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Interior

Esquartejamento marcou o ano na fronteira mais sangrenta do continente

A exemplo dos últimos seis anos, 2021 foi marcado por mortes violentas na linha entre Paraguai e MS

Helio de Freitas, de Dourados | 29/12/2021 08:48
SUV crivada de balas na chacina com quatro mortos, em outubro deste ano. (Foto: Arquivo)
SUV crivada de balas na chacina com quatro mortos, em outubro deste ano. (Foto: Arquivo)

Corpos esquartejados, decapitados e embalados em sacos plásticos e cobertores ou simplesmente jogados numa rua de terra. Juntam-se a essa estatística, as dezenas de execuções em plena luz do dia e chacinas com centenas de tiros de fuzil. Essas foram as cenas mais presentes no dia a dia da fronteira do Paraguai com Mato Grosso do Sul, em 2021.

O ano não foi diferente de todos os demais da última década, especialmente, de 2016 para cá. Mas se tivesse um ranking dos anos com crimes mais bárbaros e chocantes, 2021 estaria no topo.

Até mesmo moradores mais antigos das cidades-gêmeas Pedro Juan Caballero (Paraguai) e Ponta Porã (MS) se espantaram com tanta crueldade presente em boa parte das execuções registradas na linha internacional entre Amambay e Mato Grosso do Sul. Para policiais experientes da fronteira, é a forma que as quadrilhas usam para aterrorizar os inimigos.

Suspeitos de envolvimento em assaltos foram sequestrados, torturados, esquartejados ou simplesmente metralhados no trecho da fronteira mais violenta do Continente. Não há registros de outra linha entre dois países sul-americanos tão sangrenta como essa.

Faz lembrar Ciudad Juárez, na fronteira do México com os Estados Unidos, onde a guerra do tráfico patrocinava cenas semelhantes, com pedaços de corpos pendurados em viadutos e pontes, na década passada.

Não existem estatísticas confiáveis (apenas a Polícia de Mato Grosso do Sul divulga os números), mas é possível afirmar que, pelo menos, centenas de pessoas foram executadas nos dois lados da fronteira em 2021. Teve até traficante internacional morto com 400 tiros (Carlos Rubén Sánchez Garcete, o “Chicharõ”, em 7 de agosto).

Entre 25 de setembro e 25 de outubro, o mês mais violento deste ano, 17 pessoas foram executadas em Pedro Juan Caballero e Ponta Porã. Foram três no lado brasileiro e 14 em território paraguaio.

Em Ponta Porã, a morte de maior repercussão nesse período foi a do vereador Farid Afif (DEM).

No início da noite de 8 de outubro, no centro da cidade, Farid foi morto por pistoleiro de moto, quando andava de bicicleta. A polícia sul-mato-grossense fez força-tarefa com reforço de policiais da Capital, mas até agora, o assassinato continua sem solução.

Corpo de ex-político e traficante internacional, destroçado por 400 tiros. (Foto: Arquivo)
Corpo de ex-político e traficante internacional, destroçado por 400 tiros. (Foto: Arquivo)

Chacina – Em Pedro Juan Caballero, o caso mais emblemático neste sangrento período de 30 dias, foi a chacina de quatro pessoas, na madrugada do dia seguinte à morte do vereador.

O traficante paraguaio Osmar Vicente Álvarez Grance, o “Bebeto”, deixava uma festa no centro da cidade na companhia de grupo de amigos. Quando entrou em sua SUV da Chevrolet, três pistoleiros armados com fuzis desceram de uma caminhonete Toyota Hilux parada ao lado e dispararam 117 tiros de calibres 5,56 e 7,62.

Bebeto, que seria o alvo, morreu no local, assim como a namorada dele, Haylee Carolina Acevedo Yunis, 21, filha do governador de Amambay Ronald Acevedo. Também morreram a mato-grossense Rhamye Jamilly Borges de Oliveira, 18, e a douradense Kaline Reinoso de Oliveira, 22. As três eram estudantes de Medicina.

Suspeitos foram presos nos dois lados da fronteira. A polícia paraguaia apontou o traficante Faustino Román Aguayo Cabañas, 44, como mandante da execução de Bebeto por ciúmes da namorada. As mulheres morreram por “efeito colateral”, segundo a versão da polícia.

Uma semana após a chacina, Derlis David Sanchez Ayala, 23, foi morto a tiros de pistola e o corpo jogado em estrada da zona rural de Pedro Juan Caballero. Ao lado, foi deixado bilhete com a frase “Matei 3 meninas inocentes, fique de exemplo”.

A polícia paraguaia informou que ele era suspeito de ser um dos pistoleiros da chacina, mas até agora, 70 dias após as mortes, ainda não surgiu a prova cabal de quem foi o mandante e quem foram os assassinos.

Carro usado em execução, encontrado em chamas. (Foto: Arquivo)
Carro usado em execução, encontrado em chamas. (Foto: Arquivo)

Inocentes – A chacina que vitimou um traficante conhecido e três estudantes de Medicina não foi o único ataque com saldo de inocentes mortos. Sendo apenas o caso de maior repercussão, que virou notícia em todo o território brasileiro, situação bem rara na grande mídia, quando se trata da fronteira Paraguai-Mato Grosso do Sul.

Na noite de 26 de julho, a paraguaia Anabel Centurion Mancuelo postou foto nas redes sociais, feliz ao lado do namorado, Luís Mateo Martínez Armoa, 21.

“Meu amor, hoje você completa mais um ano de vida e eu agradeço a Deus por isso, tal como agradeço todos os dias por Ele ter colocado você na minha vida. Que no final deste dia você sinta seu coração aconchegado e recheado de amor, carinho e muita alegria. Parabéns meu amor, que Deus nos proteja e nos conceda muitos anos de vida”, escreveu o rapaz em postagem no Facebook.

Em seguida, os dois e outros amigos foram para uma choperia, no centro de Pedro Juan Caballero, para comemorar o aniversário de 22 anos dela. Quando bebiam, pistoleiros armados com submetralhadora 9 milímetros abriram fogo contra o grupo.

O único alvo seria Luís Mateo, conhecido por envolvimento com assaltos na fronteira. Anabel também foi atingida e morreu no hospital. As execuções nunca foram esclarecidas, assim como 99% dos crimes de pistolagem registrados nas duas cidades.

Bilhete assinado por "Justiceiros", deixado ao lado de corpo. (Foto: Arquivo)
Bilhete assinado por "Justiceiros", deixado ao lado de corpo. (Foto: Arquivo)

“Justiceiros” – Ao lado do corpo de Mateo, foi deixado bilhete assinado pelos supostos “Justiceiros da Fronteira”, grupo de extermínio conhecido há anos na linha internacional.

Em 2021, foram vários os corpos encontrados ao lado de bilhetes assinados pelos supostos “Justiceiros”. Para alguns moradores da fronteira, tratam-se apenas de artifício para desviar o foco das investigações.

No dia 3 de outubro, a Polícia Federal prendeu em Ponta Porã, o paulista Anderson Meneses de Paula, o “Tuca”, 32, apontado como atual chefe dos “Justiceiros da Fronteira”.

Integrante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), Anderson teria comandado a matança dos últimos meses na linha internacional.

Segundo o serviço de inteligência da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), Anderson de Paula estava na fronteira para assumir o comando do PCC em Pedro Juan Caballero e Ponta Porã, para substituir o também paulista Weslley Neres dos Santos, 35, o “Bebezão”, preso em março deste ano.

Anderson de Paula vinha operando na linha entre as duas cidades-gêmeas como “cabeça” do novo grupo “Justiceiros da Fronteira”, mas ainda sem o rótulo de líder do PCC. A matança de inimigos da facção teria sido para demonstrar força.

Coincidência ou não, após a prisão de Anderson de Paula, caiu consideravelmente o número de assassinatos assumidos pelos “Justiceiros”. As execuções, no entanto, não param.

Só em Ponta Porã, de janeiro de 2015 até o final de outubro deste ano, ocorreram 320 assassinatos. Em Pedro Juan Caballero, o número foi pelo menos duas vezes maior, mas a Polícia Nacional não divulga estatísticas.

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