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Interior

Pastor, presidente da Câmara faz piada com pandemia e contágio em vídeo

Carlos Henrique Nolasco Olindo (PSDB) preside a Câmara de Sidrolândia e acusa vazamento de vídeo de “crime”

Por Izabela Sanchez | 15/07/2020 09:51

Pastor evangélico e vereador pelo PSDB, o presidente da Câmara Municipal de Sidrolândia Carlos Henrique Nolasco Olindo está às voltas com vídeo que é espalhado nas redes sociais e revolta moradores da cidade a 71 km de Campo Grande. De chapéu de palha e sem máscara, na frente de um posto de combustível da cidade, Olindo ridiculariza a pandemia e a infecção causada pelo novo coronavírus, que chama de “curuvico”.



O vídeo, gravado pelo próprio vereador em estilo “selfie”, já é espalhado no aplicativo de Whatsapp e em postagens do Facebook, mas as piadas não foram bem recebidas. A reportagem recebeu as imagens de uma leitora, moradora da cidade. Ela pediu para não ser identificada por medo de represálias, mas disse estar “indignada” com a postura do presidente da Câmara.

“Ô moçada, tranquilo?”, assim o vereador saúda as pessoas para quem gravou o vídeo. Ele chama o Sars-Cov-2, o novo coronavírus, de “curuvico”.

“O pessoal, deixa eu falar o seguinte. Tá apavorado com negócio de curuvico? É o seguinte, é só acordar cedo, mas bem cedo, comer carreteiro de manhãzinha cedo, com ovo frito, banha de porco, tomar tereré com os outros, apertar na mão dos outros e não vai dar nada não, ninguém pega isso não. Esse negócio de curuvico, fica tranquilo gurizada, que Deus protege e guarda”, afirma ele.

Foi na pequena cidade na região de Campo Grande que a doença fez uma das primeiras vítimas. Faleceu no dia 7 de junho Cícera Aparecida, de 61 anos, a primeira morte da covid-19 em Sidrolândia e a 26ª do Estado.

Ao Campo Grande News, à época, a filha de Cícera relatou como a família ainda lutava para entender de que forma a dona de casa foi contaminada. Cícera morria de medo, contou ela, “e não saía de casa para nada”. O resultado do primeiro teste sobre a presença do vírus foi negativo. Cícera faleceu sem diagnóstico definido, que só veio cinco dias depois da morte.

“Fica aí esse nhem nhem nhem, esse negócio de curuvico, curuvico, faz o seguinte. Gurizada que tá louca lá na padaria, eles comem só miolo de pão. Miolo de pão pega mesmo. O que não pega é você tomar tereré bem cedo”, continua o presidente da Câmara no vídeo.

Em postagens com o vídeo no Facebook, os comentários não economizam nas críticas e citam as mortes pela doença na cidade. A leitora que enviou as imagens ao Campo Grande News afirma que o vídeo foi gravado durante a noite e é recente.

O presidente da Câmara Municipal de Sidrolândia, na região de Campo Grande, que disse ser pastor evangélico (Foto: Reprodução)
O presidente da Câmara Municipal de Sidrolândia, na região de Campo Grande, que disse ser pastor evangélico (Foto: Reprodução)

Procurado pela reportagem, Olindo atendeu a ligação dizendo “estou famoso”. Ele defende que o vídeo foi gravado “há muitos dias, num grupo restrito”. Questionado sobre a data, disse não se lembrar. Ele afirma “não ter permitido” que o vídeo fosse divulgado e que pretende acionar a polícia contra o "vazamento" e compartilhamento.

“Eu não permiti usar essa imagem, roubaram essa imagem, estão compartilhando há muitos dias, sem ter um pingo de responsabilidade. Filha, eu com certeza me preocupo [com a pandemia], tanto que eu fiz uma doação de R$ 200 mil”, disse ele, em alusão ao valor que depois de questionado, disse ser público, fruto da “economia da Câmara” e devolvido ao executivo municipal para ser empenhado em gastos no combate à covid-19.

“Na câmara e na nossa vida pessoal tomamos todos os cuidados. Quando saiu o covid, as pessoas do campo, as pessoas simples da área rural estavam muito apavoradas. Eu tenho muito contato [com moradores do campo]”, comenta ele.

O presidente da Casa de leis do município disse que o vídeo foi gravado com a intenção de acalmar as pessoas “de uma maneira totalmente diferente, de uma maneira jocosa, descontraída” e divulgado logo cedo, às 4h, enquanto ele “enchia uma garrafa de água para uso do tereré quando ia para área de assentamentos rurais”.

“Para tentar animar, fazer com que não entrassem em pânico. Temos que nos preocupar, mas também temos que tocar o Brasil”, opinou.

Questionado sobre a falta de máscara ao estar no posto de combustível, ele não respondeu, e afirmou que “quem compartilhou o vídeo está usando de má-fé. "Era 4h quando gravei, estava saindo para trabalhar num assentamento. Eu mexo na área do campo, trabalho muito ligado a assentamentos, compro e vendo gado”, declarou.

Direto das Ruas -  O vídeo chegou ao Campo Grande News por meio do canal Direto das Ruas, canal de interação do leitor com a redação. Quem tiver flagrantes, sugestões, notícias, áudios, fotos e vídeos pode colaborar no WhatsApp pelo número (67) 99669-9563. Clique aqui e envie agora uma sugestão.

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