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Capital

Volta de alunos às escolas escancara 9 casos de abuso durante pandemia

Crianças e adolescentes voltaram a ter contato com professores e as denúncias vieram à tona

Por Paula Maciulevicius Brasil | 06/08/2021 12:40
Reabertas, escolas voltam a ser espaço seguro para alunos relatarem situações em que foram vítimas. (Foto: Paulo Francis)
Reabertas, escolas voltam a ser espaço seguro para alunos relatarem situações em que foram vítimas. (Foto: Paulo Francis)

Casos de abuso, relatos de ansiedade, depressão e síndrome do pânico. A volta às aulas na rede municipal trouxe à tona denúncias, desabafos e pedidos de ajuda que mostram o quanto escola é muito mais do que ensinar conteúdo. É através dela que crianças e adolescentes manifestam o que têm passado e o socorro é acionado, seja ele caso de polícia ou acolhimento.

De crime à tentativa de suicídio, os primeiros 10 dias de aulas exigiram da Semed (Secretaria Municipal de Educação) atenção total. Superintendente de Gestão e Normas da Semed, Alelis Izabel de Oliveira Gomes contabilizou do dia 26 de julho até o dia 5 de agosto, pelo menos, nove denúncias de abuso. Dois na primeira semana de aula e os outros sete nesta.

"Na semana passada, foram alunos que relataram para professores e coordenadores as ocorrências de abuso, desta semana foi diferente e bem chocante. Uma menina de 11 relatou que foi abusada por um familiar maior de idade, e que segundo a mãe, houve a denúncia, mas o agressor continuou solto", descreve Alelis. A Semed procurou a Defensoria Pública do Estado para verificar se procede o que foi informado pela família.

Em duas semanas de aulas, Semed prestou 70 atendimentos psicossociais a alunos. (Foto: Henrique Kawaminami)
Em duas semanas de aulas, Semed prestou 70 atendimentos psicossociais a alunos. (Foto: Henrique Kawaminami)

Outro caso que deixou a secretária muito preocupada foi de uma adolescente de 13 anos que admitiu ter tentado suicídio duas vezes depois de um abuso. "Estamos acompanhando essa menina de perto e fazendo o devido acompanhamento para o Caps (Centro De Atenção Psicossocial)", conta a superintendente.

O último caso que chegou ao conhecimento da Semed, foi de uma criança de 6 anos, que relatou ter sido abusada sexualmente em casa, durante a pandemia.

Os crimes não aconteceram necessariamente, só vieram à tona na escola quando as escolas reabriram e as crianças sentiram que poderiam contar.

Num ritmo de aula "normal", a Semed explica que os professores observam a ausência de interação, queda no aproveitamento da aprendizagem e a tristeza no aluno e percebem que ali pode estar uma vítima.

Agora que o contato ficou restrito às aulas online e muitos professores não conheciam pessoalmente os alunos, nem os estudantes os mestres, os fatos chegaram à escola por iniciativa das crianças e adolescentes.

Retorno às aulas trouxe à tona casos de depressão e ansiedade entre alunos. (Foto: Henrique Kawaminami)
Retorno às aulas trouxe à tona casos de depressão e ansiedade entre alunos. (Foto: Henrique Kawaminami)

"A escola já estava preparada para fazer os trâmites que devem ser feitos. Os professores precisam nos informar por telefone, uma equipe especial vai até lá, faz um relatório junto com a unidade escolar e aciona o conselho tutelar imediatamente. É o conselho que vai tomar conta do caso, acionar a família, levar à polícia e ao acolhimento, dependendo de como aconteceu", explica Alelis.

A experiência mostra para a superintendência que o que acontece fora da escola acaba vindo parar dentro das salas de aula, seja caso de violência física, falta de alimento, abusos sexuais. "É um trabalho que a gente faz há muito tempo de prestar atenção e em qualquer suspeita de abuso, chamamos o conselho tutelar, não deixamos passar nenhuma suspeita".

Depois de ser acionado, o Conselho Tutelar realiza o atendimento, e um dos procedimentos é levar essa criança para que seja realizada a escuta especializada na Depca (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), para posteriormente, aplicar as medidas de proteção cabíveis ao fato.

Em nota, o Conselho Tutelar enfatizou que o retorno às aulas é essencial em questão de denúncia de todos os tipos de violência.

Delegada, Fernanda Felix elenca pontos para professores observarem quanto ao comportamento de alunos que podem ser vítimas de abusos. (Foto: Kísie Ainoã)
Delegada, Fernanda Felix elenca pontos para professores observarem quanto ao comportamento de alunos que podem ser vítimas de abusos. (Foto: Kísie Ainoã)

Caso de Polícia - Os registros de denúncias na Depca (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) chegam a 41 de crimes envolvendo a violação de direitos das crianças e adolescentes, 10 deles são de estupro de vulnerável.

O número acima foi registrado apenas entre os dias 26 julho a 6 de agosto. "Acreditamos que nos espaços pedagógicos, a criança apresenta os primeiros sinais de que é vítima de abuso sexual e outras violações de direitos", comenta a titular da Depca, Fernanda Felix.

A delegada descreve que, como a escola é o primeiro lugar onde a criança começa a estabelecer relações fora do âmbito familiar, é nesse espaço que as crianças conseguem expressar situações que estão vivendo. "Sinais de cansaço, isolamento, marcas estranhas no corpo, dificuldade de se relacionar e de aprender são alguns dos sinais que uma criança ou um adolescente está sendo vítima de uma violência", destaca a delegada.

Saúde mental - A preocupação maior da Semed é com a saúde mental dos alunos e também servidores. Só nestas duas semanas de aula, a Prefeitura prestou atendimento psicossocial para 117 servidores, 70 alunos e 28 pais.

"Está retornando um grande número de alunos acometidos de muita ansiedade, depressão. É assustador o que temos visto nos atendimentos prestados por conta da saúde mental. Atendemos uma menina que estava com síndrome do pânico que não tinha condições de ficar na escola, e foi levada para atendimento emergencial no Caps", relata Alelis.

O que já existia antes em relação à depressão e ansiedade se acentuou, até porque muitos dos alunos perderam familiares. "A gente já vinha num processo de antes da pandemia de muitos alunos com depressão, então, já tínhamos uma radiografia do que aconteceria no futuro. Infelizmente, a doença mental agora é maior do que a gente pode imaginar", pontua.

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