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Tem vaga, mas até servente de pedreiro está difícil de achar na construção civil

Empresas relatam dificuldade para preencher funções básicas e qualificadas nos canteiros

Por Kamila Alcântara | 18/08/2026 16:16
Tem vaga, mas até servente de pedreiro está difícil de achar na construção civil
Dois trabalhadores da construção civil constroem área na laje de uma casa (Foto: Paulo Francis)

A dificuldade para encontrar trabalhadores em funções braçais e técnicas já alcança até ocupações consideradas porta de entrada para a construção civil. Pedreiros, serventes, carpinteiros, mestres e encarregados de obra aparecem entre os profissionais mais difíceis de contratar, segundo levantamento feito pelo sindicato do setor com empresas associadas em Mato Grosso do Sul.

RESUMO

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A construção civil em Mato Grosso do Sul enfrenta escassez de mão de obra em funções como pedreiro, servente, carpinteiro e mestre de obras, conforme levantamento do Sinduscon-MS. A Funsat aponta mudança geracional como causa: trabalhadores manuais buscaram outras carreiras para os filhos. O setor registra envelhecimento da força de trabalho e baixo interesse dos jovens. Como resposta, Funsat e Sinduscon-MS investem em qualificação profissional e parcerias com o Sistema S e o Senai.

Isso já foi identificado pela Funsat (Fundação Social do Trabalho) de Campo Grande. Segundo o diretor-presidente da instituição, João Henrique Bezerra, algumas profissões tradicionais estão com oferta reduzida de trabalhadores. “Soldador, não tem soldador no mercado”, resume.

Ele afirma que o problema não se limita à soldagem e associa parte da escassez a uma mudança entre gerações. Na avaliação do diretor-presidente, trabalhadores que passaram a vida em atividades manuais buscaram para os filhos outras profissões.

O pai foi soldador. Ele trabalhou para o filho se tornar um advogado, um médico, e não para seguir aquela tradição. Cada dia vai ter menos, porque o pedreiro que foi pedreiro quer formar o filho para ser um engenheiro. Então o filho não vai bater massa, ele vai querer se tornar um engenheiro”, afirmou João Henrique.

Tem vaga, mas até servente de pedreiro está difícil de achar na construção civil
Diretor-presidente da instituição, João Henrique Bezerra, em entrevista ao Campo Grande News (Foto: Osmar Veiga)

A percepção também aparece dentro da própria indústria da construção. Amarildo Miranda Melo, vice-presidente do Sinduscon-MS (Sindicato Intermunicipal da Indústria da Construção de Mato Grosso do Sul), afirma que a dificuldade de contratação não é recente e está entre os principais obstáculos apontados pelo setor.

“A falta de mão de obra qualificada não é um desafio novo para a indústria da construção e está entre os principais gargalos para o crescimento do setor”, disse.

Segundo Amarildo, sondagens da construção realizadas pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) nos últimos três anos vêm indicando dificuldades recorrentes na contratação de profissionais qualificados.

Ele afirma que o reflexo aparece diretamente nas obras. “Isso impacta no crescimento das empresas, que precisam alterar prazos e acabam tendo os custos elevados.”

A pesquisa feita pelo Sinduscon-MS com empresas associadas apontou que as funções mais citadas como de difícil preenchimento foram pedreiro, servente, carpinteiro, mestre de obra e encarregado de obra.

Para Amarildo, a presença do servente nessa relação chama a atenção porque indica que a dificuldade não está restrita às funções que exigem maior experiência ou qualificação. “Isso demonstra que não são só as profissões qualificadas que estão difíceis de encontrar, como também as funções de entrada no setor, como o servente”, afirmou.

Na avaliação do presidente da Funsat, algumas dessas ocupações oferecem hoje remunerações consideradas atrativas, mas exigem preparação específica. “Muitos deles estão se tornando cursos técnicos, exigindo a questão da formação técnica. Por isso é que a gente está ampliando nosso catálogo de cursos nessas áreas específicas que estamos vendo na demanda.”

Outra preocupação apontada pela construção civil é a renovação da mão de obra. Segundo Amarildo, o setor percebe envelhecimento dos trabalhadores e redução da entrada de jovens em determinadas funções.

A mudança de perfil no setor é clara. Nossa mão de obra está envelhecendo e cada vez menos a população jovem se interessa pelo setor”, afirmou.

Tem vaga, mas até servente de pedreiro está difícil de achar na construção civil
Amarildo Miranda Melo, vice-presidente do Sinduscon-MS (Sindicato Intermunicipal da Indústria da Construção de Mato Grosso do Sul) (Foto: Divulgação)

Na avaliação do dirigente sindical, atividades de caráter mais manual passaram a atrair uma parcela menor dos jovens. “O jovem hoje não quer esse tipo de trabalho mais manual, busca coisas ligadas muitas vezes à tecnologia”, disse.

Para Amarildo, a escassez também alcança funções com maior nível de formação. “Essa escassez atinge tanto profissões operacionais quanto profissões altamente qualificadas, como engenheiros, cenário que pode comprometer a capacidade do setor de atender à crescente demanda por obras.”

João Henrique apresenta raciocínio semelhante ao falar sobre a continuidade de algumas ocupações. “Automaticamente, dessas áreas específicas, dessas funções específicas, a gente não consegue ninguém no mercado de trabalho”, afirmou.

Para tentar aumentar a oferta de trabalhadores, Funsat e setor da construção apostam principalmente na qualificação profissional. João Henrique afirmou que a fundação busca parceria com instituições do Sistema S para ampliar a preparação de trabalhadores nas áreas em que empresas encontram dificuldades para contratar.

O Sinduscon-MS afirma manter iniciativas próprias. Uma delas é o projeto Elas Constroem, voltado à qualificação técnica de mulheres para atuação no setor. Outra é o Sindicato Qualifica, que oferece cursos gratuitos para novos profissionais e também busca requalificar quem já trabalha na construção.

Segundo Amarildo, as iniciativas contam ainda com parcerias com Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção). Além da formação profissional, o sindicato defende mudanças na própria forma de construir. “Além da qualificação profissional, a entidade defende o avanço da industrialização da construção e da adoção de tecnologias capazes de tornar os processos mais eficientes”, termina.

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