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Interior

Alta cúpula da Senad é suspeita de vazar ordem de prisão de traficante

Chefes da agência antidrogas possuem ligação com deputado acusado de dar fuga a Ronaldo Mendes

Por Helio de Freitas, de Dourados | 09/02/2024 09:55
O deputado paraguaio Lalo Gómez, acusado de ajudar na fuga de traficante douradense (Foto: Divulgação)
O deputado paraguaio Lalo Gómez, acusado de ajudar na fuga de traficante douradense (Foto: Divulgação)

Membros da alta cúpula da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) do Paraguai são suspeitos de blindar o deputado colorado Eulalio Gómez Batista, o “Lalo Gómez”, acusado de ajudar na fuga do narcotraficante sul-mato-grossense Ronaldo Mendes Nunes, 40.

Alvo de mandado de prisão temporária no âmbito da Operação Sanctus da Polícia Federal no dia 8 de dezembro do ano passado e apontado como membro do Comando Vermelho, Ronaldo Mendes Nunes estava em Pedro Juan Caballero e deveria ser preso pela Senad, a pedido da PF.

Entretanto, a agência paraguaia não conseguiu cumprir o mandado. Fontes policiais revelaram ao Campo Grande News, ainda em 2023, que Ronaldo chegou a ser preso, mas teria sido resgatado das mãos dos agentes paraguaios pelo próprio Lalo Gómez.

A Senad se manteve em silêncio sobre o caso. Procurada duas vezes pela reportagem para se manifestar sobre o suposto resgate do traficante, a assessoria de comunicação da agência paraguaia não se manifestou.

No dia 30 de janeiro, reportagem do Campo Grande News mostrou decisão da Justiça Federal citando o envolvimento de um deputado paraguaio na fuga de Ronaldo. O assunto ganhou repercussão em jornais do país vizinho.

Três dias depois, pela primeira vez, o Ministério Público do Paraguai se manifestou sobre o caso e confirmou que o carro de Ronaldo Mendes Nunes havia sido apreendido, no dia 8 de dezembro, no estacionamento de uma empresa agropecuária cujo principal acionista é o deputado Lalo Gómez.

Na mesma data, o chefe da Senad, ministro Jalil Rachid, também se pronunciou sobre o caso, mas manteve silêncio sobre o suposto resgate a mando do político do Partido Colorado. Segundo ele, a caçada ao traficante em território paraguaio continua até hoje.

Ronaldo Mendes Nunes, que fugiu do cerco da Senad em dezembro (Foto: Reprodução)
Ronaldo Mendes Nunes, que fugiu do cerco da Senad em dezembro (Foto: Reprodução)

Alta cúpula – Nesta quinta-feira (8), o Jornal Última Hora, um dos três mais influentes do Paraguai, publicou reportagem ligando chefes da Senad ao deputado Lalo Gómez. Segundo fontes do jornal, a alta cúpula teria vazado informações sigilosas sobre o mandado de prisão, facilitando o resgate de Ronaldo Mendes Nunes.

Segundo o Última Hora, o diretor-geral antidrogas da Senad, Hugo Derlis Batista, e o tenente-coronel Aldo Osmar Pintos, comandante das Forças Especiais, possuem ligação com Lalo Gómez. Dentro da Senad, os dois ocupam cargos de confiança do ministro Jalil Rachid.

Hugo Derlis Batista é primo em primeiro grau de Lalo Gómez Batista. Aldo Pintos é o atual marido de Helga Lizany Concepción Gómez, sobrinha e assessora direta do deputado.

“Como se pode trabalhar se temos de esconder informações de nossos próprios chefes? Se a gente informa ao chefe sobre as operações, os dados vazam”, afirmou ao jornal um agente da Senad que não teve o nome revelado por medida de segurança.

Ainda segundo esse mesmo agente, as informações do serviço de inteligência da PF brasileira sobre localização de alvos em território paraguaio são repassadas “no último minuto” para evitar vazamento. Dessa vez, no entanto, nem mesmo esse cuidado impediu a fuga, o que tem gerado desconfiança das autoridades brasileiras.

“Não se pode trabalhar tranquilo se dados de inteligência estão sendo vazados. Dessa forma, se rompe a confiança com o Brasil”, disse a fonte ao Última Hora. O agente reforçou na entrevista que o diretor Hugo Derlis Batista recebe informações de todas as operações que são feitas pela Senad em território paraguaio.

Operação Sanctus – Donos de empresas de transporte, imóveis, propriedades rurais e de duas unidades do Audaz Restaurante, Ronaldo Mendes Nunes e o irmão, Hermógenes Aparecido Mendes Filho, 49, são apontados pela PF como chefes de poderoso esquema de tráfico de cocaína.

Com respaldo do Comando Vermelho, a droga era levada da fronteira do Paraguai com Mato Grosso do Sul para o Rio de Janeiro em pneus de caminhões. Em um barracão da organização em Maricá, na região metropolitana do Rio, a droga era escondida em colchões “tipo exportação” e despachada de navio para a Europa.

O motorista de um caminhão que havia levado 160 quilos de cocaína e outros dois homens foram presos em Maricá no dia da operação. Aparecido Mendes e a advogada Cristiane Maran Milgarefe da Costa foram presos em Dourados. Apontada pela PF como amante de Aparecido e integrante da organização, Cristiane está em prisão domiciliar. Aparecido Mendes segue atrás das grades.

Segundo as investigações, os irmãos Mendes são ligados a Jorge Teófilo Samudio Gonzalez, 51, o “Samura”, um dos principais líderes da facção criminosa no Paraguai. Resgatado pelo Comando Vermelho quando voltava de audiência judicial em 2019, ele foi recapturado em 2021 em Sinop (MT), onde se escondia com apoio dos irmãos Mendes.

A casa de Aparecido Mendes, localizada no Bairro Terra Roxa, na região sul de Dourados, foi informada ao Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) como endereço residencial de Samura.

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