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Política

MPF dá 48 horas para Prefeitura de Tacuru explicar ameaças a indígenas

Órgão quer saber quais medidas foram adotadas para garantir a segurança dos povos originários do município

Por Clara Farias | 28/10/2026 16:42

O MPF (Ministério Público Federal) deu prazo de 48 horas para a Prefeitura de Tacuru, a 420 quilômetros de Campo Grande, prestar esclarecimentos sobre áudios em que servidores municipais sugerem envenenar a água consumida por indígenas. A medida foi adotada após a repercussão das gravações, divulgadas depois do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, e integra uma investigação sobre denúncias de ameaças e intimidações contra comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul.

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O Ministério Público Federal deu prazo de 48 horas para a Prefeitura de Tacuru, em Mato Grosso do Sul, explicar áudios em que servidores municipais sugerem envenenar a água consumida por indígenas. O órgão quer saber sobre a autoria, a autenticidade das gravações e a segurança das comunidades, e recomendou processo disciplinar e afastamento cautelar dos envolvidos. O prefeito confirmou que os dois homens são servidores, abriu processo administrativo e afastou um deles. Em Naviraí, o MPF não confirmou ataques a indígenas.

Além de pedir informações sobre a apuração da autoria e da autenticidade dos áudios, o órgão quer saber quais medidas foram adotadas para garantir a segurança dos indígenas e a continuidade dos serviços públicos prestados às comunidades. O MPF também recomendou que, caso sejam identificados indícios consistentes de envolvimento de servidores municipais, a prefeitura abra um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) e determine o afastamento cautelar dos investigados.

A investigação em Tacuru está sob responsabilidade do 6º Ofício da Procuradoria da República em Dourados. O caso ganhou repercussão após a circulação de mensagens de voz em que dois homens conversam sobre a atuação do poder público junto aos indígenas e um deles sugere colocar veneno na água para matar integrantes das comunidades.

Nos áudios, o servidor público diz: “Você ‘tá’ doida, rapaz. Quem ajuda essas pragas do caralho aí? Um buraco que tampa com carriola, eles ficam incomodando nós com caçamba, e vai lá mexer e ajeita. E essas pragas do demônio, vai fazer o quê? A gente não pode fazer nada. Já falei, tem que ‘ponhar’ veneno na água. Matar essas pragas na água”, finaliza a mensagem de voz.

Ao Campo Grande News, o prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), confirmou anteriormente que os dois homens são servidores municipais, lotados nas secretarias de Meio Ambiente e de Infraestrutura. Na ocasião, ele afirmou que havia chamado a atenção dos funcionários e atribuiu as declarações ao consumo de álcool. Posteriormente, anunciou a abertura de processo administrativo e o afastamento de um dos envolvidos.

Um dos servidores atua com serviços relacionados ao lixo reciclável. O outro trabalha na manutenção de estradas vicinais e na condução de caminhões-caçamba, além de participar dos serviços com caminhões-pipa que abastecem comunidades indígenas. Após a repercussão do caso, o prefeito afirmou que designaria outro funcionário para essa atividade.

Naviraí

Além do caso de Tacuru, o MPF apurou denúncias de supostos homicídios contra indígenas motivados por conflitos políticos em Naviraí. Nesse caso, as diligências não encontraram confirmação de ataques contra integrantes das comunidades indígenas Kurupi e Mboreviry.

Segundo o órgão, lideranças consultadas negaram a ocorrência de agressões contra indígenas e relataram apenas notícias genéricas sobre um crime na área urbana do município.

Informações da 4ª Promotoria de Justiça de Naviraí e da prefeitura apontaram que o caso registrado foi uma tentativa de duplo homicídio decorrente de um desentendimento familiar e interpessoal, sem motivação política ou étnica. O MPF também identificou que imagens desse episódio circularam na internet de forma adulterada e fora de contexto, associadas falsamente a um suposto ataque contra indígenas.

A análise de documentos oficiais e de sistemas internos do MPF indicou que as duas vítimas do crime e seus pais não tinham registro de pertencimento indígena. Para complementar a verificação, o órgão encaminhou ofício à Sesai (Secretaria de Saúde Indígena) para consultar os cadastros de assistência.

As apurações fazem parte de procedimentos instaurados pelo MPF após denúncias encaminhadas pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), que relatou episódios de violência, atropelamentos, ameaças e suspeitas de contaminação de água após o segundo turno das eleições presidenciais.

Vermelhou - A troca de áudios entre servidores da Prefeitura de Tacuru, em que um deles sugere envenenar a água consumida por comunidades indígenas, ocorreu após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no município, no segundo turno das eleições presidenciais. O presidente recebeu 62,19% dos votos válidos, o equivalente a 3.189 votos, conforme dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Além de Tacuru, Lula venceu em Corumbá, Miranda, Dois Irmãos do Buriti, Paranhos, Japorã, Itaquiraí, Taquarussu, Vicentina e Selvíria.

MPF dá 48 horas para Prefeitura de Tacuru explicar ameaças a indígenas
Ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, em entrevista ao Campo Grande News nesta terça-feira (Foto: Luiz Doinizete)

Nesta terça-feira (27), o Ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, afirmou ao Campo Grande News, que havia enviado uma nota técnica à Polícia Federal sobre as ameaças contra as comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul.

“Entendemos que essa é uma ameaça, uma violência muito forte contra uma comunidade indígena, porque você está incitando até mesmo um genocídio de uma comunidade indígena por conta de um posicionamento político”, afirmou Terena. O ministro também disse que conversou com representantes dos ministérios da Justiça, dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial para estabelecer um fluxo de atendimento prioritário às denúncias.

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