ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no Twitter Campo Grande News no Instagram
JULHO, QUINTA  18    CAMPO GRANDE 20º

Interior

Justiça condena 21 integrantes da máfia do cigarro a 547 anos de prisão

Entre os condenados estão dois líderes da organização, Angelo Guimarães Ballerini e Valdenir Pereira dos Santos

Helio de Freitas, de Dourados | 27/01/2021 11:46
Angelo Ballerini no momento em que era algemado ao ser preso em resort de Maceió, em setembro de 2018 (Foto: Arquivo)
Angelo Ballerini no momento em que era algemado ao ser preso em resort de Maceió, em setembro de 2018 (Foto: Arquivo)

A Justiça Federal condenou 21 integrantes da mais bem estruturada quadrilha de contrabandistas de cigarro paraguaio baseada na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai. As penas somadas chegam a 547 anos de reclusão.

Entre os condenados estão dois dos principais chefes da máfia do cigarro da linha internacional, Valdenir Pereira dos Santos, o “Perna”, e Angelo Guimarães Ballerini, o “Alemão”.

Conforme revelou a investigação da Polícia Federal, em cinco anos de atuação intensa trazendo cigarro paraguaio para vários Estados brasileiros, a quadrilha causou prejuízo de R$ 1,5 bilhão para os cofres públicos.

A sentença do juiz Ney Gustavo Paes de Andrade, da 2ª Vara Federal em Ponta Porã, é o desfecho da primeira fase da Operação Nepsis, deflagrada em setembro de 2018 em várias cidades de Mato Grosso do Sul, em São Paulo e até no Nordeste brasileiro, onde “Alemão” foi preso no dia em que iria se casar, em um resort de Maceió (AL). A força-tarefa envolveu agentes da PF e da PRF (Polícia Rodoviária Federal).

Valdenir Pereira dos Santos, o “Perna”, condenado a 66 anos de prisão (Foto: Reprodução)
Valdenir Pereira dos Santos, o “Perna”, condenado a 66 anos de prisão (Foto: Reprodução)

“Perna” recebeu a maior sentença, 66 anos, 8 meses e 19 dias de reclusão em regime fechado e pagamento de 650 dias-multa. Angelo Guimarães Ballerini foi condenado a 64 anos, 10 meses e 12 dias de reclusão e terá de pagar 650 dias-multa.

A terceira maior pena, de 37 anos, 7 meses e 6 dias de reclusão, foi aplicada a José Carlos Guimarães Ballerini, irmão de “Alemão” e que também foi preso no resort de Maceió. José Carlos era um dos gerentes da quadrilha. Os outros 18 condenados receberam penas variando de 13 a 34 anos.

Contabilidade – Bem estruturada, a organização criminosa agia como empresa, com folhas de controle de mercadoria, tabela de valor do frete e contabilidade. Para conseguir trânsito livre nas estradas, pagava propina a policiais militares e rodoviários federais.

Conforme a Justiça Federal, a organização formou consórcio de grandes contrabandistas, com sofisticada rede de escoamento de cigarros contrabandeados do Paraguai, estruturada em dois pilares: sistema logístico de características empresariais e corrupção de policiais cooptados para participar do esquema.

A quadrilha pagava propina de R$ 70 mil a R$ 120 mil por mês aos policiais. Entretanto, o juiz federal deixou para a Justiça Militar de Mato Grosso do Sul julgar a denúncia contra os policiais militares Aparecido Cristiano Fialho, Joacir Ratier de Souza, Alisson José de Carvalho de Almeida e José Roberto de Santos.

Segundo a sentença de 724 páginas, os caminhões utilizados pelo grupo eram na maioria roubados ou furtados e tinham os sinais de identificação modificados. “De forma extremamente organizada, o grupo teria feito a passagem de aproximadamente 1.000 carregamentos de cigarros para o Brasil, entre janeiro e dezembro de 2017”, afirma o juiz federal, com base na denúncia do MPF (Ministério Público Federal).

Organograma – Os patrões eram responsáveis em articular o controle do sistema logístico e estabeleciam as rotas para passagem das cargas. Era deles a função de contratar e demitir gerentes e motoristas e definir o valor a ser pago aos demais integrantes da organização criminosa.

Já os gerentes formavam o elo entre patrões e os demais membros da quadrilha. Tinham a função de recrutamento, demissão e coordenação dos olheiros, mateiros e motoristas dentro da região de cada um. Também eram os gerentes que organizavam o transporte da carga e mantinham contato com os “policiais garantidores”.

Policiais corruptos - Os “garantidores-pagadores”, como os policiais do esquema eram chamados, recebiam “mesadas” para garantir a passagem do cigarro contrabandeado. Também agenciavam outros policiais para a organização, informavam o monitoramento das atividades de fiscalização, serviam como ligação entre a organização e outros policiais que entram no esquema.

Já os batedores, chamados dentro da máfia como “namorados”, monitoravam a fiscalização em tempo real, percorrendo o corredor logístico das cargas para reduzir a possibilidade de os motoristas serem abordados por policiais que não eram coniventes com a organização criminosa.

Já os olheiros ficavam em pontos estabelecidos pelos gerentes para observar a passagem de veículos e relatar fatos considerados relevantes, especialmente veículos de forças policiais descaracterizados que transitavam nas estradas.

Outra condenação anulada – Em setembro do ano passado, Angelo Guimarães Balerini e Valdenir Pereira dos Santos conseguiram derrubar na segunda instância da Justiça Federal a condenação de 50 anos no âmbito da Operação Teçá, ocorrida em 2019.

O entendimento da turma do TRF3 (Tribunal Regional Federal) da 3ª Região, sediado em São Paulo, é de que, embora provada a materialidade dos crimes de contrabando na denúncia feita pelo MPF, não foi provada a participação dos dois réus nos fatos. Os dois continuaram presos por causa do processo da Operação Nepsis.

Preso na Operação Nepsis, em setembro de 2018, é conduzido à delegacia da em Dourados (Foto: Adilson Domingos/Arquivo)
Preso na Operação Nepsis, em setembro de 2018, é conduzido à delegacia da em Dourados (Foto: Adilson Domingos/Arquivo)


Nos siga no Google Notícias