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Campo Grande, Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019

14/07/2019 12:20

Paciente que denunciou médico por cobrar cirurgia é internada com dores

Paciente que denunciou médico após gravá-lo cobrando R$ 1 mil por cirurgia na Santa Casa está internada no Hospital da Marinha

Ronie Cruz e Geisy Garnes
Paciente que denunciou médico da Santa Casa está internada no Hospital Naval de Ladário (Foto: Divulgação/Marinha)Paciente que denunciou médico da Santa Casa está internada no Hospital Naval de Ladário (Foto: Divulgação/Marinha)

A paciente Kerolaine Campelo dos Santos, de 25 anos, que denunciou um médico da Santa Casa de Corumbá por cobrar R$ 1 mil por cirurgia do SUS (Sistema Único de Saúde), disse ao Campo Grande News neste domingo (14) que está enfrentando "fortes dores e hemorragia". A jovem precisou ser internada novamente no Hospital da Marinha em Ladário no sábado (13) e segue sob acompanhamento médico.

"Internei ontem com fortes dores e hemorragia. [Hoje] continuo com fortes dores. Vou ficar internada para tentar controlar as dores e amanhã (segunda-feira) fazer alguns exames", disse.

Cirurgia - Kerolaine foi internada pelo SUS na Santa Casa de Corumbá na manhã do dia 22 de abril após sentir fortes dores e sangramentos no útero. Por prescrição do médico, ela ficou internada na unidade até o dia seguinte para a realização de exames, mas só depois de um desmaio voltou a ser atendida pelo médico Ricardo da Fonseca Chauvet, de 57 anos.

De acordo com Kerolaine, enquanto estava sozinha no quarto Ricardo teria perguntado para ela se ela faria uma faxina na casa dele por R$ 24,00. “É isso que o Estado me paga pra operar você”, ele completou. O médico então informou que não faria a retirada do pólipo apenas por esse valor, e informou o preço que cobraria para fazer o procedimento.

“Quando meu marido chegou no hospital, pedimos orientação com um familiar sobre o que deveríamos fazer e decidimos gravar o pedido dele novamente”, diz. O casal então foi até a sala do médico e sem que ele soubesse que estavam gravando, pediu para que ele repetisse o quanto cobraria para fazer a operação, prática proibida pelo SUS.

Na gravação o médico fala que pode manter a paciente internada no hospital, mas que o pagamento da cirurgia teria de ser feito “em dinheiro, sem recibo e antecipado, tá? Isso te custaria mil reais, tá? Só que isso é ilegal, tá? Mas eu tenho duas opções: ou o ilegal ou eu não faço", diz o médico.

Segundo a estudante, o preço inicial cobrado pelo médico era R$ 5 mil, mas durante a conversa ele baixou para R$ 1 mil. “Como eu estava muito mal, meu marido disse para mim continuar internada no hospital, mas no meio da noite fiquei muito assustada. Estava com muito medo de morrer e fugi”, conta.

Após a fuga que ocorreu por volta das 22h do dia 23 de abril a jovem tentou registrar boletim de ocorrência na Polícia Civil, mas, segundo ela, o investigador que a atendeu não quis registrar o ocorrido. Do local, Kerolaine e o marido que é militar procuraram o hospital da Marinha onde a paciente chegou a ficar internada por mais de 16 dias.

“Eu fiz uma primeira cirurgia para a retirada do pólipo, mas os sangramentos continuaram então os médicos descobriram que eu desenvolvi uma adenomiose. A demora no atendimento fez com que os sangramentos comprometessem outros órgãos e agora eu corro o risco de perder o útero”, lamenta.

Somente no último dia 9 de julho, depois que o seu quadro clínico foi estabilizado Kerolaine procurou a Delegacia de Atendimento à Mulher, onde o caso foi registrado como crime de corrupção passiva. “Mas eu vou lutar por justiça. Não foi só corrupção, me senti violentada. Houve omissão de socorro. Eu tive muito medo de morrer, mas hoje o sentimento é de revolta”, completa.

Investigação - A partir desta segunda-feira (15) o conselho de ética da Santa Casa vai ouvir o médico e a paciente e em seguida o caso deve ser encaminhado para o CRM (Conselho Regional de Medicina). A Santa Casa de Corumbá abriu investigação interna para apurar a denúncia. 

De acordo com o diretor técnico do hospital, Manoel João da Costa, o inquérito deve durar aproximadamente dez dias e o médico deve continuar atendendo durante o período até que a investigação seja concluída.

Hospital - Em nota, o hospital informou que “repudia veementemente qualquer comportamento contraditório as filosofias que fundaram e ainda alicerçam este hospital, que são os de solidariedade, caridade e respeito a dignidade da pessoa humana”.

Segundo a unidade, assim que a denúncia foi formalizada, a Direção Clínica e o Departamento Jurídico foram acionados, e que “aguarda o posicionamento técnico para que defina quais medidas deverão ser adotadas diante do fato, colocando-se a disposição da Justiça para auxiliar no que for necessário”.

A secretaria de saúde de Corumbá também repudiou o ocorrido e informou “que será instaurado procedimento administrativo disciplinar e encaminhado a corregedoria do município para apuração da responsabilidade funcional em relação a acusação”. A reportagem não conseguiu o contato do médico Ricardo da Fonseca.

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