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Interior

Depois de fugir do cativeiro, professor passou noite escondido em mata

Em um depoimento detalhado, Ricardo descreveu a polícia às 16 horas em que passou refém de uma quadrilha de assaltantes de carro

Por Geisy Garnes | 05/06/2020 17:36
Professor foi liberado de cárcere depois que PRF prendeu um dos sequestradores (Foto: Facebook/Reprodução)
Professor foi liberado de cárcere depois que PRF prendeu um dos sequestradores (Foto: Facebook/Reprodução)

Horas de incerteza e medo escondido em meio ao mata até, finalmente, conseguir socorro às margens da BR-060. Esse é o relato do professor de agronomia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Ricardo Gava, de 33 anos, sequestrado na quarta-feira (3) em Chapadão do Sul.

Em um depoimento detalhado, Ricardo descreveu a polícia às 16 horas em que passou refém de uma quadrilha de assaltantes de carro, no município a 321 quilômetros de Campo Grande. O sequestro aconteceu por volta das 15 horas do dia 3 de junho.

Professor e um aluno trabalhavam na manutenção de tubos de irrigação às margens de estrada vicinal, bem em frente ao campus do UFMS. O rapaz anunciou que iria embora e se afastou para guardar parte dos equipamentos em seu carro. Pouco depois, viu a caminhonete de Ricardo deixar o local em alta velocidade.

Para a polícia, Ricardo contou que ao ficar sozinho percebeu a aproximação de dois veículos: uma motocicleta escura e um Fiat Strada branco. Inicialmente pensou que eram amigos à sua procura, mas assim que a picape estacionou, três homens desceram e anunciaram o assalto. Um deles estava armado e ordenou que o professor entregasse o celular e entrasse no banco de trás da própria caminhonete, uma Hilux preta. Dentro do veículo, ele foi encapuzado.

Os três assaltantes também entraram na caminhonete. Um quarto integrante do grupo desceu da moto e assumiu a direção da Strada e o quinto suspeito seguiu o “comboio” de motociclista. Eles dirigiram até a região da estrada Paraiso das Águas, onde o professor forçado a descer do veículo e caminhar pelo matagal. Ali foi mantido refém por várias horas.

Policiais militares na área de mata onde a vítima foi mantida em cárcere (Foto: Diário Chapadense)
Policiais militares na área de mata onde a vítima foi mantida em cárcere (Foto: Diário Chapadense)

O cárcere – Segundo o relato de Ricardo, os suspeitos garantiram que o soltariam por volta das 11 horas do dia seguinte, para isso só precisavam levar a caminhonete para o Paraguai para trocar por “veneno roubado”. A todo momento, os bandidos reforçavam que se ele “colaborasse voltaria vivo”. Depois o deixaram no matagal.

Apenas um dos assaltantes ficou com ele no local. Esse suspeito, segundo o professor, o tranquilizou várias vezes. Assim que desceram da caminhonete, o homem “resgatou” a caixa de ferramentas de Ricardo e afirmou que não deixaria os comparsas jogá-la fora, porque o professor era um trabalhador.

Mais tarde, deixou que Ricardo sentasse na caixa de ferramentas e entregou cobertor e água para ele. Enquanto isso comentou que aquele não era o ponto inicialmente combinado para ser o cativeiro, que ali, no meio do mato, não tinha sinal no telefone e também que estava arrependido de participar do crime.

O homem ainda deu outros detalhes. Afirmou ser de Campo Grande e que precisava pagar uma dívida com a quadrilha, por isso aceitou o “serviço”. Garantiu ao professor que não deixaria os comparsas fazerem mal nenhum a ele e que estava “constrangido” de envolver o professor nessa situação.

Horas depois, um segundo envolvido voltou ao local com comida para os dois. Pão com mortadela e mussarela e Coca-Cola foram entregue pelos assaltantes. De longe, Ricardo ouviu os dois conversarem que logo ele seria liberado, mas isso não aconteceu.

Depois que o segundo suspeito foi embora, as horas passaram sem que ninguém voltasse a região, como combinado. Nervoso, o bandido começou a desconfiar que algo havia dado errado. Não demorou muito para que uma nova movimentação fosse ouvida.

Barulho de carro e gritos por Ricardo começaram a chegar aos ouvidos dos dois homens escondidos no matagal. O suspeito então forçou o professor a se afastar ainda mais da rodovia. Após algum tempo, quando tudo ficou quieto de novo, os dois voltaram ao mesmo lugar, o ponto de encontro dos criminosos.

Ricardo revelou a polícia que a falta de notícia dos parceiros agravou o nervosismo do homem que estava com ele e sem saber o que poderia acontecer, sugeriu que ele fosse até outro ponto para conseguir sinal telefônico. Sugeriu até ficar amarrado enquanto isso, mas o suspeito não fez isso. Apenas se afastou.

Nesse momento Ricardo decidiu fugir. Em seu depoimento relatou que correu para longe com medo de ser perseguido e ainda precisou andar por horas até chegar as margens da BR-060. Como era de madruga, sabia que não conseguiria ajuda e por isso, e por receio de ser encontrado pela quadrilha, permaneceu escondido.

Já de manhã, saiu do matagal e tentou chamar atenção dos motoristas que passavam pela rodovia. Ele chegou a ajoelhar para pedir socorro, mas não funcionou. Por um tempo, contou ele a polícia, pensou em caminhar mais alguns quilômetros até uma fazenda, mas o medo de encontrar os assaltantes o impediu.

O professor tentou novamente recorrer aos motoristas e dessa vez foi atendido. O condutor de uma caminhonete reconheceu Ricardo e parou para ajudá-lo. Juntos foram até o Batalhão da Polícia Militar de Chapadão do Sul e de lá para a delegacia da cidade. Ainda em depoimento, a vítima contou outros detalhes da conversa com o bandido e afirmou ter ficado o tempo todo com o rosto coberto, por isso não conseguia reconhecer os suspeitos.

Caminhonete foi recuperada na BR-262 (Foto: Divulgação PRF)
Caminhonete foi recuperada na BR-262 (Foto: Divulgação PRF)

Prisões – Enquanto Ricardo era mantido refém, sua caminhonete foi abordada por policiais rodoviários federais na BR-262. Danilo Nogueira Lemes, 28 anos, conduzia o veículo e assumiu que a Hilux era roubada.

Ele negou, no entanto, participado na ação. Segundo a PRF, ele dirigia a quase 200 km/h e contou que foi contratado por R$ 3 mil somente para levar o carro primeiro para Dourados e de lá para Ponta Porã. No seu celular do suspeito estava gravado um número que seria um comparsa. Foi como a polícia identificou Tainer José Silva de Oliveira, de 25 anos.

Tainer foi preso em Cassilândia e também negou ter participado do crime. Ele contou que realmente foi procurado pela quadrilha, mas pensou na família e no emprego e não aceitou o serviço. Indicou então Danilo, que é seu amigo de infância, para a “missão”.

Danilo confirmou a história. Alegou estar duas semanas desempregado e por isso aceitou o “trabalho”. Detalhou que depois de concordar em dirigir a caminhonete roubado, recebeu a visita de um dos envolvidos no crime. Esse homem o levou até uma estrada vicinal, onde a Hilux estava. Dali, ele pegou a estrada com destino a primeira parada, Dourados.

Esse suspeito já foi identificado pela polícia. O caso segue em investigação.