze dias junto com a amiga Viviane Henriques, no Rio de Janeiro. “Ela me manipulava. Dei carinho, afeto, comida. Não tinha como desconfiar. Para mim, era como se fosse minha filha, já que não tive menina”, relata Renata.

Em entrevistas à imprensa carioca, a vítima de Amanda contou como a relação era conturbada. “Ela me deixava exausta emocionalmente, queria atenção o tempo todo e fazia crises se eu saísse de perto”, acrescenta.

A golpista também passou por Mato Grosso do Sul. Na época, em 2023, a polícia chegou a registrar o caso de falsidade ideológica, mas o processo não avançou. Impune, ela seguiu aplicando golpes pelo país, enganando famílias e instituições, até ser presa em Santa Catarina após ser adotada por uma família por 14 meses.

No caso do Rio de Janeiro, Renata conta que o golpe começou quando Amanda entrou em contato com o projeto social Mãos que abençoam com amor, alegando ter autismo. Segundo a vítima, a suspeita dizia ter fugido de um esquema de abusos no Ceará e que seus pais aplicavam hormônios que explicariam seu corpo adulto.

“Tudo parecia muito real. Ela tinha uma fala infantil, gestos típicos de autistas e se apegava emocionalmente a mim o tempo todo”, lembra Renata. Amanda mantinha comportamentos infantilizados, pedia mamadeira, chupeta e alimentos específicos, passava o dia desenhando e só saía para passeios curtos com as acolhedoras.

Renata e Viviane tentaram descobrir sua identidade e acionar autoridades, mas Amanda reagia com crises e chantagens emocionais. “Ela gritava, dizia que ia se machucar, se debatia. Eu chegava a dormir na sala para que ficasse tranquila. Era muito pesado emocionalmente”, afirma a nutricionista.

“Dei afeto, não podia desconfiar”, diz mulher enganada por falsa adolescente
Renata em foto ao lado de Amanda

A nutricionista chegou a cogitar a adoção da falsa adolescente, mas sem documentos, começou a registrar fotos escondidas e enviou a uma amiga delegada, que iniciou a investigação e descobriu a farsa. Após a revelação, Renata passou duas semanas sem dormir e ainda sente dificuldade para confiar nas pessoas. “Quando vi que investi minha confiança e esforço em alguém assim, fiquei completamente esgotada emocionalmente”, acrescenta.

Em Santa Catarina, Amanda se apresentou como “Gabriele” e construiu sua farsa ao longo de 14 meses. Alegava sofrer de autismo e que a aparência física era resultado do uso forçado de hormônios na infância. Ela manteve comportamentos infantis, utilizou objetos da infância e manipulou emocionalmente a família para impedir adoção e matrícula escolar.

A suspeita chegou a celebrar aniversário simulando seus 12 anos enquanto a família se envolvia emocionalmente sem desconfiar da farsa. “Ela inventava doenças, fazia crises, chorava desesperada. A família acreditava estar ajudando uma criança vulnerável”, diz Renata.

Em depoimento à polícia, Amanda admitiu que mentia sobre nome e idade para conseguir “lugar para dormir e comida” e disse ter aplicado o golpe em Florianópolis, Chapecó e outros estados. A investigação constatou que ela é reincidente e possui antecedentes por golpes em Porto Alegre, Curitiba, Nova Iguaçu, Minas Gerais, Goiás e Ceará, mas não em Mato Grosso do Sul.

Durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, voluntários perceberam sinais estranhos no corpo da suspeita. Exames de imagem identificaram mais de 200 agulhas espalhadas pelo corpo, que Amanda justificava com versões fantasiosas de maus-tratos. Situações semelhantes foram registradas em Goiás, onde testes confirmaram sua idade real, mas a suspeita foi liberada rapidamente.

A prisão em flagrante em Joinville foi convertida em preventiva. A defesa informou que aguarda a realização de exame de sanidade mental, já determinado pela Justiça, para esclarecer questões sobre a condição psicológica de Amanda.

Renata defende que, além da responsabilização judicial, a mulher precisa de acompanhamento psicológico. “Não é só prender, ela precisa de tratamento”, diz. Viviane afirma que não vai deixar de ajudar crianças e pessoas vulneráveis apesar da experiência traumática: “Mesmo com tudo que aconteceu, não vou parar de querer ajudar”. “É doloroso, mas não pode nos parar”, completa.