"Vergonha e medo dos deboches", justifica mulher trans que não denunciou estupro
Após quase um mês internada e duas cirurgias, Camila teve alta e falou com o Campo Grande News
Guardei para mim porque me senti envergonhada e com medo de que debochassem de mim. Muita gente acha que pessoas como eu não prestam ou fazem coisas erradas. No fim, levei tudo isso em conta”...
A explicação dada com voz abatida e por vezes trêmula, detalha o motivo pelo qual Camila Ferreira decidiu não denunciar sessão de agressão e estupro coletivo que enfrentou no dia 18 de junho. Com medo de que o relato fosse descredibilizado, a mulher transsexual guardou segredo sobre o dia que descreve como o pior que já viveu em 54 anos. “Nem para minha amiga contei. Só falei quando já não aguentava mais de dor e o estado era grave. Foi horrível porque ardia e queimava muito”, relata.
Corumbaense de nascimento, Camila veio para Campo Grande há cerca de 12 anos. No Bairro Vila Sobrinho, aos poucos ganhou o respeito e a amizade de boa parte dos moradores, com quem afirma sempre ter tido bom convívio.
- Leia Também
- Crime desde 2019, homotransfobia ainda esbarra em vazio de dados em MS
- Depois de 19 dias internada, transexual sequestrada e estuprada recebe alta
No dia do crime, ela voltava de um mercado por volta das 11h, depois de fazer compras para o almoço. Perto de uma praça movimentada do bairro, foi abordada por dois homens que estavam em um carro vermelho. “Parei porque a pessoa que estava no carro falou comigo como se fosse um amigo”, explica.
Pensando que no veículo estava alguém conhecido, ela afirma que se aproximou, mas acabou sendo puxada e presa pela dupla. “A partir dali a coisa mudou. Eles já me deram um tapa na cara, começaram a me xingar e ameaçar’, afirma.
Refém dos criminosos, Camila foi encapuzada e passou por uma sessão de tortura física e psicológica. Por fim, foi forçada a ter relações sexuais com um cachorro, abuso que lhe rendeu além do trauma, uma infecção que só piorou pela demora em procurar atendimento médico.
“O médico me disse que o cachorro tem muitas doenças e isso me deu uma inflamação por dentro. Começou a criar pus dentro de mim e, sinceramente, foi a pior coisa que já passei na vida”. Ela foi abandonada perto do Cemitério do Santo Amaro depois do crime e voltou para casa sozinha, onde permaneceu em silêncio até não suportar mais e pedir ajuda a um casal de amigos.
Internada no dia 25 de junho, a vítima narra que se agarrava à fé para superar os resultados físicos e emocionais. Ela foi submetida a uma cirurgia e apesar dos incontáveis pensamentos positivos para atrair a recuperação, o quadro se agravou e teve de passar por outra cirurgia. “Não demonstrei para não preocupar ninguém, mas na minha mente entrei em desespero pensando no que poderia acontecer. Minha cabeça ficou a mil e rezei bastante para me acalmar”, revela.
Foram dias de dor recebendo medicamentos fortes e tendo de ser submetida a baterias de exames. Batalha que fez Camila se questionar sobre a humanidade das pessoas.
“Eu sempre emiti coisas boas e mantive amizades. Nunca imaginei passar por isso um dia. Isso só mostra que o preconceito existe e que somos julgados da pior forma apenas por sermos nós mesmos ”, desabafa.
Até se recuperar totalmente, a vítima ficará na casa de amigos. Nesse período, conta com a solidariedade de quem pode ajudá-la. Na internet, uma vaquinha virtual arrecada dinheiro para que Camila esteja assistida até estar bem novamente. Quem quiser ajudar pode acessar o site clicando aqui.
A Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) investiga e procura pelos bandidos que vão responder por sequestro qualificado, estupro coletivo, injúria racial e lesão corporal dolosa grave.
*A vítima aceitou ter o nome e imagem divulgados pela reportagem do Campo Grande News.


