ACOMPANHE-NOS    
JUNHO, TERÇA  28    CAMPO GRANDE 18º

Interior

Novo paraíso do turismo, Piraputanga vive o inferno do "apagão" da telefonia

"Se cair o Wi-Fi, você só fica com o sinal de fumaça", reclama comerciante

Por Aline dos Santos | 27/10/2021 12:11
Claúdia mora há nove anos no distrito e conta do malabarismo para conseguir pedir socorro na cidade de Aquidauana. (Foto: Arquivo Pessoal)
Claúdia mora há nove anos no distrito e conta do malabarismo para conseguir pedir socorro na cidade de Aquidauana. (Foto: Arquivo Pessoal)

“A sua chamada será encaminhada para caixa postal e estará sujeita à cobrança após o sinal”. A mensagem é ouvida por todos que tentam contato com celulares em Piraputanga.

Distrito de Aquidauana e a 122 km de Campo Grande, a localidade é protagonista de um contrassenso. Enquanto ganha projeção como novo paraíso do turismo ecológico no portal do Pantanal, vivencia o inferno do apagão dos celulares.

A ausência de sinal de telefonia móvel exige malabarismo dos moradores. A situação se agrava em caso de pedidos de socorro.

“Na semana passada, foram dois casos. Uma pessoa passou mal na quarta-feira. Na quinta, teve acidente de trabalho. A gente manda WhatsApp para Camisão e alguém de Camisão liga. Isso atrasa a chegada do Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] em trinta, quarenta minutos. Até agora, graça a Deus, isso ainda não custou a vida de ninguém”, afirma a comerciante Cláudia Rosa de Azevedo, 49 anos.

Camisão também é distrito, mas por ser mais perto de Aquidauana, registra sinal de celular em alguns pontos. Piraputanga tem um orelhão na praça. Contudo,  ele também não é garantia de comunicação.

Após a passagem da tempestade de areia, no último dia 15, Cláudia até tentou recorrer ao orelhão para acalmar a mãe, que tem 78 anos e mora em Aquidauana. Porém, o telefone público estava estragado.

“Não completava a ligação. Eu estava tentando avisá-la que estava tudo bem. Mas tive que ir lá em Aquidauana para tranquilizar a minha mãe”.

Moradora em Piraputanga há nove anos, Cláudia abriu uma pousada há três meses. A decisão é reflexo de uma onda de investimentos que chegou após a inauguração da Estrada Parque (MS-450), que corta a Serra de Maracaju e é caminho para atrativos famosos, como os morros do Chapéu e do Paxixi.

“O movimento triplicou. Com a pandemia, as pessoas vieram para cá e deram de cara com a natureza. Mas as pessoas que chegam de fora não têm noção de que não pega celular e nem internet de pacote de dados”, diz Cláudia.

Piraputanga tem orelhão, mas que não funcionou no dia de tempestade de areia. (Foto: Cláudia Azevedo)
Piraputanga tem orelhão, mas que não funcionou no dia de tempestade de areia. (Foto: Cláudia Azevedo)

Quem pode arcar com o custo, como no caso dos comerciantes, paga serviço de internet banda larga. O Wi-Fi é por meio de fibra óptica, levada por empresa de Aquidauana.

Desta forma, essa modalidade de internet garante a comunicação em alguns pontos, como os estabelecimentos comerciais, mas na estrada, por exemplo, a regra é o apagão dos celulares. Outra possibilidade é ter um telefone fixo, opção que já caiu em desuso diante das facilidade da telefonia móvel, que permite transmissão de voz e dados.

“Depois que sai da BR-262 e entra para a Estrada Parque, já não ‘pega’ celular. Nenhuma operadora funciona, não tem torre”, diz José Martins, 41 anos, que há três meses abriu restaurante em Piraputanga.

Ele gasta R$ 380 por mês com dois pacotes de internet banda larga, mas nem sempre a velocidade agrada a clientela.

“Todo mundo chega e pede internet, o mundo hoje é digital. As pessoas querem postar nas redes sociais, se conectarem. Alguns acabam não ficando no nosso comércio. A gente fica de mãos amarradas, porque o serviço de telefonia é precário. Se cair o Wi-Fi, você só fica com o sinal de fumaça. Na verdade, a gente fica a mercê das operadoras, que não dão respostas. Apesar de ser uma briga de décadas”, destaca o comerciante.

Pitaputanga é presenteada com belezas naturais. (Foto: Marcos Maluf)
Pitaputanga é presenteada com belezas naturais. (Foto: Marcos Maluf)

Os ventos do crescimento do turismo ecológico também levaram Jorge de Barros, 58 anos, a investir na abertura de um espaço cultural com restaurante e hospedagem no distrito.

“Existe uma grande possibilidade de ter boom do turismo. A nova estrada leva a várias atrações e tem sítio arqueológico. Estamos bastante contentes, mas é preciso que a comunicação chegue com mais qualidade”, afirma Jorge.

Esperança renovada – Secretário de Cultura e Turismo de Aquidauana, o vereador licenciado Youssef Saliba, que mora há 22 anos em Piraputanga, acompanha a jornada do distrito e acredita que a expansão econômica possa atrair as operadoras.

De acordo com ele, o tema foi tratado há dois anos em audiência pública. “Teve representante do Ministério das Comunicações, de todas as empresas prestadoras de serviço. Elas informaram que cumprem o contrato e até um pouco mais. Dessa forma, o governo federal não tem como cobrar. Acredito que eles façam pesquisa de gastos e o custo deve ser alto”, diz Saliba.

No entanto, a expectativa é de que o serviço de telefonia móvel possa chegar junto com as novas empresas do setor de turismo. “Acredito que não deve demorar muito, as coisas vão acontecer. Estão sendo implantadas novas empresas do ramo de alimentação, de hotelaria. Muitos turistas estão visitando o nosso distrito”, afirma o secretário.

No último domingo, Piraputanga, uma terra presenteada por belezas naturais, completou aniversário de 90 anos. O nome sonoro quer dizer “peixe vermelho” em tupi-guarani.

A 30 quilômetros de Aquidauana, o distrito tem dois mil habitantes no núcleo urbano e zona rural. Aos fins de semana, a população quase triplica. Conforme Saliba, as barreiras sanitárias montadas no auge da pandemia identificaram média de três mil visitantes com destino a Piraputanga e Camisão.

Vista da Serra de Maracaju, no distrito de Piraputanga. (Foto: Marcos Maluf)
Vista da Serra de Maracaju, no distrito de Piraputanga. (Foto: Marcos Maluf)

O último ciclo de prosperidade em Piraputanga remonta ao Trem do Pantanal, que escoava a produção de farinha de mandioca, laranjas e demais frutas para Corumbá. “Na época, o trem movimentava muito o nosso distrito”, afirma Saliba.

Operadoras –  Em nota, a Claro informou que "investe continuamente em qualidade e expansão da sua rede em Mato Grosso do Sul, para atender o maior número de pessoas no estado". A empresa de telefonia garantiu ainda que informará a população assim que tiver novidades previstas para o município.

A Vivo e a Tim informaram que vão se posicionar no decorrer da tarde sobre a questão, diante da complexidade da informação solicitada pela reportagem. O Campo Grande News também entrou em contato com a  Oi, mas não obteve resposta.


**Matéria editada às 15h44 para acréscimo de informação

Nos siga no Google Notícias